Ônibus é tão bom quanto o metrô

Fonte: The
City Fix Brasil
Matéria/Texto:
Rafael Waltrick
O professor universitário Luis Antonio
Lindau conseguiu uma façanha. Ele reuniu no final de 2012, em Brasília,
prefeitos, secretários de Trânsito e técnicos de 39 municípios brasileiros para
discutir um tema comum a todos – motivo de dores de cabeça e discussões
infindáveis: o esgotamento do trânsito nas cidades. O workshop, que procurou
orientar os gestores e trazer referências nacionais e internacionais para as
administrações municipais na área de mobilidade urbana, foi promovido pela
Embarq Brasil, organização especializada em auxiliar governos e empresas no
desenvolvimento e implantação de soluções sustentáveis para os problemas de
transporte.

Durante o evento, Lindau, que é
diretor-presidente da Embarq no Brasil e PhD em Transportes, falou com a Gazeta
do Povo sobre as principais dificuldades enfrentadas pelos municípios
brasileiros na área de mobilidade e as alternativas que devem ser buscadas por
Curitiba para atrair mais passageiros para o transporte coletivo.
– Curitiba foi pioneira na
instalação do sistema BRT (sistema de transporte rápido) com a criação dos
corredores exclusivos de ônibus, em 1974. Nos últimos anos, o número de
passageiros estagnou e, hoje, o sistema é deficitário. Como reverter esse
quadro?
Está faltando
Curitiba fazer uma pesquisa de origem e destino [dos deslocamentos dos
passageiros], que Porto Alegre, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro
fazem. Todas essas cidades preparam uma pesquisa dessas no mínimo a cada dez
anos e aí se revela um padrão de mobilidade. Eu adoraria saber se o curitibano
usa ou não o BRT, qual a taxa de motorização das famílias, por exemplo. Mas não
há essas informações.
– Esse tipo de informação poderia
qualificar as ações do poder público voltadas à melhoria do transporte
coletivo?
Curitiba é uma
das poucas capitais, entre cidades do mesmo porte, que não tem essa pesquisa,
estranhamente. Uma das contribuições da Embarq para Curitiba foi a elaboração
de um termo de referência para a cidade fazer sua pesquisa de origem e destino.
Entregamos o documento em 2005 para o Ippuc. Isto tem que ser colocado em
campo.
– Falando em BRT, pesquisas da própria Embarq mostram que houve uma
explosão do uso desta alternativa de transporte em todo o mundo na última
década. Os prefeitos brasileiros estão atentos a essa tendência?
O grande
diferencial agora é que o governo federal está liberando recursos, colocando
para os gestores a exata dimensão do que é um corredor de ônibus, o que é um
BRT. Em muitos municípios, sempre havia aquele sonho do prefeito de fazer um
VLT [veículo leve sobre trilhos] ou um metrô, sem ter a noção da dimensão do
que estava falando. O importante é que esses gestores entendam que o BRT é tão
bom quanto o VLT ou o metrô.
– Os municípios estão preparados tecnicamente para fazer projetos nessa
área? Como a histórica falta de um corpo técnico qualificado afeta esse
planejamento?
É um
impedimento. E isso é resultado dos 30 anos de falta de investimentos públicos
nesse setor. Imagine toda a geração de pessoas formadas nesse período. O que
atrairia esses profissionais a trabalhar nessas cidades, se elas não tinham
acesso a nenhum recurso pra investir em transporte? Hoje, ainda é absolutamente
incomum encontrar um corpo técnico qualificado mesmo nas cidades de médio porte
no Brasil.
– Qual o futuro do carro nas
cidades? No exterior, principalmente na Europa, já se fala em um movimento de
derrocada dos automóveis, que estariam sendo deixados de lado pelos jovens.
Estive em 2011
na Europa em um encontro da indústria automobilística e a discussão é essa: é o
carro que vai marcar o desenvolvimento das cidades ou é o desenvolvimento das
cidades que vai afetar o mercado do carro? A grande preocupação para a
indústria de lá é que o jovem europeu quer morar no centro das cidades, caminhar
pelas ruas, circular com os amigos, voltar a pé ou de bicicleta para casa.
Esses jovens estão se livrando de um custo brutal que é o carro. Se colocar na
ponta do papel, o carro te custa uma fortuna por ano. Em vez de gastar nele,
você poderia educar melhor o seu filho, contratar um plano de saúde… Quem está
fazendo as contas já percebeu isso.

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