GLS Bus, duas décadas

Fonte:
Panorama Coletivo

Texto: Bruno R. Araújo

Fotos: Divulgação

 
Em pouco mais de 20 anos, estar nas ruas do Rio de Janeiro e ver um ônibus da marca Ciferal era uma tarefa bem mais fácil que atualmente. Embora o que antecede e sucede na história do fabricante fosse um fator enraizado, o GLS Bus foi um modelo marco no período de desestatização da Ciferal, simbolizou a última boa fase de vendas da empresa. Sendo um sucesso de vendas não apenas no Rio de Janeiro, mas em todo País. Os clássicos da produção foram muitos, mas apenas ele foi considerado pelo fabricante o de maior sucesso. Para entender com isto aconteceu esta é mais uma homenagem especial que relata um pouco da importância que representou este modelo para o Rio de Janeiro e para o Brasil, presente nas épocas de grandes mudanças na mobilidade urbana.

Em 1991 surge o primeiro bi-articulado brasileiro.

Sua história começa no ano de 1991, em Curitiba, algum tempo depois da conclusão da reformulação do sistema e do título de cidade modelo. O então prefeito Jaime Lerner, também arquiteto e urbanista já possuía em planos a adoção de ônibus bi-articulados, configuração esta que estava sendo desenvolvida na Europa inicialmente em fases de testes pela Volvo e Renault ao final da década de 1980. Aliando um conceito de ônibus inovador para paradas de ônibus inovadoras, surgindo portanto as famosas estações tubo. Essa díade é hoje um dos principais símbolos da capital paranaense. Não obstante estas famosas estações tubos deram origem ao que hoje conhecemos por BRT’s pelo Brasil e o mundo. A carroceria escolhida na época do primeiro bi-articulado brasileiro foi o modelo Padron Rio, também fabricado pela Ciferal em 1991. A princípio como um veículo de testes. Um pedido do mesmo prefeito foi feito, solicitava as fabricantes ônibus projetos inovadores, com um design mais futurista e arrojado, que pudesse continuar valorizado em toda vida útil sem restrições sabendo que o interfere diretamente na paisagem urbana com uma maior longevidade na vida útil do equipamento.
Um novo design para ônibus e as estações tubo, um marco no transporte brasileiro.

Nascia em 1992 o Ciferal Mega Bus, modelo o qual seria mais tarde percussor do GLS Bus, um ônibus para categoria de articulados e biarticulados*,mantinha o design com linhas retas, características da Ciferal para a época, mas com aerodinâmica inclinada, em formato de cunha, uma maior área envidraçada nos para-brisas e algo que fazia uma alusão a um trem bala junto das duplas articulações. Como a princípio a proposta era exclusiva para tal cidade, os padrões econômicos da época, manutenção e afins, dificilmente uma linha de produção seria viável e acabava por adicionar mais uma opção no leque de produtos, junto do Padron Rio onde o Padron Alvorada deixaria de ser produzido. Outras fabricantes como a Marcopolo apresentaria uma versão diferenciada e comercializou oficialmente anos depois como Torino LS. O Rio de Janeiro, até por força maior governamental partidária, através da a estatal CTC-RJ, também conheceria o modelo na versão apenas articulada, conhecido popularmente como o “minhocão”.

Apelidados de “minhocão” o Rio também conheceria o Mega Bus.
Tal como é ver a Ciferal para o Rio, é a CAIO para Sampa. Assim, no segundo semestre de 1993, a Masterbus de São Paulo após licitação para operar áreas nas zonas lestes e oeste da CMTC, fecharia uma encomenda inicial de nada menos que 317 ônibus e um pedido especial outra vez era feito. A Ciferal menos habitual nas ruas da capital de SP foi escolhida e atenderia a encomenda de um padrão exclusivo de ônibus que encubou o lançamento. Entretanto o aproveitamento do design frontal do Mega Bus não o fizesse de um veículo único, mas surgia na parte traseira o acompanhamento de um design moderno para o conjunto de uma carroceria que se utilizava das mesmas estruturas do Padron Rio convencional, pedida agora como um Mega Bus em versão não articulado.

Uma das 317 unidades da primeira encomenda do GLS Bus.
Na verdade podemos afirmar hoje foi que, enquanto a Ciferal atendia encomenda, manteria exclusividade apenas na comercialização devido a cliente também novata no ramo de transporte em SP e estrategicamente dar uma renovação pelas ruas, com um ar de ônibus especial antecipando o lançamento. A maior parte destes chassis eram 16.180CO, que a Volksbus iniciava a produção de chassis ônibus. Até o surgimento do modelo oficial no qual já havia um nome para a versão standard foi classificado provisoriamente como GLS Bus, do que pudesse ser entendido como o Mega Bus na sua versão standard, GLS, não mais que um Grand Luxo Sport dos ônibus da Ciferal.
Muitos acreditam fielmente que esse pedido originou o modelo. Há quem conta que um grande empresário da zona sul do Rio visitava o pátio da Ciferal quando viu algum dos mais de 300 pedidos para aquela cidade e então não só testou em uma das suas linhas, mas também o sugeria a fabricação em série. O fato é que na linha 127-Rodoviária-Copacabana da Real ainda em 1993, circulou um destes GLS Bus com as mesmas características da municipalização de SP em carácter de testes, até pela facilidade do chassi VW encarroçado ser o mesmo adotado pela empresa proprietária da concessionária Transrio, da Volkswagen Caminhões e Ônibus e, outro em Volvo B58E, que já era o protótipo de apresentação da Ciferal.

Borrachão lateral largo e protetores antichoque dianteiro, a Real testa protótipo do GLS Bus semelhante.

Do outro lado da moeda, na mesma cidade do Rio de Janeiro, sofreria uma reformulação dos padrões técnicos e junto disso, o fato da Ciferal ainda ser uma estatal, era desenvolvido em contrapartida um ônibus que atendesse integralmente os artigos propostos pela SMTR, tais como o tamanho das vistas, fontes, cores oficiais, poltronas, fórmicas, dispositivos de segurança, etc. Logo, mais uma vez a exclusividade de SP duraria pouco, pois em 23 de dezembro de 1993, estrategicamente na Praça Saens Pena, Tijuca, próximo do palco de uma tragédia de repercussão nacional que motivaria tais mudanças era lançado oficialmente o modelo GLS Bus, além do padrão de ônibus para a cidade do Rio de Janeiro (que entraria em vigor somente a partir de 1º março de 1994). Já como modelo homologado e vistoriado na presença do então prefeito César Maia, com já inicio de produção no primeiro semestre do ano seguinte foi impulsionado também pela operação dos corredores expresso centro-sul e centro-oeste apelidados de canarinhos equivalente aos BRS do Rio de hoje.

Anúncio de mudanças nos padrões técnicos e inauguração dos corredores para os ônibus “Canarinhos”
A foto é o veículo que foi exposto para apreciação do público na Praça Saens Peña, no Rio.

Surgia então já no início de 1994 para empresa Amigos Unidos o primeiro GLS Bus oficial da cidade encomendado ainda sem sustentar os padrões no tocante visual que, algum tempo depois ainda no primeiro semestre e, sendo os seguintes ao sair de fábrica, o da Matias e Real, os veículos nos padrões desenvolvidos sob a carroceria GLS. Todos idênticos ao design do modelo de São Paulo. Um design com identidade própria, do misto das mesmas linhas retas e aerodinâmica curva, desta vez de modo oficial, o design estaria acessível também para em aplicações de demanda de bairros. Entraria para complementar a linha de produtos, num projeto inovador, mas que acarretaria no encerramento da produção em seu irmão, o Padron Rio, até 95, mesmo com preço mais elevado de venda em até 7,5%.

Unidade da Amigos Unidos, o primeiro comercializado no Rio de Janeiro ainda no antigo padrão.

Apresentado pela Matias, o veículo desenvolvido para o Rio com novos padrões técnicos em vigor 01/03/1994.

Mesmo tornando um aproveitamento de design de outro produto da fabricante, a oportunidade de estar mais presente no cotidiano que não fosse à restrição de um articulado, notou-se pelas concorrentes a necessidade de se diferenciar para um visual realmente robusto, em que não havia nada igual no mercado onde se notava também uma remodelação total para seus novos produtos em relação aos anteriores, como a CAIO do Vitória para o Alpha, ou a Marcopolo do Torino LN para linha GV. Mesmo sendo uma estatal e, se recuperando de sua crise que culminou na primeira falência, a fabricante Ciferal sempre mostrou um enorme potencial para produtos urbanos por 40 anos completados em 1995, até pelo fato de um modelo ser desenvolvido junto a empresários, agregando valor no design. Como explica seu slogan “uma nova Ciferal” e “onde o cliente participa”.

Uma fórmula perfeita. Ao longo de sua produção houve diversas alterações modificando ou aperfeiçoando em pequenos detalhes. A primeira delas no ano seguinte, em 1995, conhecido popularmente como GLS bus II, deixava a dianteira com aberturas maiores na tomada de ar, ângulos inclinados e fixações de chapas revista perdendo os protetores de faróis. No final de 1996, uma nova alteração com tão pouco tempo marcava o modelo e também concluía a mudança administrativa da Ciferal como empresa privada, novo logotipo e eliminando linhas, deixando cantos arredondados em um aspecto mais jovial se comparado ao primeiro lançado, que apesar de toda aerodinâmica, possuía linhas mais conservadoras. Entretanto estas mudanças também marcaria uma mudança no acabamento, painel e cúpula de cores mais claras, mas principalmente um ponto final em seu principal problema: a estrutura. Na primeira versão foi o ponto fraco do modelo se mostrando frágil em versões mais longas registrando pontos de envergadura. No II, fixações das chapas e fórmicas deixavam o seu interior com partes soltas ou estufadas. O III chegaria ao aperfeiçoamento completo do GLS Bus.

Ciferal GLS Bus II: o início da primeira série de aperfeiçoamentos.
GLS Bus III: Mudanças definitivas e mais jovem esteticamente.

Do Biarticulado de Jaime Lerner que inspirou depois outros modelos como o Torino LS da Marcopolo e Maxxi Urbanus da Busscar, o seu surgimento do Padron Rio como maior do mundo na época e até o nome Mega, que viria a ser extinto e a partir de 95, a traseira do GLS Bus seria incorporada nas versões articuladas do modelo. Suas ultimas unidades seriam entregues até 98. Enquanto o GLS Bus foi produzido a Ciferal entrou no programa de desestatização e foi privatizada e adquirida pela RJ Participações. Os anos anteriores registravam significativos aumentos na produção de carrocerias urbanas, sendo o melhor período de gestão do holding. Encarecendo de projetos, os modelos a seguir passaram a ter somente design casado das versões de modelos anteriores, sendo assim, holding não fosse capaz de sustentar a marca e a produção caia. Em fins 97 era apresentado o Padron Cidade, o GLS Bus foi substituído pelo mesmo até 1998, com traseira do GLS Bus 97 e alusão ao Padron Rio tamanha era semelhança a sua caixa de vista, assim como o Padron Cidade II utilizaria da parte frontal do Cidade I para compor os dois produtos.

Lembranças do Padron Rio e traseira do GLS Bus surge o Padron Cidade.

Oficialmente sem o duralumínio, a versão II do sucessor do GLS Bus, não o diferenciava dos concorrentes.
Os anos se passavam e uma vez que os modelos seguintes eram lançados, a linha Padron Cidade não repetiria o mesmo sucesso e pecava de avanços tecnológicos se comparados a outros do mercado. Um dos principais motivos foi a decisão de abandonar de vez a boa e velha conhecida estrutura de duralumínio pelo aço tubular galvanizado no Cidade II, por mais eficiente e atual que pudesse ser, mas nada comparável em termos de leveza e resistência do que já era o aluminio como estrutura e anti-corrosiva em relação as concorrentes frente a necessidade de galvanizar o aço, como todo bom e velho Ciferal que ia muito bem, obrigado. Vida útil menor, preço elevado do aço.

Ousadia nas linhas “arrojadas e aerodinâmica”, marca a fase em Xerém,RJ, do GLS Bus e a trajetória fábril.
Restava por fim o reconhecimento da ousadia da Ciferal para o GLS num folder como o modelo de sucesso da fabricante desde sua transferência para Xerém, RJ, mesmo tendo durado tão pouco tempo em produção e com alterações significativas. Mas antes de terminar, não poderíamos nos esquecer de uma lenda dos últimos supostos GLS Bus sob chassis OF-1721 da MB. Por uma questão de meses, não tivemos a oportunidade de ter simultaneamente ter estes dois produtos encarroçados, mas se os pedidos especiais marcavam o modelo, há quem conta que um inusitado desta combinação foi outra vez feita. Com a linha Cidade já em produção e o GLS Bus encerrado em fins 1997, um empresário somente fecharia negócio e teria pago pela alteração para ter um GLS Bus. Sendo assim foram os únicos GLS Bus em chassi Mercedes-Benz OF1721, ano 1998, do Brasil na estrutura de Cidade I. Fato este que ainda carece e fotos que pudesse contar a origem, sabendo-se apenas que se tratava de um caso na região do nordeste do Brasil. Além dos últimos GLS Bus III para Transportes Vila Isabel que encerrava a produção, após 4 anos de sucesso.

Junto do Cursor, o GLS Bus é o modelo dos 40 anos da Ciferal em 95.
Cerca de 20 anos depois a Marcopolo anuncia extinção do nome e sua
fábrica passa se chamar Marcopolo Rio.
Curiosidades:
  • O GLS Bus teve presença em mais 95% das empresas na capital do Rio que tiveram pelo menos uma unidade do modelo 0 km.
  • Apesar de ter desde 1994 o rodoviário
    Cursor, o GLS Bus também ganha versão rodoviária Intercity, com peculiar
    traseira Padron Rio, depois sinaleiras do modelo em posição vertical e,
    por ultimo, a traseira convencional do GLS Bus.
  • A Ciferal cuja marca era pelo uso de
    duralumínio, passou a deixar a disposição do GLS Bus também uma opção de
    estrutura tubular em aço galvanizado, como opção que ganhava espaço
    entre as concorrentes, mas elevava o preço.
  • Quantidade de unidades produzidas e
    vendidas da Ciferal eram em 1993 – 2.036, em 1994 – 2.072, 1995 -2.165,
    1996 – 2.288, 1997 – 1.784  até 1998 – 2067, 1999 – 1109 unidades.

  •  Mega Bus mesmo nunca tendo um nome
    oficial, ficou disponível para encomenda até antes da aquisição da
    fabricante pela Marcopolo em 1999 e a ultima unidade foi construída anos
    antes, com pequenos face-lift, sob chassi traseiro Mafersa M290A para
    ExpoBus’94 onde passou depois a se chamar GLS Bus Articulado.
  • *Curiosamente em 1992, na Europa, o
    projeto do ônibus biarticulado já havia sido iniciado o desenvolvimento
    em 1989 em que a Volvo e a Renault disputavam quem o lançaria primeiro o
    modelo, o modelo da Renault (PR180 Megabus 1990) possuía incrível motor
    traseiro, no entanto a propulsão se dava no 2º eixo do primeiro vagão.
GLS Bus II para Transportes Vila Isabel em 1996 submetido ao teste d’água após a linha de montagem.

Aos “bicudinhos” (no RJ), “batutinhas” (em SP) ou “o bolha” (em MG) entre tantos outros codinomes, esta foi mais uma homenagem do épico Ciferal GLS Bus.

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