Por Paulo Valente
O Rio de Janeiro vive uma intensa disputa política e operacional em torno do sistema de bilhetagem eletrônica. A Prefeitura promove o Jaé como ferramenta de controle e transparência, alegando o fim da chamada “caixa-preta” do transporte. No entanto, essa narrativa desconsidera pontos centrais da história recente da mobilidade urbana da cidade.
Como alguém que participou diretamente da implantação do Riocard, afirmo com segurança: as funcionalidades que agora são apresentadas como inovação sempre estiveram disponíveis com a Riocard. O que muda, de fato, é o uso intencional que se faz dos dados, que sempre foram auditáveis e, inclusive, fiscalizados por empresas independentes e pelo próprio Governo do Estado, responsável pelo subsídio do Bilhete Único Intermunicipal.
A modernização de tecnologias é positiva e bem-vinda. Nesse sentido, o Rio Ônibus tem colaborado com a implementação do Jaé, mesmo diante de relevantes obstáculos técnicos. Mas é preciso reconhecer: grande parte do debate atual tem sido marcado por viés político, enquanto o usuário sente o impacto prático de lidar com o retrocesso do sistema e utilizar dois cartões distintos para se deslocar.
Essa divisão compromete a experiência do passageiro, aumenta a complexidade da operação e gera gastos elevados com infraestrutura redundante, o que nos leva à reflexão principal: não estaríamos tratando os sintomas e não a causa?
A discussão sobre bilhetagem muda de perspectiva quando debatemos a mudança do modelo de financiamento do transporte público. Com a adoção do sistema de remuneração por quilômetro rodado, previsto no acordo judicial de 2022, a cidade já não dependeria da arrecadação direta da catraca para remunerar as empresas, um avanço que abre espaço para a adoção de políticas verdadeiramente transformadoras, como a tarifa zero.
Ao eliminar o pagamento individual, ou até mesmo as próprias catracas, o sistema de bilhetagem se torna desnecessário. Assim, o município poderia redirecionar os investimentos para a ampliação da oferta, melhorias na frota e qualificação do serviço.
Além disso, eliminar a cobrança direta pelo transporte público promove a inclusão social, reduz a evasão e posiciona a mobilidade como um direito universal, assim como a saúde e a educação já são. A cidade do Rio poderia, com isso, assumir um protagonismo nacional ao adotar um modelo inovador e eficaz de gestão do transporte.

Se a proposta é oferecer uma verdadeira revolução na mobilidade, não basta apenas trocar o cartão utilizado na bilhetagem. É preciso ir além e repensar o acesso ao transporte como uma política pública de fato.
Tarifa zero não é apenas uma utopia viável, é uma resposta concreta a uma crise instaurada há décadas. É o caminho para garantir acesso pleno à cidade, com eficiência, transparência e justiça social.
Paulo Valente é Diretor do RioÔnibus Sindicato das Empresas de Onibus do Rio de Janeiro e Presidente da ACIJA – Associação Comercial e Industrial de Jacarepaguá
Imagem: Rodrigo Gomes
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