O transporte público segue perdendo protagonismo para os veículos individuais na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Uma pesquisa inédita coordenada pela Coppe UFRJ revela que o tempo excessivo de deslocamento causado pelos congestionamentos tem sido decisivo para que passageiros deixem os transportes coletivos tradicionais e migrem para as motocicletas, seja de uso próprio ou por meio de aplicativos.
O estudo mostra que os usuários priorizam rapidez e versatilidade no deslocamento, mesmo reconhecendo que as motos apresentam riscos mais altos. Sem faixas exclusivas e vias preferenciais, o transporte coletivo tornou-se menos competitivo para quem considera o tempo de viagem mais importante que custo da passagem ou segurança.
Segundo os pesquisadores, essa preferência crescente reflete a busca pelo chamado transporte porta a porta, que reduz etapas e minimiza a imprevisibilidade do trajeto.
Maioria aceitaria voltar ao transporte público se a viagem fosse mais rápida
Apesar da migração para as motos, o cenário não é definitivo. O levantamento aponta que 98% dos entrevistados afirmam ter condições de voltar a utilizar outras modalidades de transporte, sendo o ônibus a principal opção citada, por 67% deles.
Para que isso ocorra, porém, três fatores foram apontados como determinantes:
- redução no tempo de viagem – 28%
- redução no custo da tarifa – 14%
- melhoria na qualidade do serviço – 13%
Apenas 8% declararam não ter intenção de retornar ao transporte coletivo.
Quando questionados se migrariam para o ônibus caso o deslocamento fosse mais rápido, 78% responderam positivamente. Entre estes, 42% fariam a troca se a viagem fosse até cinco minutos mais curta, 24,18% se o tempo fosse igual e 11% aceitariam a mudança com redução de 15% no tempo total.
Perfil das viagens de moto na Região Metropolitana
A pesquisa “Motivações racionalidades pela escolha da motocicleta como meio de transporte individual na Região Metropolitana do Rio de Janeiro” realizou 2.616 entrevistas entre 18 de junho e 1º de agosto, em 22 municípios.
Os resultados revelam:
- 74% das viagens duram até 20 minutos
- dois terços dos usuários gastam até R$ 10 por deslocamento
- 65% utilizam a moto mais de três vezes por semana
As origens mais frequentes das viagens são:
- Baixada Fluminense – 28%
- Leste Fluminense – 19%
- Zona Norte do Rio – 18%
- Zona Oeste – 12%
- Zona Central – 11%
- Zona Sul – 5%
Por que mesmo com medo muitos continuam usando motos?
A pesquisa revela que 57% dos entrevistados se sentem inseguros, mas ainda assim continuam usando a moto pela rapidez e pelo deslocamento porta a porta. Mesmo entre quem sofreu ou presenciou acidentes, 59% seguem utilizando o modo de transporte por considerá-lo mais eficiente.
Estudos serão apresentados no Rio de Transportes nesta sexta (5)
Os resultados da pesquisa serão apresentados nesta sexta-feira (5) na 22ª edição do Rio de Transportes, congresso técnico-científico da Coppe/UFRJ, realizado no Museu do Amanhã, na Praça Mauá. O painel ocorre às 8h45, reunindo especialistas e gestores públicos.
Com apoio da Semove, que representa 174 empresas de ônibus no estado, o evento busca promover integração e acelerar soluções para a mobilidade.

Segundo o coordenador do evento, professor Glaydston Mattos Ribeiro, a proposta é conectar pesquisa, inovação e gestão pública:
“Buscamos incentivar o desenvolvimento de um transporte integrado, sustentável e alinhado às expectativas da população. A ideia é acelerar a implementação das soluções debatidas.”
Especialistas defendem prioridade viária para os ônibus
O estudo aponta caminhos para reverter a perda de passageiros. Entre as principais recomendações:
Criação de faixas preferenciais e corredores exclusivos
Medida considerada fundamental para reduzir tempos de viagem e aumentar a previsibilidade do transporte coletivo.
Melhorias na oferta e regularidade
Garantir intervalos menores, maior confiabilidade e melhores condições operacionais.
Conforto e segurança nos pontos e terminais
Mais iluminação, vigilância e espaços adequados para embarque.
Integração entre modais
Fácil conexão com metrô, trens e BRT amplia a competitividade.
A professora do Cefet/RJ e gerente de Mobilidade da Semove, Eunice Horácio, reforça:
“Sem prioridade viária, o transporte coletivo perde atratividade. O passageiro opta por viagens rápidas e previsíveis, mesmo colocando em risco a própria segurança. Investir em faixas exclusivas tem baixo custo e proporciona ganhos operacionais importantes.”
Imagens: Rodrigo Gomes
Receba as notícias em seu celular, clique aqui para acessar o canal do ÔNIBUS & TRANSPORTE no WhatsApp.












