Encerramento das atividades da Logo Caruaruense expõe crise do transporte por ônibus no Brasil

Depois de mais de 60 anos, empresa tradicional de Pernambuco encerra operações; tarifa defasada, pandemia e falta de políticas públicas agravam quadro do setor
Logo Caruaruense

O anúncio do encerramento definitivo das atividades da Rodoviária Logo Caruaruense em Pernambuco, após mais de seis décadas de atuação no transporte intermunicipal, evidencia uma crise estrutural que atinge o transporte por ônibus em todo o país. A companhia comunicou aos colaboradores sua saída do mercado nesta sexta-feira (16), entregando as linhas à Empresa Pernambucana de Transporte Coletivo Intermunicipal e justificando a decisão pelo grave desequilíbrio econômico-financeiro e dificuldades conjunturais profundamente intensificadas após a pandemia de Covid-19.

Uma tradição que se esvai no cenários de dificuldades

Fundada em 1959, a Logo Caruaruense se consolidou como protagonista da mobilidade no Agreste pernambucano, conectando comunidades e cidades por décadas. Seu fechamento não é apenas o fim de um capítulo, mas um alerta sobre a sustentabilidade do modelo atual de transporte coletivo por ônibus no Brasil, notoriamente pressionado por tarifas defasadas, altos custos operacionais e competição com transporte irregular.

Crise crônica no transporte por ônibus em diferentes estados

A situação de Pernambuco espelha desafios enfrentados em outras capitais e regiões. No Rio de Janeiro, por exemplo, empresas tradicionais como Real Auto Ônibus e Transportes Vila Isabel vêm reduzindo drasticamente a frota em circulação por falta de combustível, problemas de manutenção e dificuldades financeiras, levando inclusive a paralisações e greves de motoristas por atraso de salários e benefícios. Organizações do setor apontam que grande parte das empresas está em recuperação judicial, reflexo direto da insegurança jurídica e do descumprimento contratual que prejudicam o equilíbrio econômico-financeiro das concessões.

Em estados como o Rio Grande do Norte, auditorias e levantamentos revelam frotas antigas, ônibus sem condições mínimas de segurança e acessibilidade, e operações deficitárias que deixam cidades inteiras sem atendimento regular, penalizando grupos sociais mais dependentes do transporte público. Problemas como essa se repetem em todo o país e apontam para um setor em dificuldade crônica.

Origens da crise: tarifas defasadas e desequilíbrio do modelo

O cerne da crise não está apenas na pandemia, mas em fatores preexistentes que se agravaram ao longo dos anos:

  • Tarifas abaixo do custo real: os preços das passagens não acompanham a inflação dos principais componentes de custo — combustível, peças, salários e tributos —, criando um descompasso que compromete a sustentabilidade das operações.
  • Transporte clandestino e informal: a retirada de usuários do transporte regular por alternativas irregulares reduz a receita das empresas concessionárias e dificulta a manutenção de serviços adequados.
  • Inércia e defasagem das políticas públicas: em muitos municípios e estados, revisões tarifárias e mecanismos de subsídios não acompanham a realidade dos custos, enquanto a responsabilidade pela regulação e fiscalização padece de recursos e agilidade.

Tarifa zero: promessa e desafios para o setor

Discussões sobre a implementação de tarifa zero — a eliminação do pagamento direto pelo usuário — ganham força em algumas agendas de mobilidade urbana como alternativa para aumentar a acessibilidade e reduzir desigualdades. Contudo, especialistas alertam que a tarifa zero não se sustenta sem mecanismos robustos de financiamento público. Para funcionar de fato, o modelo exige:

  • Subsídios governamentais consistentes que cubram os custos operacionais das empresas;
  • Redefinição dos contratos de concessão para garantir estabilidade financeira e eficiência;
  • Planejamento integrado de transportes que alinhe ônibus, trilhos, micromobilidade e políticas urbanas;
  • Fiscalização eficiente para combater o transporte irregular que reduz receita do sistema formal.

Sem esses pilares, a tarifa zero pode simplesmente transferir o ônus do usuário para empresas já fragilizadas ou para cofres públicos sem retorno de qualidade no serviço.

Soluções necessárias para reverter o quadro

Especialistas apontam que é fundamental uma agenda colaborativa entre gestores públicos e setor privado para assegurar a sustentabilidade do transporte por ônibus. Entre as propostas que ganham adesão estão:

  • Revisão das fórmulas tarifárias, com critérios técnicos e participação social para equilibrar receitas e custos;
  • Mecanismos de subsídio alinhados à qualidade do serviço, vinculados a metas de manutenção de frotas e atendimento à demanda;
  • Atualização e reforço da fiscalização para coibir transporte irregular e garantir segurança e acessibilidade;
  • Inovação na gestão de contratos de concessão, com cláusulas que permitam ajustes dinâmicos diante de crises e oscilações econômicas.

O fechamento da Logo Caruaruense é um sintoma de uma crise que se aprofundou por décadas. Sem um plano de ação abrangente e eficaz, outras empresas podem seguir o mesmo caminho, comprometendo ainda mais a mobilidade urbana e intermunicipal no Brasil.

Imagens: Diego Almeida Araújo

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