Empresários de ônibus encerram ciclo da bilhetagem eletrônica privada no Rio após mais de 20 anos

Venda da RioCard Mais, agora Mais.Mobi, marca ruptura histórica no controle da arrecadação e consolida novo modelo de governança do transporte público carioca
Riocard Mais

Após mais de duas décadas de protagonismo na gestão da bilhetagem eletrônica do transporte público do Rio de Janeiro, os empresários de ônibus decidiram abrir mão do controle do sistema. A RioCard Mais, que recentemente passou a operar sob a marca Mais.Mobi, está sendo adquirida pela Prodata Mobility Brasil, empresa especializada em soluções de mobilidade urbana com atuação em mais de 300 cidades do país, incluindo 12 capitais.

O movimento é interpretado por especialistas como o encerramento definitivo de um modelo no qual os próprios operadores controlavam a arrecadação do sistema.

Fim de um modelo questionado pelo poder público

A crítica ao modelo ganhou força nos últimos anos, especialmente durante a atual gestão municipal. Foi com o argumento de ampliar a transparência, garantir rastreabilidade das receitas e reforçar o controle público que o prefeito Eduardo Paes determinou a substituição da bilhetagem privada pelo sistema público digital Jaé.

A decisão representou uma mudança estrutural na relação entre a Prefeitura do Rio e os operadores de ônibus, retirando destes um dos principais instrumentos de poder econômico dentro do sistema.

Linha do tempo da RioCard no Rio de Janeiro

A trajetória da RioCard acompanha a própria evolução do transporte público carioca nas últimas décadas. Veja os principais marcos:

  • Início dos anos 2000 – Criação da RioCard como sistema de bilhetagem eletrônica dos ônibus urbanos do Rio, sob controle direto dos empresários do setor.
  • 2003–2005 – Expansão do cartão como meio de pagamento predominante, substituindo gradualmente o dinheiro em espécie.
  • Anos 2010 – Consolidação da RioCard como plataforma integrada, passando a atender ônibus municipais, intermunicipais, BRT, vans legalizadas e integração tarifária.
  • 2014–2016 – Ampliação do uso durante grandes eventos (Copa do Mundo e Olimpíadas), com crescimento exponencial da base de usuários.
  • 2017–2020 – Intensificação de críticas por parte de órgãos de controle e do poder público sobre a falta de transparência dos dados e da arrecadação.
  • 2021–2023 – Debates públicos sobre a necessidade de um sistema de bilhetagem sob controle estatal; surgem estudos para criação de um modelo público.
  • 2024 – Anúncio e início da implantação do Jaé, sistema municipal de bilhetagem digital, marcando o esvaziamento institucional da RioCard.
  • 2025 – Rebranding da empresa para Mais.Mobi, em meio à perda do contrato com a Prefeitura e à mudança estratégica de posicionamento.
  • 2026 – Anúncio da venda da Mais.Mobi para a Prodata Mobility Brasil, encerrando o ciclo de controle direto dos empresários de ônibus sobre a bilhetagem no Rio.

Venda simboliza afastamento dos operadores da arrecadação

A aquisição da Mais.Mobi por uma empresa especializada em tecnologia e gestão de mobilidade simboliza o afastamento definitivo dos operadores do controle direto da bilhetagem — um dos pontos mais sensíveis da estrutura do transporte coletivo.

Com presença nacional, a Prodata atua na operação de sistemas de pagamento, gestão de dados, frota e inteligência tarifária, reforçando a tendência de separação entre quem presta o serviço e quem administra os fluxos financeiros.

Empregos e sede preservados na capital fluminense

Apesar da mudança de controle, a operação da empresa no Rio de Janeiro será mantida. A Mais.Mobi conta atualmente com mais de 600 funcionários, e a nova controladora confirmou a permanência da sede na cidade, preservando empregos e o conhecimento técnico acumulado ao longo de mais de duas décadas.

Nova fase para a mobilidade urbana do Rio

O fim do ciclo da RioCard como instrumento dos empresários ocorre em um momento de ampla reestruturação do transporte público carioca, com revisão de contratos, ampliação de subsídios, fortalecimento do papel do poder público e maior pressão por transparência e eficiência.

Para especialistas, a separação entre operação e arrecadação tende a reduzir conflitos históricos, ampliar o controle social e criar bases mais sólidas para o planejamento do sistema.

Imagem: Divulgação RioCard

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Avatar de Luís Guilherme Campos Correa