Penha 65 anos: a viação que ajudou a “desenhar” o mapa rodoviário do Brasil

De Curitiba para o país: da fusão que originou a empresa em 1961 às inovações que marcaram época — “melancia”, Tribus, Greenbus, Classis e Astor — e a consolidação no Sul e Sudeste sob nova fase de ...
Penha

No dia 7 de fevereiro de 1961, nasce oficialmente a Empresa de Ônibus Nossa Senhora da Penha S.A., um nome que se tornaria sinônimo de tradição, expansão e inovação no transporte rodoviário brasileiro. Ao completar 65 anos, a Penha carrega uma trajetória que mistura visão empresarial, ousadia operacional e um repertório de serviços que influenciaram o padrão de conforto e competitividade do setor ao longo de décadas.

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A origem do projeto, conforme relatado em registros históricos e memórias de antigos colaboradores e entusiastas, remete à São Paulo dos anos 1950, quando a ideia começou a tomar forma entre empresários e operadores que enxergavam em Curitiba um ponto estratégico para construir uma empresa com vocação nacional. A consolidação veio com a fusão e incorporação de operações ligadas ao eixo Sul–Sudeste, incluindo iniciativas e empresas que, juntas, deram corpo à Penha no início dos anos 1960 — com garagem no Juvevê, frota inicial enxuta e um desafio gigantesco: rodar longas distâncias em um Brasil de estradas ainda precárias.

Da gênese à expansão: quando o Brasil cabia dentro de uma linha rodoviária

A década de 1960 foi de estruturação e crescimento de linhas, conectando capitais e cidades estratégicas do Sul ao Rio de Janeiro e São Paulo, com a empresa ganhando musculatura operacional e presença regional. A abertura e consolidação de grandes corredores rodoviários, como a antiga BR-2 (atual BR-116), é lembrada como um marco que ampliou possibilidades e acelerou a integração do país — e a Penha estava lá, posicionando frota, garagens e rotas para acompanhar essa transformação.

Nos anos 1970, a empresa entra em um período de expansão em escala ainda maior. É quando a Penha avança para o Nordeste, reforçando a ligação Rio de Janeiro – Salvador por meio de aquisições e reorganização de malhas. A empresa, já mais forte e consolidada, passa a explorar novos territórios com estratégia: crescer com linha forte, serviço diferenciado e identidade que grudava na memória.

Em 1974, outro passo simbólico: o início da linha Brasília – Porto Alegre. Para sustentar o novo corredor, mais carros entram na frota e nasce um serviço que virou referência de marketing e posicionamento: o “Tapete Mágico”, associado a uma proposta de rodar com mais suavidade e conforto — um recado claro ao mercado: a Penha não queria apenas transportar; queria entregar experiência.

A “melancia” e o valor emocional de uma marca

Se há algo que poucos segmentos entendem tão bem quanto o rodoviário é que uma empresa não é feita só de rota e tarifa — é feita de memória de viagem. E a Penha tem um ativo raro: um carinho popular que atravessa décadas.

Os ônibus das décadas de 1980 e 1990, nas cores verde, vermelho e branco, ganharam um apelido que virou patrimônio afetivo: “melancia”. Até hoje, são lembrados com nostalgia por passageiros e profissionais do setor — não apenas pela pintura, mas pelo que representavam: um tempo em que viajar de ônibus era, para muita gente, a principal porta de entrada para o Brasil.

Em 2024, a Penha, em comemoração aos seus 63 anos de fundação, recebeu da fabricanteBusscar, sediada em Joinville (SC), o primeiro veículo com pintura retrô a integrar a frota da empresa paranaense que resgatava a pintura “melancia”.

Inovação como DNA: Tribus, suspensão a ar e o salto do conforto

Em 1983, a Penha volta a chacoalhar o mercado ao colocar em operação um dos primeiros ônibus de destaque com três eixos, o Tribus. O conceito era simples e potente: um eixo auxiliar que melhorava estabilidade, segurança e conforto — especialmente em percursos longos.

A evolução veio com o Tribus II, incorporando a suspensão a ar, um divisor de águas para o padrão de rodagem percebido pelo passageiro. O impacto foi direto: mais conforto, menos vibração, uma sensação de viagem “mais macia” — e, com isso, mais competitividade. Em um setor onde o passageiro vota com o bolso e com a preferência, inovação vira reputação.

Greenbus, Classis e Astor: quando serviço vira categoria

Em meados dos anos 1990, a Penha lança o Greenbus, posicionando um serviço Executivo com tarifas competitivas, conectando conforto a estratégia comercial. Pouco depois, já no novo milênio, em 2000, a empresa novamente “redefine o jogo” ao lançar o Classis — um produto de semi-leito com tarifa de executivo, carregado de diferenciais que, para a época, eram quase luxo: manta, travesseiro, kit lanche, café, água mineral, ar-condicionado ecológico, banheiro pressurizado e até telefone a bordo.

Na mesma década, a Penha apresenta o Astor, serviço leito com proposta “5 estrelas”, reunindo conforto elevado e tecnologia das melhores encarroçadoras do país. Na prática, a empresa ajudou a consolidar a ideia de que o rodoviário não precisa ser “o mais barato”; ele pode ser o mais inteligente, com produto bem desenhado e percepção clara de valor.

50 anos, G7 e a reinvenção visual: o véu que virou identidade

Em 2011, no cinquentenário, a empresa marca a data com renovação de frota e numeração comemorativa, trazendo a geração Marcopolo G7. Na sequência, uma nova era pede uma nova assinatura visual: nasce um layout inspirado no próprio nome, evocando “o escuro de uma noite sobre o véu de Nossa Senhora da Penha”, com evolução de marca, mais polidez e presença.

A modernização também aparece no pacote tecnológico: tomadas USB, Wi-Fi, iluminação em LED, poltronas mais ergonômicas, piso com acabamento diferenciado e ganhos claros de conforto e segurança. Entre 2018 e 2020, a renovação de frota é apontada como robusta, com dezenas de veículos incorporados para elevar o padrão de viagem e reforçar a competitividade.

Uma empresa que atravessou ciclos — e continuou relevante

Ao longo do tempo, a Penha passou por fases de reorganização societária e estratégica, incluindo mudanças de controle e readequações de malha. A empresa é reconhecida por operar rotas importantes no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro, com momentos de expansão e concentração regional conforme o mercado e a regulação. O fato central, porém, permanece: a Penha atravessou décadas porque soube fazer o que poucas conseguem — se adaptar sem perder identidade.

Celebrar 65 anos da Penha é, no fundo, celebrar um pedaço do transporte rodoviário brasileiro: o setor que encurtou distâncias, conectou capitais, sustentou economias locais e levou milhões de pessoas para estudar, trabalhar, recomeçar e visitar quem amam. Poucas marcas conseguem, ao mesmo tempo, ser lembradas por inovação técnica e por afeto. A Penha conseguiu.

ANTT

E talvez esse seja o maior legado: numa estrada que muda o tempo todo, a Penha segue sendo referência — porque, desde 1961, ela entendeu que ônibus não é só veículo. É história em movimento.

Imagens: Acervo Empresa Nossa Senhora da Penha / Jovani Cecchin / Wellington Cadore / Luciano Formiga / Rodrigo Gomes

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