Falar da história do transporte rodoviário brasileiro é, inevitavelmente, falar da trajetória da Companhia São Geraldo de Viação. Ao longo de décadas, a empresa mineira construiu uma das mais extensas e tradicionais operações interestaduais do país, ligando cidades do Sudeste ao Nordeste e consolidando uma marca que atravessou gerações de passageiros.
A história da companhia começou ainda nos anos 1950, quando o contador mineiro Benito Porcaro, descendente de italianos e conhecido em Caratinga (MG) pelo espírito empreendedor, começou a enxergar oportunidades além do escritório de contabilidade que mantinha na cidade.
Benito Porcaro e o nascimento de um império rodoviário
Em 1961, Benito Porcaro e Francisco Lopes Evangelista, conhecido como Chiquito, apresentaram a um grupo de empresários locais a proposta de adquirir uma pequena empresa de ônibus sediada em Caratinga. O empreendimento chamou a atenção dos comerciantes José de Paula Maciel, Augusto Braga Filho, Dario da Anunciação Grossi e Pedro Cabral, que aceitaram integrar a sociedade.
A empresa adquirida era a então Empresa de Viação São Geraldo Ltda., operadora de linhas regionais no Leste de Minas Gerais e responsável por ligações importantes, como o trecho entre Caratinga e Governador Valadares.

A origem da companhia remonta a 1949, quando ainda operava sob a razão social Rodrigues Teixeira & Cia. Ltda. Em meio às dificuldades enfrentadas nas precárias estradas da época, especialmente na antiga Rio-Bahia, a empresa conseguiu crescer mesmo em condições operacionais extremamente desafiadoras.
Em 1957, passou oficialmente a utilizar o nome São Geraldo. Poucos anos depois, já contava com uma frota de 41 ônibus quando foi adquirida pelo novo grupo empresarial.
Expansão transformou empresa regional em potência nacional
Após assumirem o controle da companhia, os novos proprietários iniciaram um acelerado processo de expansão operacional.
A estratégia combinava participação em concorrências públicas, aquisição de linhas e compra de empresas já estabelecidas em regiões estratégicas. Inicialmente, a São Geraldo fortaleceu sua presença no Vale do Mucuri, Teófilo Otoni, Nanuque e extremo sul da Bahia.

Posteriormente, vieram aquisições e incorporações que ampliaram significativamente a atuação interestadual da companhia, incluindo operações entre Salvador, Feira de Santana, Ilhéus, Vitória da Conquista, Rio de Janeiro e São Paulo.
Com isso, a São Geraldo deixou de ser uma empresa regional mineira e passou a figurar entre as maiores operadoras interestaduais do Brasil.
Companhia cresceu conectando o Nordeste ao Sudeste
A partir do fim da década de 1960, a companhia intensificou ainda mais sua expansão. Linhas interestaduais passaram a ligar cidades estratégicas como Goiânia, Belo Horizonte, Salvador, Vitória, Teresina, Natal, João Pessoa, Recife, Aracaju e Maceió.

O desenvolvimento da malha rodoviária federal e a regulamentação do setor após 1971 impulsionaram ainda mais o crescimento da empresa.

Durante esse período, a São Geraldo adquiriu importantes empresas do setor, entre elas Central Bahia, Expresso Pernambucano, Vera Cruz, Rodoviária de Alagoas, Viação Alvorada, Nossa Senhora Aparecida e Ipu Brasília.

A companhia passou a consolidar uma forte vocação para operações de longas distâncias, tornando-se uma das principais responsáveis pela integração rodoviária entre o Nordeste e o Sudeste brasileiro.
Frota ultrapassou 300 ônibus em 1970
Na década de 1970, a empresa já possuía uma frota superior a 300 ônibus, além de veículos auxiliares e caminhões de apoio operacional.




Ao mesmo tempo, houve uma reorganização estratégica das operações, com a venda de linhas municipais e estaduais de menor porte para fortalecer a atuação nas rotas interestaduais de grande percurso.

Em 1968, a empresa passou por transformação societária e adotou oficialmente o nome Companhia São Geraldo de Viação S.A.

A diretoria era composta por José de Paula Maciel na presidência, Benito Porcaro na diretoria administrativa, Francisco Lopes Evangelista no setor comercial, Augusto Braga Filho na diretoria financeira e Dario Grossi na diretoria operacional.
Benito Porcaro se tornou referência nacional no setor
O grande articulador da expansão da companhia foi Benito Porcaro, responsável por negociações de aquisição de empresas, implantação de linhas e crescimento operacional da São Geraldo.
Conhecido nacionalmente no setor, ele também participou da criação da Rodonal, entidade que se tornaria uma das primeiras associações nacionais voltadas ao transporte rodoviário interestadual e internacional de passageiros.

Benito faleceu tragicamente em um acidente aéreo em janeiro de 1979, quando já era considerado um dos nomes mais influentes do transporte rodoviário brasileiro.
São Geraldo consolidou liderança nas linhas federais
Entre o fim da década de 1970 e início dos anos 1980, a empresa ampliou ainda mais sua presença nacional após conquistar autorização para operar 13 novos serviços federais em processos conduzidos pelo antigo DNER.

Naquele período, a São Geraldo alcançou a segunda posição entre mais de 200 empresas detentoras de linhas interestaduais federais no país.

A operação abrangia praticamente todo o Nordeste brasileiro, ligando cidades como Fortaleza, Natal, Recife, João Pessoa, Maceió, Aracaju, Salvador e Porto Seguro aos grandes centros do Sudeste.
Belo Horizonte virou centro operacional da companhia
O crescimento da empresa exigiu uma estrutura operacional mais robusta. Em 1981, a companhia transferiu sua sede operacional de Caratinga para Belo Horizonte.
Na capital mineira foi construído um grande parque rodoviário com aproximadamente 65 mil metros quadrados, fortalecendo a estrutura de manutenção, apoio operacional e logística.

Também nesse período surgiu a Viação Riodoce Ltda., criada após uma cisão societária envolvendo a família Grossi.

Outra movimentação importante foi a incorporação da Empresa Nossa Senhora Aparecida Ltda., considerada uma das maiores operadoras interestaduais do Nordeste.
Gestão profissionalizada marcou nova fase da empresa
Com o passar dos anos, os filhos dos fundadores passaram a assumir posições estratégicas dentro da companhia e do grupo empresarial.
Foi criado um Conselho de Administração e uma Diretoria Executiva, profissionalizando ainda mais a gestão da empresa.
O grupo passou a atuar não apenas no transporte de passageiros, mas também nos setores de cargas, turismo e empresas coligadas ligadas ao segmento rodoviário.

Nos anos 1990, a companhia implantou um moderno sistema de gerenciamento baseado em Controle de Qualidade Total (TQC), promovendo ampla reestruturação interna.

Também foram ampliados os pontos de apoio operacionais em cidades estratégicas como Feira de Santana, Rio de Janeiro, Ilhéus, Vitória, Recife, Governador Valadares, Porto Seguro e Vitória da Conquista.
Venda para o Grupo Gontijo encerrou ciclo histórico
Em 1997, houve a saída da família de Francisco Lopes Evangelista do quadro societário da companhia.
Pouco tempo depois, a São Geraldo voltou a expandir operações regionais no Nordeste com aquisição de linhas de médio percurso.

O grande marco final da trajetória independente da companhia aconteceu em 2004, quando os acionistas aceitaram a proposta do Grupo Gontijo, que assumiu o controle acionário da empresa.
A operação consolidou a integração entre duas das mais tradicionais marcas do transporte rodoviário brasileiro.

Mesmo após a incorporação ao Grupo Gontijo, a marca São Geraldo permaneceu viva na memória de milhões de passageiros que viajaram pelas rodovias brasileiras ao longo de décadas.
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