O Rio de Janeiro celebra neste 22 de junho, pela primeira vez, o Dia do Busólogo, data recém-incluída no Calendário Oficial do Município pela Lei nº 9.418/2026. O reconhecimento institucional joga luz sobre uma comunidade que, há décadas, acompanha a evolução dos ônibus da cidade, registra frotas, cataloga modelos, identifica linhas e preserva parte importante da memória urbana carioca. Mais do que um nicho de entusiastas, os busólogos ajudam a contar a história de uma cidade movida sobre rodas.
A paixão pelos ônibus como parte da memória da cidade
Em uma capital onde cerca de 4 mil ônibus circulam diariamente, conectando diferentes regiões e realidades, a relação afetiva com o transporte coletivo atravessa gerações e ganha contornos de identidade cultural: “todo morador tem uma história marcante ligada a uma linha de ônibus, seja o trajeto da infância para a escola, a ida ao estádio ou aquela viagem inesquecível para a praia. Os busólogos realizam um trabalho fundamental de preservação dessa identidade urbana, mostrando que o sistema de transporte também é feito de conexões humanas e memórias que cruzam gerações”, afirma Paulo Valente, diretor de comunicação do Rio Ônibus.
Busologia vai além do hobby e presta serviço à população
A busologia reúne pesquisa, colecionismo, documentação histórica e observação do cotidiano. Ao mesmo tempo, também se conecta de forma prática à vida da população e, em muitos casos, influencia trajetórias profissionais dentro do setor de transportes. É o caso de Luiz Guilherme Siqueira, de 25 anos, morador de Barra de Guaratiba, na zona oeste. A partir de um interesse herdado de um tio motorista, ele criou a página Transportes Zona Oeste (TZO), que reúne mais de 30 mil seguidores no Facebook, além do canal de alertas Sinal Verde, no WhatsApp. Hoje, usa o conhecimento acumulado para orientar passageiros com dificuldade de localizar linhas e trajetos: “cresci fazendo amizade com rodoviários, seja andando nas linhas ou indo até as garagens das empresas, e hoje uso o que aprendi para ajudar quem tem dificuldade com aplicativos de localização a encontrar a linha certa. É muito gratificante”, conta.
Da paixão de infância à profissão no transporte
Entre os mais jovens, a paixão pelos ônibus também tem se convertido em carreira. Aos 21 anos, o motorista Felipe Cardinot, da Viação Ideal, representa uma geração que levou o interesse de infância para dentro da operação. Depois de passar anos fotografando veículos nas portas das garagens, entrou no setor como jovem aprendiz aos 14 anos e, assim que conquistou a habilitação necessária, assumiu o volante. Felipe resume essa realização como o “orgulho inexplicável de vestir esse uniforme” e de participar diariamente do deslocamento de milhares de pessoas pela cidade.
Nos bastidores da operação, o mesmo encantamento aparece entre jovens que atuam na manutenção e na rotina técnica das empresas. É o caso de Brenno Lucas Macedo, de 20 anos, e Alex Nunes, de 19, ambos aprendizes na Viação Novacap.
Criado em Nilópolis, Brenno cresceu observando o movimento dos ônibus na Via Light e desenvolveu cedo uma conexão com o setor. Ainda criança, escolheu como presente de aniversário uma visita à garagem da antiga Auto Viação 1001, no Caju.
Já Alex encontrou na busologia a convergência entre duas paixões antigas, ônibus e mecânica. O interesse começou na observação dos coletivos nas ruas e rodovias, ganhou nome com as descobertas na internet e, mais tarde, virou projeto de vida. Neste ano, ele foi aprovado para cursar Engenharia Mecânica na UERJ e também conquistou uma vaga na área de manutenção da Novacap.
Memória afetiva também impulsiona carreiras no volante
A ligação entre memória afetiva e profissão também aparece na trajetória de Alex Bernardes, de 36 anos, motorista há 15 anos. Na infância, ele acompanhava de perto carrocerias, pinturas e modelos de frota enquanto pegava carona com o tio, também rodoviário. Depois de obter a habilitação profissional, buscou diretamente uma oportunidade em uma empresa de ônibus, setor em que permanece até hoje.

Reconhecimento valoriza a cultura e a história do transporte
Ao oficializar o Dia do Busólogo, o Rio amplia o olhar sobre sua mobilidade urbana e reconhece o valor cultural de quem transforma a observação dos ônibus em registro histórico, serviço à população e expressão legítima da memória da cidade.
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