Viação Cidade do Aço: conheça a história da empresa que nasceu com o desenvolvimento de Volta Redonda e há 75 anos conecta cidades e gerações

Fundada em 1951 a partir de uma linha de lotação entre Barra Mansa e Volta Redonda, empresa acompanhou a industrialização do Sul Fluminense, chegou às grandes rodovias, tornou-se referência em ...
Viação Cidade do Aço

A história da Viação Cidade do Aço se confunde com uma das maiores transformações econômicas e urbanas vividas pelo interior do Estado do Rio de Janeiro no século XX. Quando a empresa começou a operar, em 1951, Volta Redonda ainda experimentava os efeitos da implantação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), milhares de trabalhadores movimentavam-se pela região e a necessidade de transporte entre a futura “Cidade do Aço” e Barra Mansa crescia rapidamente.

Foi nesse cenário que o empresário Geraldo Ozório Rodrigues, ao lado de Iraci Cambraia e Francisco Balte, colocou nas ruas uma linha de lotação entre Barra Mansa e Volta Redonda. Em vez dos automóveis normalmente utilizados nesse tipo de serviço, foram escolhidas jardineiras com capacidade para aproximadamente 12 a 16 passageiros. Como o trajeto chegava à siderúrgica, a empresa registrada em Barra Mansa recebeu um nome que atravessaria gerações: Viação Cidade do Aço.

Em 2026, 75 anos depois, aquela operação surgida para responder a uma necessidade criada pela industrialização do Sul Fluminense permanece presente nas estradas. Nesse intervalo, a Cidade do Aço passou por mudanças de controle, expandiu linhas, atravessou diferentes gerações de ônibus, construiu uma identidade visual reconhecida pelos passageiros e acompanhou as transformações tecnológicas do transporte rodoviário.

É uma trajetória que também ajuda a contar como o ônibus se tornou parte da formação econômica e social do Médio Paraíba.

A CSN transformou Volta Redonda — e criou uma nova necessidade de transporte

Para entender a origem da Viação Cidade do Aço, é necessário voltar alguns anos antes de sua fundação.

A Companhia Siderúrgica Nacional foi criada em 9 de abril de 1941, e Volta Redonda foi escolhida para receber a usina após estudos que consideraram fatores como localização, transporte, mercados consumidores, clima e solo. O primeiro estágio da siderúrgica entrou em operação em 1946.

A construção e posteriormente a operação da CSN atraíram trabalhadores de diferentes partes do país. O crescimento, porém, ocorreu quando a estrutura urbana da região ainda não estava preparada para receber aquela população.

Muitos trabalhadores ficavam alojados em Barra Mansa e precisavam se deslocar diariamente até Volta Redonda. Inicialmente, chegaram a ser utilizados no transporte de pessoas os mesmos caminhões empregados em outros horários para cargas. Posteriormente surgiram carrocerias de madeira e uma operação por ônibus comandada por José Ferreira de Matos.

A demanda continuou aumentando.

Foi nesse ambiente que Geraldo Ozório enxergou uma oportunidade.

Um pedido de linha negado abriu caminho para a Cidade do Aço

Antes de entrar no transporte de passageiros, Geraldo Ozório Rodrigues e seus irmãos atuavam em atividades como extração de madeira, fabricação de dormentes ferroviários e produção de carvão vegetal.

Geraldo tentou obter autorização para implantar uma segunda linha de ônibus entre Barra Mansa e Volta Redonda. O pedido foi negado porque já havia uma operação existente e o poder público entendeu que a nova autorização poderia atingir direitos da empresa que prestava o serviço.

Registro feito no início das operações da Viação Cidade do Aço, quando os primeiros ônibus da empresa passaram a atender a linha entre Barra Mansa e Volta Redonda, que na época ainda era distrito.

A negativa, porém, veio acompanhada de uma alternativa: a criação de uma linha de lotação.

Geraldo associou-se aos fazendeiros Iraci Cambraia e Francisco Balte e, em 1951, o serviço começou a funcionar. Como o itinerário seguia até a siderúrgica, surgiu o nome Cidade do Aço.

Registros históricos posteriormente divulgados pela própria empresa situam o início das operações em julho de 1951, com uma pequena frota e itinerários entre Barra Mansa e Volta Redonda.

A ligação com o desenvolvimento industrial da região estava, portanto, presente desde o nascimento da companhia.

Das jardineiras à ligação com o Rio de Janeiro

A expansão não demoraria.

A Cidade do Aço encontrou espaço para crescer justamente pela capacidade de adaptar sua operação às condições disponíveis naquele momento.

Um dos episódios decisivos ocorreu quando surgiu a possibilidade de estabelecer uma ligação com o Rio de Janeiro. O pedido para uma segunda linha convencional entre Barra Mansa e a então capital esbarrou novamente em uma concessão já existente.

Viação Cidade do Aço
Frota utilizada na primeira linha da Viação Cidade do Aço. Os ônibus rapidamente conquistaram a preferência dos passageiros, mesmo com a presença de uma empresa concorrente operando no mesmo trajeto.

A legislação, entretanto, permitia uma operação com micro-ônibus.

A empresa demonstrou a existência de demanda e conseguiu autorização para ligar a região ao Rio utilizando esses veículos. O próprio fundador consideraria posteriormente aquela concessão um dos momentos mais importantes da história da Cidade do Aço.

Com o tempo, a companhia ampliou sua presença.

Quando outras empresas enfrentaram dificuldades, a Cidade do Aço adquiriu ligações que conectavam o Rio a destinos como Barra Mansa, Resende, São José dos Campos, Itajubá, Caxambu e Angra dos Reis.

A pequena operação regional começava a assumir características de uma empresa rodoviária de maior alcance.

Empresa chegou a ser convidada para operar Rio–São Paulo e Rio–Brasília

Há um capítulo pouco lembrado dessa história.

A reputação construída pela Cidade do Aço levou o então Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) a convidar a companhia para participar da ligação Rio de Janeiro–São Paulo, ao lado da Viação Cometa e do Expresso Brasileiro. A empresa já havia operado o trecho durante três anos em caráter precário.

Também surgiu um convite para a implantação de uma ligação entre Rio de Janeiro e Brasília.

A permanência na Rio–São Paulo, porém, esbarrou em uma questão envolvendo os veículos.

Viação Cidade do Aço
Em 1967, entraram em operação os novos Mercedes-Benz para viagens longas de turismo.

A Cidade do Aço pretendia importar 100 ônibus GM para a operação, mas a licença de importação foi negada em um momento no qual o Brasil iniciava a produção de ônibus Mercedes-Benz. Diante da impossibilidade de utilizar os veículos pretendidos, a empresa decidiu não permanecer na ligação.

O episódio mostra o tamanho que a operação havia alcançado poucas décadas depois de começar com uma ligação regional.

Segurança tornou-se uma marca da administração de Geraldo Ozório

A preocupação com manutenção e condução profissional aparece repetidamente nos registros históricos da empresa.

Segundo relato do próprio fundador, uma estatística elaborada pelo DNER identificou determinado período em que a Cidade do Aço havia transportado 80 milhões de passageiros sem acidente fatal envolvendo usuários, desempenho que levou ao reconhecimento da empresa na área de segurança do transporte rodoviário.

A política começava antes mesmo de o motorista assumir um ônibus.

Na época, a empresa exigia profissionais com experiência em estradas de longa distância e submetia candidatos a avaliações. A disciplina operacional era rígida e havia um livro de ocorrências no qual eram registrados elogios e problemas relatados pelos passageiros.

Viação Cidade do Aço

Manutenção também recebia atenção especial. A companhia estruturou garagem e equipes próprias para reduzir ocorrências mecânicas durante as viagens.

Décadas depois, segurança, treinamento e manutenção continuariam entre os elementos centrais da operação rodoviária brasileira.

1972 marcou mudança de controle e uma pintura que entrou para a história

Um dos anos mais importantes da trajetória da Viação Cidade do Aço foi 1972.

Após cerca de duas décadas à frente do negócio, Geraldo Ozório Rodrigues transferiu o controle acionário para os irmãos Ariel, Abelmar e Aldemir Curvello.

Viação Cidade do Aço

O mesmo período marcou o nascimento de uma das identidades visuais mais lembradas da companhia.

O projeto elaborado pelo arquiteto João de Deus Cardoso representava a chamada “Corrida do Aço”, em referência direta ao produto que transformou Volta Redonda e indiretamente deu origem à empresa.

Viação Cidade do Aço

A pintura conquistou o Concurso de Pintura de Frotas da Editora Transporte Moderno em 1972. Um novo logotipo também foi desenvolvido naquele período por João de Deus Cardoso e Carlos Antonio Ferro.

O desenho permaneceu associado à empresa por 21 anos.

Viação Cidade do Aço

Em 1993, outro projeto desenvolvido por João de Deus voltou a vencer o concurso de pintura de frota. A nova identidade buscava modernizar os ônibus mantendo referências à tradição e utilizando cores mais claras, com menor absorção de calor.

Pintura histórica voltou às estradas nos 65 anos da empresa

A força daquela identidade ficou evidente décadas depois.

Em 2016, quando a Viação Cidade do Aço comemorou 65 anos, dois veículos receberam novamente a pintura histórica criada em 1972. A iniciativa nasceu de sugestões de clientes e admiradores da companhia.

A caracterização retrô recuperou um elemento visual que havia marcado as estradas fluminenses durante mais de duas décadas.

Viação Cidade do Aço

Mais do que uma homenagem estética, a iniciativa demonstrou algo relevante em empresas longevas de transporte: determinados ônibus, pinturas, logotipos e linhas acabam fazendo parte da memória afetiva de quem viajou neles.

Esse patrimônio não está apenas nos arquivos das companhias.

Está também nas lembranças dos passageiros.

Um ônibus que virou parte de uma história de amor

Um episódio publicado pelo Ônibus & Transporte em 2016 ajuda a explicar essa relação.

Durante cerca de 12 anos de namoro e noivado, Juliana e Luiz Paulo utilizavam semanalmente os ônibus da Cidade do Aço entre Caxambu e Rio de Janeiro. As viagens tornaram-se parte tão importante da relação que os dois passaram a ser conhecidos por funcionários da empresa.

Quando decidiram se casar, fizeram um pedido incomum: realizar parte do ensaio fotográfico do casamento em um ônibus da Cidade do Aço.

Para o casal, a empresa havia funcionado como a ligação física que permitiu manter a relação apesar da distância.

A história ilustra uma dimensão do transporte de passageiros que dificilmente aparece em números de frota ou quilômetros rodados.

Para uma empresa, uma linha é uma operação. Para o passageiro, a mesma linha pode representar o caminho para o trabalho, a universidade, a família ou, como naquele caso, uma história construída durante anos entre duas cidades.

Expansão levou a Cidade do Aço para além do Médio Paraíba

Ao longo das décadas, a Cidade do Aço ampliou sua presença para diferentes localidades de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

Registros históricos citam operações que chegaram a destinos como Caxambu, Itajubá, São Lourenço, Três Corações, São José dos Campos e Juiz de Fora, mantendo o Rio de Janeiro como uma das principais referências geográficas da rede.

Em 1973, a entrada da Evanil Transportes e Turismo no grupo também ampliou a atuação para a Baixada Fluminense, incluindo ligações envolvendo Nova Iguaçu.

A expansão acompanhou o desenvolvimento das estradas e das cidades atendidas.

Assim, a história iniciada para transportar trabalhadores entre duas localidades do Médio Paraíba passou a integrar diferentes corredores do transporte rodoviário fluminense e interestadual.

Parque Rodoviário marcou nova fase de modernização

Depois da mudança de controle, a empresa iniciou outra etapa de investimentos.

Em 1993, os novos controladores construíam um complexo que concentraria sede, manutenção e serviços. O projeto materializava uma política de modernização da frota, qualificação dos colaboradores e aperfeiçoamento operacional.

O Parque Rodoviário, às margens da Rodovia Presidente Dutra, em Barra Mansa, foi inaugurado em fevereiro de 1995.

No ano anterior, a companhia havia iniciado a implantação da Gestão pela Qualidade Total, outra característica de um período no qual empresas brasileiras de transporte passaram a profissionalizar cada vez mais seus processos administrativos e operacionais.

O complexo de Barra Mansa tornou-se um símbolo da ligação da companhia com a cidade onde havia começado sua trajetória mais de quatro décadas antes.

Renovação de frota levou novos Apache Vip V à operação em 2024

Sete décadas depois das primeiras jardineiras, a renovação continuava fazendo parte da trajetória da empresa.

Em 2024, a Cidade do Aço incorporou 15 ônibus Caio Apache Vip de quinta geração para o transporte coletivo de Barra Mansa. Os veículos receberam chassis Mercedes-Benz OF-1721 BlueTec 6, compatíveis com o Proconve P-8/Euro 6.

Cidade do Aço

As unidades foram configuradas para transportar 79 passageiros, considerando pessoas sentadas e em pé, e receberam equipamentos como ar-condicionado, tomadas USB, iluminação em LED, câmeras e recursos de acessibilidade.

A aquisição também marcou o início de uma parceria entre a operadora e a Caio nessa configuração de veículos.

Viação Cidade do Aço

Para uma empresa cuja história começou com jardineiras de pouco mais de uma dezena de lugares, a comparação ajuda a dimensionar a transformação tecnológica ocorrida no transporte coletivo ao longo de 75 anos.

Nova identidade visual abriu outro capítulo em 2024

O ano de 2024 trouxe também uma mudança visual importante.

A Cidade do Aço apresentou uma nova identidade para sua frota rodoviária, desenvolvida pelo designer Saulo Scoponi. A combinação de grafite, laranja e branco passou a identificar os veículos e acompanhou a estreia do serviço Citizen.

A apresentação ocorreu juntamente com outra novidade operacional: a ligação experimental Resende–Cabo Frio, conectando o Médio Paraíba à Região dos Lagos e passando por cidades como Barra Mansa e Volta Redonda.

Cidade do Aço

A iniciativa tinha um significado particular quando observada pela perspectiva histórica.

A companhia que nasceu ligando Barra Mansa à então nascente Volta Redonda passava, mais de sete décadas depois, a criar uma conexão direta entre o interior e o litoral fluminense.

Do diesel ao gás natural e ao biometano

A busca por novas tecnologias também chegou à propulsão.

No fim de 2024, a Cidade do Aço participou do projeto-piloto RJ Mobilidade Sustentável, iniciativa do Governo do Estado do Rio de Janeiro voltada à avaliação de alternativas para redução das emissões no transporte.

A empresa passou a operar um Marcopolo Paradiso New G7 1050, equipado com chassi Scania K 320 IB 6×2*4 GNC, preparado para utilização de gás natural e biometano.

Cidade do Aço

O projeto colocou a empresa diante de uma transformação que provavelmente será determinante para as próximas décadas do setor: a descarbonização do transporte coletivo.

É uma distância tecnológica enorme em relação aos primeiros veículos da década de 1950, mas existe uma continuidade: adaptar a operação às mudanças de cada período.

75 anos depois, a Cidade do Aço continua ligada à região que lhe deu o nome

Poucas marcas de transporte carregam no próprio nome uma ligação tão direta com o desenvolvimento econômico de sua região.

A Cidade do Aço nasceu porque Volta Redonda crescia em torno da siderurgia e trabalhadores precisavam se deslocar. Cresceu com a expansão das rodovias, chegou ao Rio de Janeiro, avançou por Minas Gerais e São Paulo, atravessou diferentes gerações de veículos e passou por mudanças administrativas e tecnológicas.

Também viu o transporte mudar.

Das jardineiras para os ônibus rodoviários; dos veículos de madeira às carrocerias modernas; das estradas precárias à Via Dutra; das passagens tradicionais às vendas digitais; dos motores de outras décadas ao Euro 6 e às experiências com combustíveis de menor impacto ambiental.

Hoje, o site oficial da Cidade do Aço continua oferecendo venda de passagens, consulta de horários de linhas urbanas e canais de atendimento aos passageiros, enquanto a companhia mantém sua presença em serviços que conectam diferentes cidades.

Mas talvez o principal elemento de continuidade não esteja em um ônibus específico.

Está na relação construída com as cidades e com seus passageiros.

Uma empresa criada para transportar trabalhadores de uma região que se industrializava acabou atravessando três quartos de século transportando também estudantes, famílias, turistas, trabalhadores e histórias pessoais.

Em 1951, o desafio era aproximar Barra Mansa da siderúrgica de Volta Redonda.

Setenta e cinco anos depois, a Viação Cidade do Aço continua tendo justamente a conexão entre pessoas e cidades como razão de sua existência.

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