Empresas investigadas por suposta ligação com o PCC operam 510 linhas e transportam 41% dos passageiros de ônibus de São Paulo

Levantamento publicado pelo g1 e pela TV Globo mostra que 12 das 22 empresas do sistema municipal são citadas na Operação Vectura Corrupta; investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro, ...
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Doze empresas que atuam no sistema municipal de ônibus de São Paulo são citadas em uma investigação que apura uma suposta rede de lavagem de dinheiro, corrupção e infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público da capital paulista. Juntas, essas operadoras estão ligadas a 510 linhas municipais, equivalentes a aproximadamente 38% da rede de ônibus da cidade, e responderam por cerca de 41% dos passageiros transportados em agosto de 2026.

As informações foram publicadas originalmente pelo g1 e pela TV Globo nesta quinta-feira (17), a partir da análise de dados do sistema municipal e dos elementos da Operação Vectura Corrupta. A reportagem é assinada pelos jornalistas Letícia Dauer, Fabrício Lobel e Leonardo Zvarick.

Um dos pontos de maior impacto para o transporte público é a abrangência das empresas investigadas. Segundo o levantamento, elas estão relacionadas à operação de todas as linhas classificadas como de distribuição local, responsáveis principalmente pelos deslocamentos dentro dos bairros e entre regiões próximas.

É importante destacar que as informações fazem parte de investigações em andamento. A citação de empresas ou pessoas nos procedimentos não representa, por si só, condenação ou comprovação definitiva das suspeitas apuradas pelas autoridades.

12 das 22 empresas do sistema municipal aparecem na investigação

De acordo com a reportagem do g1 e da TV Globo, 12 das 22 empresas que operam o sistema municipal de ônibus de São Paulo são mencionadas na investigação.

As empresas citadas são:

  • Viação Transcap Transportes (atual Bless)
  • Alfa Rodobus Transportes
  • Transwolff Transportes
  • A2 Transportes
  • Imperial Transportes
  • Move Buss Transportes
  • Pêssego Transportes
  • Allianz Transportes (atual Allibus)
  • Transunião Transportes
  • Qualibus Transportes (atual UPBus)
  • Norte Bus Transportes, integrante do Consórcio Transnoroeste
  • Spencer Transportes, integrante do Consórcio Transnoroeste

Nesta fase da Operação Vectura Corrupta, entretanto, as medidas cautelares tiveram como alvos pessoas ligadas especificamente à A2 Transportes e à Transwolff. Portanto, a presença das demais empresas na investigação não significa que todas tenham sido objeto das mesmas medidas policiais nesta etapa.

Empresas concentram 510 linhas de ônibus de São Paulo

A dimensão da presença dessas operadoras no transporte paulistano aparece com mais clareza quando são considerados os serviços prestados diariamente.

As 510 linhas relacionadas às empresas citadas representam aproximadamente 38% de toda a rede municipal da capital.

O sistema de ônibus de São Paulo é organizado em diferentes tipos de serviço. As linhas estruturais atendem os grandes deslocamentos pela cidade, enquanto as linhas de articulação regional conectam diferentes áreas de uma mesma região e auxiliam no acesso a corredores, terminais e serviços estruturais.

Já as chamadas linhas de distribuição local são voltadas principalmente às viagens dentro dos bairros ou entre bairros próximos.

É justamente nessa última categoria que a presença das empresas investigadas ganha maior dimensão: segundo os dados analisados pelo g1 e pela TV Globo, todas as linhas de distribuição local são operadas por empresas citadas na investigação.

Esses serviços possuem papel particularmente relevante nas áreas periféricas, onde realizam deslocamentos locais e alimentam outras partes da rede de transporte.

Operadoras transportaram quase 73 milhões de passageiros em agosto

A participação das empresas não se limita à quantidade de linhas.

Dados da SPTrans citados no levantamento mostram que, somente em agosto de 2026, as 12 empresas transportaram 72.947.123 passageiros.

No mesmo mês, todo o sistema municipal registrou 177.902.234 embarques.

Dessa forma, as operadoras mencionadas na investigação responderam por aproximadamente 41% do movimento de passageiros nos ônibus municipais de São Paulo naquele período.

Os dados ajudam a dimensionar a relevância dessas empresas para o funcionamento cotidiano do transporte público da maior cidade brasileira.

Elas estão presentes nas zonas Norte, Sul, Leste e Oeste, com a região central aparecendo como exceção no levantamento sobre a distribuição geográfica das operações.

Operação Vectura Corrupta investiga suposta infiltração no transporte

A Operação Vectura Corrupta apura suspeitas envolvendo uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro, corrupção e infiltração do crime organizado no setor de transporte público.

Na ação deflagrada nesta quinta-feira (17), foram expedidos 16 mandados de prisão temporária e 18 mandados de busca e apreensão.

As diligências abrangem São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.

A operação é realizada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.

Ex-vereador Milton Leite aparece entre os investigados

Entre os nomes citados na investigação está o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil).

Segundo a investigação relatada pelo g1, ele é apontado pelos investigadores como “dono de fato” da Transwolff. O material investigativo também sustenta que decisões estratégicas relacionadas a determinadas empresas suspeitas dependeriam de seu conhecimento ou aprovação política. Essas são alegações atribuídas aos investigadores e ainda sujeitas à apuração e ao contraditório, não conclusões definitivas sobre responsabilidade criminal.

Policiais estiveram na residência do ex-vereador para cumprimento de mandados, mas ele não foi localizado naquele momento. Em manifestação divulgada posteriormente, Milton Leite afirmou que estava viajando, negou estar foragido e disse que se apresentaria às autoridades e provaria sua inocência.

Milton Leite deixou a Câmara Municipal depois de sete mandatos como vereador e quatro períodos na presidência da Casa. Atualmente, segundo a reportagem que embasa esta matéria, ocupa funções partidárias no União Brasil e na Federação União Progressista em São Paulo.

A2 e Transwolff estão no centro desta fase da operação

Embora 12 empresas apareçam na investigação, A2 Transportes e Transwolff receberam atenção particular nesta etapa.

No caso da A2, o levantamento aponta que seu proprietário, Paulo Korek, é investigado sob suspeita de atuar como intermediário dos interesses da facção no setor. A Prefeitura de São Paulo também passou a avaliar medidas sobre a operação da empresa. Novamente, trata-se de suspeita investigativa, e não de condenação.

A Transwolff, por sua vez, já havia sido alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo. Na ocasião, as investigações também envolveram a UPBus e suspeitas de lavagem de dinheiro e favorecimento ao PCC.

Posteriormente, a Prefeitura de São Paulo rescindiu os contratos e assumiu a gestão das operações dessas concessionárias. No caso da antiga operação da Transwolff, a administração municipal assinou em janeiro de 2026 contrato emergencial para que a Sancetur assumisse 133 linhas e cerca de 1.100 ônibus na Zona Sul, com início previsto para 1º de fevereiro.

Indicadores da SPTrans também colocam empresas nas últimas posições de qualidade

O levantamento publicado pelo g1 acrescenta outro componente ao cenário: os indicadores operacionais.

No Índice de Qualidade do Transporte (IQT) analisado pela reportagem, oito das dez últimas posições eram ocupadas por concessionárias do Sistema Local de Distribuição.

A A2 Transportes aparece no último lugar entre as 40 operadoras avaliadas, com média de 58,11 pontos. De acordo com a classificação da SPTrans mencionada na reportagem, resultados abaixo de 60 pontos são considerados ruins.

Outras cinco empresas responsáveis por linhas que conectam bairros periféricos ao restante do sistema obtiveram avaliações classificadas como regulares, dentro da faixa de 60 a 75,99 pontos, no levantamento referente ao primeiro semestre de 2026.

Os indicadores de qualidade e as investigações criminais, contudo, são questões distintas: uma avaliação operacional inferior não constitui evidência de participação em atividade criminosa.

Investigações tiveram origem em apurações iniciadas em 2024

A Operação Vectura Corrupta é apresentada como desdobramento de investigações anteriores conduzidas pelas autoridades paulistas.

Em abril de 2026, a Operação Contaminatio investigou uma estrutura financeira que, segundo os investigadores, seria utilizada pelo crime organizado para movimentar recursos e buscar influência em administrações públicas.

A origem da apuração remonta ainda à Operação Decurio, iniciada em agosto de 2024. Segundo o material da investigação, dados extraídos de um telefone apreendido durante as diligências contribuíram para revelar uma estrutura financeira que teria movimentado cerca de R$ 8 bilhões, além de fornecer elementos para novas frentes investigativas.

A investigação atual amplia essa frente para examinar a possível presença de integrantes e interesses ligados ao crime organizado em empresas responsáveis por parcela significativa do transporte público de São Paulo.

Pela dimensão operacional das companhias citadas — 510 linhas e cerca de 41% dos passageiros transportados em agosto — os desdobramentos da apuração passam a ter relevância não apenas criminal, mas também para a gestão e a continuidade de um serviço público utilizado diariamente por milhões de paulistanos.

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