Pluma Conforto e Turismo: a trajetória de uma das grandes empresas rodoviárias do Brasil

Nascida a partir da antiga Boscatur, companhia cresceu nas estradas brasileiras, atravessou fronteiras e construiu uma operação que chegou à Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile
Pluma

A história da Pluma Conforto e Turismo começou a ganhar forma em 1965, quando duas empresas de transporte de cargas de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, decidiram ingressar no transporte rodoviário de passageiros.

A Transportadora Galioto, em sociedade com a Transportadora Aurora, adquiriu a Expresso Boscatur, de Curitiba, empresa que operava as linhas Curitiba–São Paulo, Curitiba–Porto Alegre e Curitiba–Santa Maria.

Foi o início de uma trajetória que, ao longo das décadas seguintes, faria da Pluma uma das marcas mais conhecidas das estradas brasileiras e uma das empresas de maior presença internacional no transporte rodoviário de passageiros da América do Sul.

No comando dessa transformação estava Oscar Conte, então com apenas 23 anos, que chegou a Curitiba em 19 de novembro de 1965 com a missão de reorganizar a operação adquirida pelos empresários gaúchos.

Primeiros anos foram dedicados à renovação da operação

Quando os novos controladores assumiram a Boscatur, encontraram uma frota composta principalmente por ônibus Alfa-Romeo que já apresentavam elevado desgaste operacional.

As dificuldades exigiram uma rápida mudança de estratégia.

Em dezembro de 1965, foram registradas 175 quebras em 219 viagens, situação que mostrava a necessidade de renovar os veículos para aumentar a regularidade dos serviços.

Em uma das viagens entre Curitiba e Porto Alegre, por exemplo, foi necessário utilizar seis ônibus diferentes até que o percurso pudesse ser concluído.

A prioridade passou então a ser a modernização da frota.

Mesmo diante das limitações financeiras existentes naquele período, novos ônibus começaram a ser adquiridos, entre eles modelos Scania-Vabis, enquanto os antigos Alfa-Romeo foram sendo gradualmente retirados de circulação.

A entrada dos novos veículos contribuiu para melhorar a confiabilidade das operações e recuperar passageiros.

Oscar Conte chegou a Curitiba aos 23 anos

A responsabilidade pela administração da recém-adquirida empresa ficou nas mãos de Oscar Conte, que até então havia trabalhado principalmente na área contábil da Transportadora Galioto.

Sua trajetória profissional havia começado poucos anos antes.

Depois de prestar o Serviço Militar, Conte conseguiu uma vaga como auxiliar de contador na empresa de Dorvalino Galioto, em Caxias do Sul. Com a saída do responsável pela contabilidade, pediu a oportunidade de assumir a função e passou a estudar por conta própria para desempenhar o trabalho.

Entre 1960 e 1965, ficou responsável pela contabilidade da transportadora.

A dedicação demonstrada naquele período levou Dorvalino Galioto a escolhê-lo para conduzir a nova operação de passageiros em Curitiba.

A partir dali, Conte passaria a desempenhar papel fundamental na construção da empresa que se tornaria a Pluma.

Nome Pluma surgiu de concurso entre funcionários

Além da recuperação operacional, os novos administradores entenderam que a empresa precisava construir uma identidade própria.

O nome Boscatur não agradava aos controladores e, em fevereiro de 1966, foi realizado um concurso interno para escolher uma nova denominação.

O gerente Agostinho Kuster apresentou a sugestão vencedora: Pluma.

A palavra transmitia a ideia de leveza e conforto, características que a empresa pretendia associar aos seus serviços.

A administração decidiu acrescentar as expressões Conforto e Turismo.

Nascia assim a Pluma Conforto e Turismo, nome que passaria a ser visto em rodoviárias e estradas de diferentes regiões do Brasil e, posteriormente, de outros países da América do Sul.

Crescimento acompanhou renovação da frota

Com veículos mais novos e maior regularidade operacional, a empresa começou a ampliar sua presença no transporte rodoviário.

O crescimento ocorreu principalmente a partir das linhas que conectavam o Paraná aos estados de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

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Ao mesmo tempo, a administração buscava aperfeiçoar os processos internos e aproveitar novas oportunidades de expansão.

A combinação entre renovação de frota, ampliação de mercados e reorganização administrativa permitiu à Pluma construir uma operação cada vez mais abrangente.

Mas seria na década de 1970 que a empresa daria um dos passos mais importantes de toda a sua trajetória.

Pluma iniciou expansão internacional na década de 1970

Em 1972, a empresa decidiu entrar de forma mais intensa no transporte internacional de passageiros.

Uma das principais oportunidades estava na ligação entre Porto Alegre e Buenos Aires.

Naquele período, a rota era operada por duas empresas em regime de reciprocidade: uma brasileira e uma argentina.

No lado brasileiro estava a Expresso Porto Alegre–Brasília, enquanto na Argentina atuava a Expresso General Urquiza.

A operação era bastante diferente daquela encontrada atualmente nas ligações internacionais.

As viagens entre Brasil e Argentina podiam durar de 36 a 40 horas, com longos trechos de estradas de terra, travessias por balsas e condições rodoviárias que exigiam grande resistência dos veículos.

Aquisição da General Urquiza abriu caminho para Buenos Aires

Interessada na ligação internacional, a Pluma buscou inicialmente adquirir a Expresso Porto Alegre–Brasília.

Sem chegar a um acordo com seu proprietário, Adelchi Rota, Oscar Conte decidiu seguir outro caminho.

Foi à Argentina e adquiriu a Expresso General Urquiza, colocando veículos mais novos em operação no trecho entre Buenos Aires e Porto Alegre.

A mudança aumentou a competitividade no corredor internacional e alterou o cenário das negociações.

Posteriormente, a própria Expresso Porto Alegre–Brasília acabou sendo incorporada à Pluma.

A partir dali, a empresa passou a controlar uma operação estratégica que serviria como base para planos ainda maiores.

Objetivo era levar a linha até o Rio de Janeiro

A intenção da Pluma não era limitar a operação internacional ao trecho entre Porto Alegre e Buenos Aires.

O objetivo era prolongar o serviço até o Rio de Janeiro, aproveitando o fluxo de turistas argentinos que viajavam para o litoral brasileiro.

Para chegar à capital fluminense, entretanto, seria necessário enfrentar uma série de desafios regulatórios.

A operação dependia de entendimentos entre Brasil e Argentina e envolvia uma diferença significativa na extensão percorrida dentro de cada país.

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Enquanto a empresa brasileira circularia por aproximadamente 700 quilômetros na Argentina, a transportadora argentina teria autorização para percorrer cerca de 2 mil quilômetros dentro do Brasil.

Além disso, a Empresa de Ônibus Nossa Senhora da Penha também demonstrava interesse na ligação.

Depois de negociações com as autoridades responsáveis pelo transporte rodoviário dos dois países, a extensão foi autorizada em 1973.

Rio de Janeiro–Buenos Aires atravessava algumas das principais cidades do país

A nova ligação conectava Rio de Janeiro e Buenos Aires, passando por cidades estratégicas da malha rodoviária brasileira.

O itinerário atendia São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, antes de cruzar a fronteira em direção à Argentina.

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A rota ampliou consideravelmente a projeção da Pluma e ajudou a consolidar a companhia como uma empresa especializada em grandes distâncias.

O transporte internacional passou, então, a ocupar uma parcela cada vez mais importante da operação.

Rio de Janeiro–Santiago levou Pluma aos Andes

Depois da expansão para a Argentina, a companhia voltou sua atenção para uma ligação ainda mais ambiciosa: Rio de Janeiro–Santiago do Chile.

Dessa vez, a operação dependia de autorizações e entendimentos envolvendo Brasil, Argentina e Chile.

Os ônibus precisariam atravessar território argentino antes de chegar ao destino chileno, o que exigia negociações específicas relacionadas ao trânsito internacional de passageiros.

A linha possuía aproximadamente 4.118 quilômetros.

Era uma viagem de cerca de 68 horas, transformando-se em uma das mais impressionantes operações rodoviárias internacionais realizadas por uma empresa brasileira.

Viagens ao Chile ultrapassavam dois dias e meio

A dimensão do serviço entre Rio de Janeiro e Santiago ajuda a mostrar o nível de complexidade alcançado pela Pluma.

Os passageiros permaneciam aproximadamente 68 horas em viagem, com paradas programadas principalmente nos horários de café da manhã, almoço e jantar.

O percurso atravessava diferentes regiões climáticas, extensas rodovias brasileiras e argentinas e, finalmente, a região dos Andes até chegar à capital chilena.

Em uma época muito anterior aos atuais sistemas de entretenimento individual, internet móvel e comunicação digital, viagens dessa duração exigiam planejamento operacional preciso, veículos preparados e equipes capazes de enfrentar jornadas internacionais extremamente longas.

Empresa também operou uma das menores ligações internacionais

Se a rota para Santiago estava entre as maiores operações da companhia, outro serviço representava exatamente o contrário.

A Pluma passou a operar a ligação entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Ciudad del Este, no Paraguai, então chamada Presidente Stroessner.

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O percurso possuía apenas cerca de nove quilômetros.

A mesma empresa que atravessava milhares de quilômetros para chegar ao Chile também realizava uma curta viagem internacional entre duas cidades separadas apenas pela fronteira entre Brasil e Paraguai.

Foz do Iguaçu ganhou importância estratégica

A presença na região de Foz do Iguaçu tornou-se fundamental para a expansão da Pluma.

A localização na Tríplice Fronteira permitia articular serviços brasileiros com ligações internacionais.

Ao mesmo tempo, o desenvolvimento das linhas internacionais gerava oportunidades dentro do próprio território nacional.

Os diferentes trechos desses itinerários permitiram fortalecer a presença da empresa nos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.

Duas ligações, em especial, ganharam grande importância: São Paulo–Foz do Iguaçu e Rio de Janeiro–Foz do Iguaçu.

Ambas se tornaram alguns dos principais mercados da companhia.

Operações internacionais chegaram a representar 40% das linhas

A expansão para outros países tornou-se uma das principais marcas da Pluma.

Em determinado período, aproximadamente 40% das linhas da empresa estavam relacionadas às operações internacionais.

Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile passaram a fazer parte do universo da companhia, criando uma identidade fortemente associada às viagens de longa distância pela América do Sul.

Poucas marcas brasileiras do transporte rodoviário tiveram uma presença internacional tão evidente ao longo de sua trajetória.

Pluma se tornou presença marcante nas rodovias brasileiras

Com o crescimento da malha, os ônibus da Pluma Conforto e Turismo se tornaram presença frequente nas principais rodovias do Centro-Sul brasileiro.

Curitiba permanecia como um ponto fundamental da operação, enquanto cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Porto Alegre e Foz do Iguaçu ganhavam importância dentro da rede.

A empresa acompanhou também a evolução da indústria brasileira de ônibus.

Ao longo das décadas, diferentes gerações de carrocerias e chassis passaram a integrar a frota, refletindo a modernização do transporte rodoviário nacional e as crescentes exigências de conforto para viagens de longa distância.

Pluma chegou aos anos 2000 com cerca de 240 ônibus

Décadas depois daquela operação iniciada com a antiga Boscatur, a Pluma havia se transformado em uma empresa de grande porte.

Em 2002, sua frota alcançava aproximadamente 240 ônibus.

Naquele ano, iniciou-se uma nova etapa empresarial.

Os acionistas que conduziram a companhia durante seu período de crescimento deixaram o comando, e a empresa passou ao grupo liderado pelo empresário Roger Mansur, de Botucatu, em São Paulo.

A nova administração buscou ampliar os serviços, promover mudanças internas e operacionais, implantar novos métodos de gestão e atualizar a identidade visual da companhia.

Uma trajetória construída entre estradas e fronteiras

A história da Pluma reúne diferentes momentos da própria evolução do transporte rodoviário brasileiro.

A empresa nasceu em um período no qual as viagens de ônibus ainda enfrentavam limitações significativas de infraestrutura e acompanhou décadas de modernização das estradas, dos veículos e dos serviços oferecidos aos passageiros.

Saiu de uma operação concentrada em três linhas e avançou para uma rede que atravessava parte significativa do Brasil e chegava a diferentes países sul-americanos.

Também participou de uma época em que os ônibus eram uma das principais alternativas para quem precisava viajar entre grandes cidades brasileiras e internacionais.

De Curitiba às estradas da América do Sul

A transformação ocorrida em pouco mais de uma década ajuda a dimensionar a trajetória da companhia.

Em 1965, os novos administradores trabalhavam para reorganizar uma empresa com dificuldades operacionais nas ligações entre Curitiba, São Paulo, Porto Alegre e Santa Maria.

Nos anos seguintes, vieram novos ônibus, uma nova marca e uma estrutura empresarial cada vez maior.

Depois chegaram as fronteiras.

Buenos Aires, Assunção, Ciudad del Este e Santiago passaram a fazer parte da presença internacional construída pela Pluma, enquanto importantes corredores domésticos consolidavam a empresa dentro do Brasil.

A Pluma Conforto e Turismo tornou-se, assim, parte de uma geração de grandes empresas que ajudaram a escrever a história do transporte rodoviário brasileiro.

Para quem acompanhou seus ônibus nas estradas, embarcou em alguma de suas longas viagens ou simplesmente observava os veículos chegando às plataformas das rodoviárias, a palavra Pluma acabou se tornando muito mais do que o nome escolhido em um concurso realizado entre funcionários em 1966.

Tornou-se uma marca ligada às grandes viagens e às estradas que conectaram cidades, estados e países durante décadas.

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