Veículos que resgatam histórias de vidas

Fonte: Abrati
Fotos: Divulgação

No
início, em 2004, uns poucos veículos antigos foram expostos na garagem da
empresa Redenção, em São Paulo. Com o aumento do número de expositores e dos
visitantes, o espaço ficou pequeno. Por isso, em 2007 a exposição Viver, Ver e
Rever – A evolução passou a ser realizada no Memorial da América Latina, no
bairro da Barra Funda, sempre na capital paulista. No ano passado ela foi
incluída no Calendário Oficial de Turismo da cidade de São Paulo. É promovida
pelo Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro e patrocinado pela
Mercedes-Benz do Brasil. 

“A
cada ano são muitos amigos que fazemos, e são impressionantes as muitas
histórias que descobrimos”, relata Antônio Kaio, um apaixonado pela história
dos transportes que preside o Primeiro Clube. “A partir da história dos
transportes podemos ver o valor do nosso povo. O transporte lida com gente,
está no dia a dia das pessoas. Para nós, é uma emoção diferente a cada
exposição.”

Por
exemplo, na Viver, Ver e Rever deste ano, em outubro, um dos veículos mostrados
pela primeira vez foi o Ciferal Flecha de Prata Mercedes-Benz LPO 1113. O
ônibus pertence ao empresário Antônio Cortes, de 44 anos. Ao restaurá-lo, ele
quis prestar uma homenagem a João Batista Cortes, seu pai, ao mesmo tempo
retratando como eram os transportes em uma região de Minas Gerais. João Batista
fundou em 1962 a Expresso Tereza Cristina, empresa de ônibus rodoviário que
ligava Belo Horizonte ao Vale do Mucuri, naquele Estado. Enfrentou todas as dificuldades
inerentes às estradas de terra e ajudou no desenvolvimento da região. O asfalto
só veio em 1982.

O filho,
Alexandre Cortes, viveu uma parte dramática dessa história.
“Nasci
em 1968 em um dos ônibus do meu pai. Grávida de mim, minha mãe entrou em
trabalho de parto na garagem, onde morávamos. Sem carro, meu pai usou um ônibus
para transportá-la até o hospital, mas não deu tempo de chegar lá, minha primeira
viagem já tinha sido feita” – relembra Alexandre.
A
empresa foi vendida para outro grupo em 1997, mas a saudade ficou. Mais
recentemente, Alexandre começou a procurar um ônibus igual aos que eram usados
na empresa de seu pai. Encontrou, comprou, mandou desmontar e restaurou. Foi
mostrado agora pela Viver, Ver e Rever.

Outro
veículo inédito apresentado na edição de 2012 da mostra – um Flecha Azul Scania
K 124 iB, ano 1998, a penúltima unidade produzida pela CMA – serviu para
mostrar que os transportes podem realmente suscitar paixões, mesmo daquelas
pessoas que não atuam diretamente no ramo. O veículo é de propriedade de
Antônio Sérgio Hurtado, empresário do ramo da indústria plástica, fascinado por
transportes. Tal fascínio levou-o a reunir um dos maiores acervos particulares
de veículos pesados antigos. São vinte e seis caminhões e quatro ônibus.

A
importância do trabalho de preservação que Hurtado – chamado de Neo pelos
amigos – realiza pode ser medida pela reação do público ao ver o imponente CMA
Flecha Azul no Memorial da América Latina. Com autorização da Viação Cometa,
ele fez questão de manter as cores tradicionais do veículo. “A história dos
transportes passa pelo CMA Flecha. Esse modelo da Cometa marcou a paisagem de
várias estradas brasileiras. Até quem não entendia nada de ônibus sabia qual
era identificar o veículo, que foi realmente marcante” – explica, emocionado, o
colecionador.

Outro
veículo antigo que atraiu muitas atenções na edição de 2012 foi uma enorme
carroçaria Cermava ano 1966, estilo Papa-Fila. Entre 1950 a 1960, houve um desenvolvimento
muito rápido dos principais centros urbanos no Brasil. A demanda de passageiros
em algumas linhas de ônibus urbanos crescia a ponto de os veículos
convencionais, na sua maior parte pequenos se comparados aos convencionas de
hoje, não dessem conta de tanta gente. O Papa-Fila foi ao mesmo tempo reflexo e
uma resposta a esse fenômeno. O primeiro ônibus articulado só surgiria em 1978
– um Scania 111, Caio modelo Gabriela. O Papa-Fila foi o seu tosco antecessor:
uma enorme carroçaria de ônibus tracionada por um cavalo de caminhão. 

O
exemplar exibido na VVR foi adquirido da Marinha, em Belo Horizonte.

Um jeito especial de recordar o passado

Com
a ajuda dos veículos antigos expostos deu para reconstituir momentos ou
passagens importantes da nossa história, ou da história de cada um. Talvez por
isso, na VVR, eles eram encarados com reverência pelos visitantes. Por exemplo: 

A jardineira,
de 1929, remontava aos primeiros tempos do transporte automotivo, quando era
preciso sobretudo muita coragem para realizar o sonho de ir e vir.

A Prefeitura
de São Paulo trouxe um ônibus elétrico ACF Brill, ano 1948, importado de
Denver, Estados Unidos. O modelo prestou serviços na capital paulista até os
anos 1990. 

Um
dos trólebus pioneiros que operaram em São Paulo foi mostrado ao público.
Trouxe a lembrança de que esse tipo de veículo constitui uma das marcas da
cidade de São Paulo. 

Um
Chevrolet 1963 mostrou ao público que os transportes no Brasil, embora já
estivessem se modernizando naquela década, ainda demorariam muito para chegar
ao estágio atual.

Grandes
marcos da evolução do ônibus no Brasil foram os monoblocos que a Mercedes Benz
começou a produzir em 1958. Os monoblocos estiveram presentes na VVR, como um modelo
particular de 1968 e um restaurado da empresa Passaredo.

Trazidos
do Sul do país vieram um Volvo B 58/Nielson 2.50, da Viação Graciosa, e um
Nimbus TR 3, da Viação Colombo, mostrando como o transporte evoluiu naquela
região. Inicialmente chamada de Furcare, a Nimbus foi criada nos anos 1960
pelos irmãos Nicola, que antes haviam fundado a antecessora da Marcopolo. Esta,
comprou a Nimbus nos anos 1970.

A
Nielson, que depois veio a se chamar Busscar, marcou épocas com os modelos
Diplomata. O Diplomata 310, como o da empresa São João Batista, era muito usado
para médias distâncias e fretamento. Para turismo ou viagens maiores, havia
versões mais requintadas, como o Diplomata 350 exibido pela Rodrigues.

Outro
ônibus marcante foi o Tribus, produzido pela Itapemirim. A empresa levou duas
unidades ao Memorial da América Latina. 

Também
estava lá um simpático modelo de dois andares – o Fofão –cópia dos famosos
ônibus vermelhos de Londres. Não deu certo por causa do seu porte: tinha 4,25 m
de altura. A primeira unidade, entregue em 1º de outubro de 1987, transportava
26 passageiros sentados na parte de baixo e 46 sentados no andar superior.

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