Três grandes oportunidades para transformar o transporte

Fonte: Embarq Brasil
Matéria/Texto: Holger Dalkmann
Foto: Mariana Gil

A necessidade de ação em transporte
sustentável nunca foi mais evidente do que é hoje. A população mundial deve
chegar a 9,8 bilhões de pessoas em 2050, com cerca de 70% delas vivendo nas
cidades. Enquanto isso, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) estão em
ascensão. O Transporte contribui para 13% das emissões globais, impulsionando a
mudança climática e criando uma perigosa poluição do ar. O transporte
sustentável – como sistemas de transporte coletivo, ciclovias e caminhadas – tem
a capacidade de salvar vidas, reduzir o uso de energia e as emissões de GEE,
além de facilitar o acesso a bens e serviços que apoiem o desenvolvimento
sustentável, melhorando a qualidade geral de vida nas cidades. A necessidade do
transporte sustentável tem sido aceita em algumas partes do mundo e, agora,
ganha força globalmente. As cidades, que são tão importantes para a economia
global, desempenham um papel fundamental.

Um
momento crucial para o transporte sustentável

Os bancos multilaterais
de desenvolvimento (BMD) sinalizaram uma mudança de paradigma quando se
comprometeram em investir U$ 175 bilhões no transporte sustentável, ao longo de
10 anos, durante a Conferência Rio+20, em junho passado. Enquanto o
financiamento provém de recursos já alocados para o desenvolvimento, este
compromisso representa a primeira vez que os BMDs reservaram uma quantia dessa
magnitude para o transporte sustentável. Este compromisso financeiro pode
ajudar a alavancar o impacto dos investimentos em infraestrutura de transporte,
que já respondem por mais de US $ 1 trilhão por ano no mundo. Ele também pode
apoiar o trabalho em nível nacional, bem como a liderança histórica das cidades
no transporte.
Temos agora
uma chance de realmente abraçar o transporte sustentável em níveis local,
nacional e internacional. É primordial que nós aproveitemos a oportunidade
apresentada por este alinhamento sem precedentes de vontades.
3
grandes oportunidades para transformar o transporte
1) Liderança Local
As cidades têm
historicamente assumido a liderança no transporte sustentável e em iniciativas
ambientais. Tomemos como exemplo a cidade de Nova Iorque: Enquanto a os Estados
Unidos têm lutado para lidar eficazmente contra as mudanças climáticas, a
iniciativa do prefeito Bloomberg, a PlaNYC 2030, alcançou mudanças para medir e
aumentar a saúde dos nova-iorquinos, tornar as ruas mais seguras, reduzir as
emissões de gases de efeito estufa e melhorar o meio ambiente. A transformação
da icônica Times Square em um local de comércio e entretenimento para os
pedestres irá inspirar outras cidades em todo o mundo a adotarem o transporte
sustentável.
A Cidade do
México também tem feito progressos notáveis em relação ao ano passado, como o
acréscimo de uma linha de BRT, a expansão do sistema de compartilhamento de
bicicletas públicas, e a implementação de um sistema de estacionamento em uma
área movimentada. Enquanto isso, o Rio de Janeiro está implementando uma rede
de 150 km de corredores BRT, duplicando o tamanho de seu sistema de aluguel de
bicicletas públicas, e abrindo novos espaços verdes que incentivam a vida
urbana sustentável antes da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Ainda esta semana, o ex-prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard, recebeu o
Prêmio de Transporte Sustentável por sua liderança, juntamente com Eduardo
Paes, prefeito do Rio de Janeiro.
É conveniente
que prefeitos e administradores municipais conduzam o transporte sustentável,
já que entendem as questões econômicas, sociais e políticas específicas que
impactam cada ambiente urbano. As cidades devem continuar liderando projetos
sustentáveis de transporte, mesmo se eles forem financiados por dinheiro
nacional ou internacional. Determinar como alavancar investimentos nacionais e
internacionais, sem prejudicar iniciativas locais é um desafio fundamental para
capitalizar sobre as grandes oportunidades diante de nós. Em face do aumento da
motorização e urbanização, é também vital que mais cidades implementem o
transporte sustentável para alcançar uma visão de rua para as pessoas e não de
estradas para carros.
2)
Políticas Nacionais
Nos últimos
anos, várias novas políticas nacionais foram feitas, canalizando investimentos
substanciais em transporte sustentável em áreas urbanas em crescimento. Os
governos nacionais começaram a mostrar interesse em transporte sustentável,
pois isto ajuda o seu próprio desenvolvimento – o transporte é um fator-chave
para alcançar as metas nacionais sobre as emissões de gases de efeito estufa e
mudanças climáticas.
O México, por
exemplo, reconheceu o transporte sustentável em sua legislação sobre mudança
climática de 2012, que direciona a um objetivo de redução de emissões de 30% em
2020 e 50% até 2050. A Índia é outro exemplo. O programa JnNURM II vai
canalizar 40 bilhões de dólares para projetos de desenvolvimento urbano ao
longo dos próximos cinco anos. E no Brasil, a fase II do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC) está prestes a investir cerca de US$ 526 bilhões de 2011 a
2014, em infraestrutura urbana, energia e transporte antes da Copa do Mundo de
2014 e Jogos Olímpicos de 2016.
As políticas
nacionais são importantes, mas devem apoiar iniciativas da cidade – e não
operar em um fluxo de trabalho separado. Dada à natureza bem local do
transporte e o conhecimento que as cidades possuem, as comunidades urbanas
devem ser quem deve implementar melhorias de transporte sustentáveis. Os
governos nacionais devem também dar às cidades mais autoridade jurídica e
fiscal, permitindo-lhes servir como motores do crescimento econômico e
qualidade de vida.
3)
Compromissos Globais
O compromisso
de oito BMDs para investir US$ 175 bilhões em transporte sustentável ao longo
dos próximos 10 anos não é o único compromisso global do transporte. A Década
de Ação pela Segurança no Trânsito 2011-2021, da ONU, e a promessa da
implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, também, dão maior
ênfase aos benefícios humanos do transporte sustentável.
Esta atenção
internacional é encorajadora, mas o dinheiro deve ser gasto com os tipos certos
de projetos. Os compromissos dos bancos devem apoiar a expansão significativa
dos financiamentos para o transporte urbano, transporte coletivo rápido, e a
integração do uso do solo – e reduzir, significativamente, os empréstimos para
a construção de estradas. A Iniciativa de Transporte Sustentável (The
Sustainable Transport Initiative), lançada pelo Banco de Desenvolvimento da
Ásia, em 2008, é um bom ponto de partida para enquadrar esta transferência de
recursos.
Como os
clientes dos bancos multilaterais são os governos nacionais e as autoridades
locais, os bancos também desempenham um papel importante ao incentivar estados
e cidades a escolherem as opções de transporte sustentável. Isto poderia ser
traduzido oferecendo taxas de juros mais baixas para projetos sustentáveis,
acesso mais fácil e rápido para o financiamento, e acesso direto a recursos
para os governos locais.
Uma ideia
promissora seria misturar o financiamento dos BMDs com as finanças climáticas
através de uma “Facilidade de Baixo Carbono + Transporte Sustentável”. Esta
estratégia poderia promover a execução do transporte sustentável no âmbito da
UNFCCC e fornecer planos de ação em transporte sustentável para os Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável, com o financiamento que necessita.
Olhando
para o futuro
Como lidamos
com o transporte hoje impactará a forma como as cidades do mundo vão operar no
futuro, incluindo as suas pegadas ambientais e como elas impactam saúde,
mobilidade e qualidade de vida dos cidadãos. Nós não podemos nos dar ao luxo de
ignorar as três grandes oportunidades que estão na nossa frente. É importante
que os investimentos locais, nacionais e internacionais trabalhem em conjunto
para transformar o transporte.

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