A história do transporte rodoviário brasileiro é marcada por empresas que nasceram pequenas, enfrentaram desafios inimagináveis e ajudaram a construir a integração entre cidades e estados antes mesmo da expansão das rodovias modernas. Poucas trajetórias representam tão bem esse espírito quanto a da Viação Sampaio.
Fundada em 25 de abril de 1963, em Barra Mansa, no Sul Fluminense, a empresa surgiu do sonho e da coragem de dois homens que acreditaram no potencial do transporte de passageiros em uma época em que viajar exigia resistência, improviso e muita determinação. Mais de seis décadas depois, a Sampaio permanece como uma das marcas mais tradicionais do setor, hoje integrada ao Grupo Guanabara e inserida em uma malha que conecta mais de 2 mil destinos em todo o país.

Ao longo dessa caminhada, a empresa viveu momentos de crescimento, reinventou operações, superou crises e enfrentou episódios dramáticos que ajudaram a moldar sua identidade. Entre eles, um dos mais marcantes ocorreu em 1966, quando um ônibus da companhia ficou próximo de um dos maiores desastres naturais registrados na região da Serra das Araras.
Das origens humildes nasceu uma empresa interestadual
Antes de criarem a Viação Sampaio, Isaac Newton Pereira Sampaio e Orlando Martini já conheciam profundamente a realidade das estradas brasileiras.
Vindos da zona rural de Barra Mansa, ambos iniciaram suas trajetórias profissionais observando as mudanças econômicas provocadas pela implantação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda. O intenso fluxo de trabalhadores que chegavam à região despertou em Isaac a percepção de que o transporte coletivo poderia representar uma grande oportunidade.
Os dois sócios adquiriram inicialmente uma pequena operação conhecida como Viação Falcão, responsável por um trecho entre Minas Gerais e Barra Mansa. A frota era composta por apenas um ônibus, um dos primeiros monoblocos Mercedes-Benz O 321 da região.
Posteriormente, passaram a atuar em linhas de lotação entre Barra Mansa e Volta Redonda, acumulando experiência até assumirem operações ligadas à Viação Sul Fluminense e à Viação Volta Redonda.
O grande salto veio em 1963.
A partir do desmembramento de linhas pertencentes à Cidade do Aço, que anteriormente haviam sido operadas pela Pássaro Marron, nasceu oficialmente a Viação Sampaio.
Estradas difíceis e uma empresa construída na prática
Os primeiros anos foram marcados por muito trabalho.
A empresa já nasceu operando exclusivamente linhas interestaduais sob fiscalização do então Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER).
As rotas iniciais ligavam Volta Redonda a Aparecida do Norte e Volta Redonda a Angra dos Reis.
Isaac assumia o volante sempre que necessário.
Orlando, mecânico experiente, cuidava da manutenção da frota.
Não havia divisão rígida de funções.
Fazer a empresa crescer exigia dedicação integral.
As dificuldades também faziam parte da rotina.
Na ligação para Angra dos Reis, por exemplo, a precariedade das estradas transformava cada viagem em um desafio. Em períodos de chuva, os ônibus frequentemente atolavam durante a descida da serra e precisavam ser retirados com auxílio de tratores.
Mesmo diante das adversidades, desistir nunca foi considerado uma opção.
A noite em que a Serra das Araras parou
Se houve um episódio capaz de simbolizar os riscos enfrentados pela jovem empresa, ele aconteceu em 1966.
Naquele ano, um ônibus da Sampaio realizava a linha entre Aparecida e o Rio de Janeiro quando fortes chuvas atingiram a região da Serra das Araras, na Via Dutra.
Deslizamentos sucessivos bloquearam a rodovia.
O motorista conseguiu interromper a viagem a uma distância segura da primeira barreira que desabou sobre a pista.
Sem condições de prosseguir, optou por um desvio emergencial, passando por Três Rios e Petrópolis até alcançar a capital fluminense.
O que deveria ser uma viagem de poucas horas transformou-se em uma travessia de 24 horas.
Os passageiros enfrentaram tensão, incerteza e longos períodos sem alimentação adequada.
Na sede da empresa, a ausência de notícias ampliava a angústia.
Sem celulares ou sistemas de rastreamento, Isaac e Orlando apenas sabiam que o ônibus havia partido às sete horas da manhã e que, teoricamente, estaria exatamente na região atingida pelos deslizamentos.
A espera foi desesperadora.
Embora ninguém tenha se ferido, o episódio jamais seria esquecido pelos fundadores.
Fé e devoção ajudaram a construir a identidade da empresa
Entre todas as linhas operadas pela Sampaio, nenhuma ganhou tanto significado quanto as ligações com Aparecida.
O crescimento da demanda levou à criação da Viação São Luiz, responsável pelos serviços diretos para o principal destino religioso do país.
Mais tarde, a operação seria incorporada novamente à Sampaio, desmembrada e transformada na Viação San Martin, nome criado a partir da união dos sobrenomes Sampaio e Martini.
O dia 12 de outubro, dedicado a Nossa Senhora Aparecida, tornou-se o período de maior movimento da empresa.
Para os fundadores, a santa era considerada a verdadeira madrinha do negócio.
Uma proteção espiritual que acompanhava cada partida.
Expansão consolidou a presença da marca
Ao longo das décadas, a empresa ampliou sua atuação para novos mercados.
Foram implantadas linhas como Rio de Janeiro–São José dos Campos, Rio de Janeiro–Pindamonhangaba, Rio de Janeiro–Aparecida e Volta Redonda–Mogi das Cruzes.

Garagens foram instaladas em Aparecida, São José dos Campos e Rio de Janeiro, além de um ponto de apoio em Resende.
A frota cresceu.
Os antigos ônibus Volvo com carrocerias Carbrasa deram lugar a modelos mais modernos, incluindo novas gerações dos tradicionais monoblocos Mercedes-Benz.

A Sampaio consolidou-se como elo fundamental entre o estado do Rio de Janeiro e o Vale do Paraíba paulista.
A chegada ao Grupo Guanabara
Em dezembro de 2004, a empresa perdeu um de seus principais pilares com o falecimento de Isaac Newton Pereira Sampaio.

dos dois fundadores da
Sampaio, tendo ao lado
Letícia Pineschi Kitagawa,
da terceira geração.
A gestão passou às suas filhas, Marina, Vera Lúcia e Solange, enquanto Orlando Martini permaneceu à frente da direção operacional.





Uma década depois, em 2014, teve início uma nova fase.
A companhia passou a integrar o Grupo Guanabara, controlado pelo empresário Jacob Barata, ampliando significativamente sua capacidade operacional.












A integração fortaleceu a presença da marca e expandiu suas possibilidades de conexão em todo o território nacional.
Uma história que acompanha a evolução do transporte brasileiro
Hoje, a Viação Sampaio atua nos segmentos de transporte rodoviário interestadual, fretamento e transporte de encomendas.

Sua garagem principal no Rio de Janeiro está localizada na Rua Ceará, na Praça da Bandeira.
A frota moderna reúne veículos Double Decker, equipados com chassis Mercedes-Benz e carrocerias Marcopolo, Busscar e Comil, oferecendo elevados padrões de conforto e segurança aos passageiros.

Mas, por trás dos ônibus sofisticados e da estrutura consolidada, permanece viva a essência construída por dois empreendedores do interior fluminense que enfrentaram lama, chuvas, estradas precárias e noites de incerteza para manter seus passageiros em movimento.

A história da Viação Sampaio é, acima de tudo, a história de um Brasil que cresceu sobre rodas.
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