Prometidos para junho de 2025, 60 ônibus elétricos ainda não chegaram a João Pessoa

Mais de um ano após o prazo anunciado, capital paraibana segue sem frota elétrica regular; único veículo apresentado circulou por apenas 15 dias em caráter experimental
João Pessoa

Em novembro de 2024, a Prefeitura de João Pessoa anunciou que a capital paraibana receberia 60 ônibus elétricos até junho de 2025. Os veículos seriam adquiridos com R$ 180 milhões vinculados ao Novo PAC e representariam uma das maiores renovações já realizadas no transporte coletivo municipal.

O prazo terminou há mais de um ano, mas, até este mês de julho de 2026, os 60 coletivos não foram entregues e nenhum ônibus elétrico permanece em operação regular no sistema da cidade.

Na prática, a única experiência de João Pessoa com a tecnologia ocorreu entre fevereiro e março de 2025. Um veículo demonstrativo circulou durante 14 dias com passageiros na linha E155, em uma operação temporária destinada a avaliar seu desempenho. Concluído o período experimental, o ônibus deixou o sistema e não foi substituído por unidades definitivas.

João Pessoa

Também não foi apresentado publicamente um novo prazo para a chegada da frota anunciada, nem um cronograma detalhado das etapas necessárias à aquisição, como contratação, fabricação, implantação dos carregadores e preparação das garagens.

Anúncio prometia frota elétrica até junho de 2025

A chegada dos veículos foi anunciada em 29 de novembro de 2024 pelo então prefeito Cícero Lucena, durante uma visita à Tevx Motors Group, em São Paulo.

Na ocasião, o gestor afirmou que os procedimentos burocráticos permitiriam adquirir os 60 ônibus previstos para João Pessoa. A expectativa divulgada era que todos começassem a integrar a frota municipal até junho de 2025.

A promessa ganhou destaque nos principais veículos de comunicação da Paraíba e apresentou a capital como uma das próximas cidades brasileiras a avançar na eletrificação em grande escala.

Segundo as informações divulgadas naquele momento, o projeto teria R$ 180 milhões em recursos do Novo PAC para financiar a aquisição dos veículos. O anúncio apontava para uma renovação estrutural, e não apenas para a realização de testes com protótipos, conforme noticiou o Portal Correio, á época.

Novo PAC selecionou projeto para renovação da frota

A origem da promessa remonta a maio de 2024, quando o Governo Federal apresentou os resultados de cinco modalidades do Novo PAC Seleções nos eixos Água para Todos e Cidades Sustentáveis e Resilientes.

Na Paraíba, foram contemplados projetos para João Pessoa, Campina Grande e Santa Rita. As modalidades incluíam ações de urbanização de favelas, regularização fundiária e renovação de frota.

João Pessoa

Para João Pessoa, os anúncios feitos na época somavam aproximadamente R$ 300 milhões. Desse total, R$ 180 milhões estariam associados à compra dos 60 ônibus elétricos, enquanto outros recursos seriam destinados à urbanização do Porto do Capim.

A seleção de uma proposta pelo Novo PAC, entretanto, não representa necessariamente a entrega imediata dos recursos ou dos veículos. A modalidade de renovação de frota envolve etapas de contratação, análise financeira, apresentação de documentos e formalização da operação pelos proponentes.

O Ministério das Cidades informa que o programa utiliza fontes como o FGTS, o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima e linhas geridas pelo BNDES. Estados, municípios, consórcios e operadores privados podem apresentar as propostas, mas precisam cumprir as condições estabelecidas para a contratação.

João Pessoa recebeu apenas um ônibus para testes

Enquanto aguardava a prometida frota, João Pessoa conheceu seu primeiro ônibus 100% elétrico em fevereiro de 2025.

O veículo foi apresentado no Terminal de Integração do Valentina e começou a circular em 27 de fevereiro na linha E551 – Circular. A operação estava programada para durar somente 15 dias.

Tratava-se de um modelo demonstrativo do sistema BRS, sigla em inglês para Serviço Rápido por Ônibus. Durante o teste, os passageiros pagaram o mesmo valor cobrado nos veículos do serviço Geladinho.

O ônibus oferecia ar-condicionado, Wi-Fi, pontos para carregamento de celulares e recursos de acessibilidade. Por utilizar propulsão elétrica, não emitia gases poluentes pelo escapamento durante a circulação e produzia menos ruído em comparação com os veículos a diesel.

A passagem do modelo pela cidade, contudo, não representou sua incorporação definitiva. Finalizado o período de avaliação, o veículo deixou de circular e João Pessoa voltou a ficar sem ônibus elétricos em operação comercial regular.

Teste com passageiros na linha E551 durou somente 14 dias

A circulação experimental deveria permitir a avaliação da autonomia, do consumo de energia, do desempenho do sistema de climatização e da adaptação do veículo às condições de trânsito e temperatura de João Pessoa.

Também seria possível analisar aspectos como acessibilidade, tempo de viagem, capacidade de transporte e aceitação dos passageiros.

João Pessoa

Apesar disso, não foram divulgados de forma ampla os resultados técnicos obtidos durante os 14 dias de operação com passageiros. Também não houve apresentação pública de um relatório detalhando autonomia registrada, consumo, disponibilidade, custo operacional ou desempenho do ônibus na linha E551.

Sem a publicação dessas informações, a população não teve acesso às conclusões da avaliação nem aos critérios que seriam utilizados para definir o modelo mais adequado à cidade.

Prefeitura relacionou ônibus a corredores e terminais

Durante a apresentação do veículo, Cícero Lucena afirmou que o teste fazia parte de um projeto mais amplo de mobilidade urbana, desenvolvido com a participação dos governos estadual e federal.

O planejamento divulgado naquele momento previa quatro corredores de transporte:

  • Cruz das Armas;
  • Pedro II;
  • 2 de Fevereiro;
  • Bessa.

A proposta também mencionava a construção de cinco terminais de integração. Essas estruturas teriam estacionamentos, bicicletários, serviços públicos, áreas comerciais, garagens e oficinas.

Os corredores exclusivos deveriam reduzir as interferências do trânsito sobre os ônibus. O projeto também previa prioridade semafórica, permitindo que os sinais reconhecessem a aproximação dos veículos e favorecessem sua passagem.

Nos terminais e estações, o embarque em nível reduziria a necessidade de utilização dos elevadores e facilitaria o acesso de pessoas em cadeira de rodas, idosos e passageiros com mobilidade reduzida.

Projeto estadual avançou com configuração diferente

Em fevereiro de 2026, o Governo da Paraíba apresentou uma etapa do projeto de mobilidade com uma configuração menor do que a estrutura inicialmente mencionada no anúncio municipal.

O projeto estadual passou a contemplar dois corredores de ônibus, nos eixos Cruz das Armas e Dom Pedro II, além de três terminais de integração:

  • Terminal do Varadouro;
  • Terminal de Cruz das Armas;
  • Terminal Dom Pedro II, em Mangabeira.

O investimento anunciado é de aproximadamente R$ 220 milhões, sendo R$ 175 milhões financiados pela Agência Francesa de Desenvolvimento e R$ 44 milhões oferecidos como contrapartida estadual.

Esse projeto de corredores e terminais possui estrutura financeira e cronograma próprios. Portanto, seu avanço não significa, por si só, que a aquisição dos 60 ônibus elétricos tenha sido contratada ou esteja próxima de ocorrer. Governo da Paraíba

Prazo terminou sem a entrega dos veículos

O compromisso original apontava junho de 2025 como prazo para a entrada dos ônibus elétricos na frota municipal.

Até 19 de julho de 2026, passaram-se mais de 13 meses desde a data prevista para a entrega. Em relação ao teste iniciado em fevereiro de 2025, já se passaram aproximadamente um ano e cinco meses.

Apesar desse intervalo, João Pessoa não recebeu a frota anunciada. A experiência com a tecnologia continua limitada ao veículo que circulou temporariamente na linha 1500.

Eletrificação exige mais do que a compra dos ônibus

A implantação de uma frota elétrica envolve etapas que vão além da aquisição dos veículos.

É necessário contratar carregadores, adaptar as garagens, avaliar a capacidade da rede elétrica e definir uma estratégia para recarga. O planejamento também deve considerar autonomia, quilometragem diária, escalas, tempo disponível entre viagens e possibilidade de substituição de veículos em caso de falhas.

Motoristas e profissionais de manutenção precisam ser capacitados para trabalhar com sistemas de alta tensão. Também devem ser definidos contratos de garantia, fornecimento de peças, assistência técnica e destinação das baterias ao final de sua vida útil.

Essas medidas demandam planejamento antecipado, especialmente em um projeto de 60 unidades. Até o momento, não foram divulgados detalhes suficientes sobre a implantação dessa infraestrutura em João Pessoa.

Mercado brasileiro avança enquanto João Pessoa espera

A demora ocorre justamente em um período de forte expansão da eletromobilidade no transporte coletivo brasileiro.

No primeiro semestre de 2026, o país registrou 589 ônibus elétricos emplacados, crescimento de 92,5% em comparação com as 306 unidades do mesmo período de 2025.

O volume também representa uma alta de 363,8% sobre o primeiro semestre de 2024, quando foram licenciados 127 veículos elétricos.

Do total registrado entre janeiro e junho de 2026, 476 ônibus foram produzidos no Brasil, correspondendo a aproximadamente 80% do mercado. Outros 113 veículos eram importados.

João Pessoa

São Paulo concentrou a maior parte das entregas, evidenciando que o crescimento nacional ainda ocorre de forma desigual. Mesmo assim, os números demonstram que a tecnologia deixou de ficar restrita a protótipos e já integra programas de renovação de frota em diferentes cidades. CNN Brasil

Capital ainda tenta ampliar frota climatizada

Enquanto os 60 elétricos não chegam, João Pessoa ainda trabalha para aumentar a quantidade de ônibus convencionais com ar-condicionado.

A climatização permanece restrita a parte da frota, apesar das temperaturas elevadas registradas durante boa parte do ano. Os passageiros que utilizam os veículos do serviço Geladinho ainda pagam uma tarifa superior à do serviço convencional.

A distância entre o anúncio da eletrificação e a realidade atual evidencia que os desafios mais básicos do sistema continuam presentes.

Entre as principais reclamações dos usuários estão atrasos, intervalos elevados, superlotação, ônibus com problemas de conservação, quebras durante a operação, falhas no aplicativo de acompanhamento dos horários e insuficiência de abrigos adequados nos pontos.

Tarifa convencional chegou a R$ 5,45 em 2026

Desde 25 de janeiro de 2026, a tarifa convencional do transporte coletivo de João Pessoa custa R$ 5,45.

O reajuste foi de 4,81% sobre o valor anterior de R$ 5,20. Já a passagem dos ônibus climatizados subiu de R$ 5,80 para R$ 6,05.

O valor convencional coloca João Pessoa entre as capitais com tarifas de ônibus mais elevadas do país e mantém a cidade com a segunda passagem mais cara do Nordeste.

Dados apresentados durante a discussão tarifária também mostraram que o sistema transportou, em 2025, uma quantidade de passageiros 17,3% inferior à registrada em 2019, antes da pandemia. CBN Paraíba

Diante dos reajustes, passageiros voltam a questionar se a qualidade oferecida acompanha o preço cobrado, especialmente em relação à regularidade das linhas, conservação dos ônibus, cobertura da rede e conforto nos deslocamentos.

Promessa permanece sem novo cronograma

A seleção do projeto pelo Novo PAC representou uma oportunidade concreta para iniciar a eletrificação do transporte coletivo de João Pessoa. O teste realizado na linha 1500 também permitiu que os passageiros tivessem um primeiro contato com a tecnologia.

No entanto, nenhuma dessas etapas resultou, até agora, na chegada da frota prometida.

Mais de um ano após o prazo anunciado, a cidade continua sem ônibus elétricos regulares, sem cronograma atualizado e sem esclarecimentos públicos suficientes sobre o andamento da aquisição.

Para que o projeto avance, será necessário transformar o anúncio em contratos, infraestrutura de recarga, veículos fabricados e um plano operacional verificável. Até que isso ocorra, os 60 ônibus elétricos de João Pessoa permanecem como uma promessa não concretizada.

Linha do tempo dos ônibus elétricos de João Pessoa

DataAcontecimento
Maio de 2024Projeto para aquisição de 60 ônibus elétricos é selecionado no Novo PAC, com valor anunciado de R$ 180 milhões
Novembro de 2024Prefeitura anuncia que os veículos chegariam até junho de 2025
Fevereiro de 2025Um ônibus elétrico demonstrativo é apresentado no Terminal do Valentina
27 de fevereiro de 2025Veículo começa a circular em caráter experimental na linha 1500
Março de 2025Teste é encerrado após 15 dias e ônibus deixa a operação
Junho de 2025Termina o prazo anunciado para a chegada das 60 unidades
Fevereiro de 2026Governo do Estado apresenta projeto de dois corredores e três terminais
Julho de 2026João Pessoa permanece sem ônibus elétricos em operação regular e sem novo prazo público para a frota anunciada

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