Transporte clandestino dispara nas rodovias e autuações chegam a 3,5 mil em apenas sete meses de 2026

Levantamento da Abrati com dados da ANTT mostra que número de veículos autuados entre janeiro e julho já está próximo de todo o resultado de 2025; associação alerta para venda de viagens irregulares ...
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O avanço do transporte clandestino de passageiros acende um alerta no setor interestadual brasileiro. Entre janeiro e julho de 2026, foram registradas 3.525 autuações de veículos operando irregularmente, quantidade que já se aproxima das 3.767 ocorrências contabilizadas durante todo o ano de 2025.

Os números fazem parte de um levantamento realizado pela Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati) a partir de dados obtidos junto à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e mostram uma aceleração significativa das ocorrências neste ano.

A dimensão do crescimento fica ainda mais evidente quando são comparados períodos equivalentes. Nos primeiros sete meses de 2025 haviam sido contabilizadas 1.891 autuações. No mesmo intervalo de 2026, o total saltou para 3.525, uma diferença de 1.634 registros, equivalente a um crescimento de aproximadamente 86,4% em apenas um ano.

Mantido o ritmo observado até julho, 2026 poderá ultrapassar com folga os resultados dos últimos anos. Até mesmo o total de 4.174 autuações registrado em todo o ano de 2023, o maior resultado anual entre os números apresentados pela Abrati, está apenas 649 ocorrências acima do acumulado nos primeiros sete meses deste ano.

Autuações até julho já equivalem a 93,6% de todo o resultado de 2025

Os dados mostram como 2026 se diferencia dos anos anteriores.

As 3.525 autuações por transporte clandestino registradas entre janeiro e julho já correspondem a aproximadamente 93,6% das 3.767 ocorrências contabilizadas durante os 12 meses de 2025.

A comparação com 2023 também chama atenção. Naquele ano, foram registradas 4.174 autuações, maior volume anual entre 2022 e 2025. Em apenas sete meses, 2026 já alcançou cerca de 84,5% daquele recorde.

Os números indicam que o atual ritmo de ocorrências é significativamente superior ao observado nos períodos anteriores e reforçam a preocupação das empresas que atuam regularmente no transporte interestadual de passageiros.

Comparação dos primeiros sete meses mostra forte avanço em 2026

Quando a análise considera exclusivamente o período entre janeiro e julho de cada ano, a diferença se torna ainda mais expressiva.

Em 2022, foram registradas 1.216 autuações nos primeiros sete meses. Em 2023, o número chegou a 2.494. No ano seguinte, 2024, foram 890 ocorrências, enquanto 2025 contabilizou 1.891.

transporte clandestino

Agora, em 2026, o total alcançou 3.525 autuações.

Na comparação com o mesmo período de 2025, o crescimento é de aproximadamente 86,4%. Em relação aos 2.494 registros dos primeiros sete meses de 2023, até então o maior volume para o período entre os dados apresentados, o avanço é de aproximadamente 41,3%.

O resultado de 2026 também é quase quatro vezes superior às 890 autuações contabilizadas de janeiro a julho de 2024.

Transporte irregular representa 42,1% dos autos de infração em 2026

Não é apenas o crescimento em números absolutos que preocupa a Abrati.

Segundo Letícia Pineschi, diretora-geral da Abrati, as autuações relacionadas especificamente ao transporte irregular ganharam participação significativa dentro do conjunto das infrações registradas nas fiscalizações.

“Autuações de veículos são bastante comuns nas estradas federais. O que chama a atenção é o aumento exponencial das autuações por transporte irregular. Em sete meses elas representaram 42,1% do total dos autos de infração. Ao longo de todo o ano passado esse percentual foi de 25,8%”, afirma.

A diferença é de 16,3 pontos percentuais entre a participação observada em 2026 e a registrada ao longo de 2025.

O indicador reforça a avaliação da associação de que o problema não deve ser analisado apenas como consequência de uma eventual intensificação das ações de fiscalização.

Distrito Federal lidera em número de autuações acumuladas

A distribuição geográfica das ocorrências também apresenta concentrações importantes.

Apesar de possuir uma malha viária menor quando comparada à de grandes estados brasileiros, o Distrito Federal lidera o número acumulado de autuações no período de 2022 a 2026, com 3.425 registros.

Na segunda posição aparece Goiás, com 2.917 autuações.

São Paulo vem em seguida, acumulando 2.341 registros, enquanto Minas Gerais contabiliza 2.076.

Os dados mostram uma concentração relevante de ocorrências justamente em áreas que funcionam como importantes corredores de deslocamento rodoviário entre diferentes regiões do país.

Goiás lidera quando transporte clandestino é comparado ao total de autuações

A classificação muda quando o critério utilizado deixa de ser o número absoluto e passa a considerar a participação das ocorrências relacionadas ao transporte clandestino sobre o total de autuações.

Nesse recorte, Goiás ocupa a primeira posição nacional, com 45,2%.

O Mato Grosso do Sul aparece na sequência, com 39,5%, enquanto Minas Gerais registra 27,7%.

A diferença entre os dois indicadores é importante para compreender a dimensão do problema. Um estado pode concentrar grande quantidade absoluta de fiscalizações e autuações, enquanto outro pode apresentar participação proporcionalmente maior do transporte irregular de passageiros entre as infrações identificadas.

Venda de passagens pela internet preocupa setor

Para a Abrati, um dos elementos que podem estar contribuindo para o crescimento do transporte clandestino está na facilidade de comercialização de viagens pela internet.

Plataformas digitais e redes sociais permitem que ofertas cheguem rapidamente ao consumidor, que nem sempre possui informações suficientes para distinguir um serviço regular de uma operação irregular.

Segundo Letícia Pineschi, a facilidade de oferta dessas passagens pode dificultar a identificação do serviço pelo passageiro antes da compra.

O problema ganha uma dimensão adicional porque a experiência de comercialização pode assumir aparência semelhante àquela encontrada em operações regulares, mesmo quando o transporte oferecido não possui as autorizações necessárias.

Mais autuações não significam necessariamente redução da clandestinidade

O aumento da quantidade de autuações poderia, isoladamente, ser interpretado como resultado positivo de uma fiscalização mais intensa.

A avaliação da Abrati, entretanto, é diferente.

“Aumento das autuações pode parecer um bom sinal, mas ele vem acompanhado do aumento do transporte clandestino. E a ANTT não tem recursos nem pessoal suficiente para fazer a fiscalização adequada”, afirma a diretora-geral da entidade.

A associação considera, portanto, que o crescimento dos registros precisa ser observado juntamente com a dimensão que as operações irregulares estariam alcançando nas rodovias.

O desafio é particularmente complexo diante da extensão da malha rodoviária brasileira e da quantidade de veículos circulando diariamente entre diferentes estados.

Abrati defende tecnologia para combater transporte clandestino

Diante desse cenário, a entidade defende ampliar o uso de tecnologia na fiscalização do transporte rodoviário interestadual.

Uma das propostas é intensificar o acompanhamento das plataformas digitais e redes sociais utilizadas para oferecer viagens que possam estar sendo realizadas de maneira irregular.

Para a diretora-geral da Abrati, monitorar esses canais deveria ser uma das primeiras etapas da estratégia.

A associação também defende o aproveitamento da infraestrutura tecnológica já existente nas próprias rodovias.

Câmeras das rodovias poderiam ajudar a identificar ônibus irregulares

Entre as possibilidades levantadas pela Abrati está o uso da rede de câmeras instalada nas rodovias para auxiliar na identificação de veículos que possam estar realizando transporte irregular.

Letícia Pineschi questiona por que sistemas capazes de identificar placas e apoiar outras formas de fiscalização não poderiam ser utilizados para comparar os veículos em circulação com informações existentes nos registros da ANTT.

“Qual dificuldade de ela comparar a placa do ônibus com a lista das empresas regulares da ANTT? Ou descobrir se aquele veículo passa por aquele trecho todo dia no mesmo horário, indicando ser uma linha regular?”, questiona.

A proposta apresentada pela entidade aponta para uma fiscalização baseada no cruzamento automatizado de informações.

A repetição sistemática da passagem de determinado veículo pelo mesmo trecho, nos mesmos horários, por exemplo, poderia funcionar como um indício para direcionar uma fiscalização presencial.

Cruzamento de dados poderia direcionar equipes de fiscalização

A utilização de sistemas de leitura de placas e bancos de dados permitiria, na avaliação apresentada pela Abrati, criar filtros para identificar operações que mereçam uma verificação mais aprofundada.

Isso não significaria que uma câmera, isoladamente, determinaria a existência de transporte clandestino.

O recurso poderia servir para identificar padrões de circulação e direcionar as equipes de fiscalização, que posteriormente verificariam a regularidade da operação.

Em um cenário no qual a própria entidade aponta limitações de pessoal e recursos para fiscalização, a tecnologia poderia funcionar como instrumento de apoio para definir onde e quando realizar abordagens.

Consumidor também precisa observar sinais antes de comprar passagem

Além das medidas de fiscalização, a Abrati destaca a importância da participação do próprio passageiro na prevenção ao transporte clandestino.

A entidade recomenda observar as características da passagem e as informações fornecidas no momento da compra antes de realizar o embarque.

Em uma operação regular, a emissão da passagem deve gerar um comprovante de compra com informações sobre preço, impostos, taxas, QR Code e local de embarque.

A ausência de informações normalmente associadas à comercialização regular deve levar o consumidor a buscar mais detalhes sobre o serviço oferecido antes de concluir a compra.

Local de embarque merece atenção do passageiro

Outro aspecto destacado pela associação é o ponto indicado para o início e o término da viagem.

A Abrati orienta o consumidor a desconfiar quando uma oferta de viagem indicar locais de embarque ou desembarque diferentes dos terminais rodoviários, recomendando atenção especial a esse tipo de situação.

A escolha de pontos alternativos pode ser um sinal que merece verificação antes da aquisição da passagem.

O passageiro também pode solicitar informações sobre o registro da empresa responsável pelo transporte e consultar os dados oficiais disponíveis junto à ANTT.

Embora essa conferência possa exigir um pouco mais de atenção do consumidor, ela ajuda a verificar se a empresa está cadastrada no órgão regulador.

Diferença entre serviço regular e clandestino precisa ficar clara para o passageiro

O avanço das vendas digitais cria um desafio adicional para o setor: fazer com que o consumidor consiga identificar claramente quem está efetivamente realizando o transporte e em quais condições regulatórias.

Uma oferta visualmente bem apresentada em uma rede social ou plataforma digital não representa, por si só, comprovação de que aquele serviço possui autorização para operar.

Por isso, informações sobre empresa transportadora, emissão da passagem, origem, destino e condições do embarque ganham importância na decisão.

A preocupação se torna ainda maior diante da velocidade com que ofertas podem ser divulgadas e compartilhadas pela internet.

Números de 2026 colocam setor em alerta

As 3.525 autuações registradas somente entre janeiro e julho colocam 2026 em uma trajetória muito diferente da observada nos últimos anos.

O número está apenas 242 ocorrências abaixo de todo o resultado de 2025 e a 649 registros do total contabilizado em 2023, maior resultado anual entre os dados apresentados no levantamento.

Mais significativo ainda é o avanço na comparação entre períodos equivalentes: de 1.891 ocorrências nos primeiros sete meses de 2025 para 3.525 em 2026.

Para a Abrati, os números reforçam a necessidade de combinar fiscalização nas rodovias, monitoramento da comercialização digital, tecnologia e informação ao passageiro.

O desafio passa não apenas por identificar os veículos durante as viagens, mas também por atuar na origem da comercialização dos serviços e facilitar para o consumidor a diferenciação entre uma operação autorizada e uma oferta irregular.

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