Por Giovani Ravagnani, diretor jurídico da Buser
Guimarães Rosa escreveu em Grande Sertão: Veredas que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Para milhões de brasileiros que viajam de ônibus, essa travessia começa antes mesmo do embarque. Chegar à rodoviária pode significar atravessar uma região metropolitana, pegar mais de uma condução e acrescentar tempo e custo consideráveis antes mesmo de o passageiro entrar no ônibus.
A jornada do passageiro começa muito antes do embarque
Pense no morador de Guarulhos que precisa cruzar a Grande São Paulo para embarcar no Tietê com destino a Belo Horizonte. Ou na trabalhadora de Contagem que atravessa parte da região metropolitana para chegar ao centro da capital mineira. No Rio, um estudante da zona sul pode precisar combinar diferentes meios de transporte antes de chegar até à Rodoviária do Rio. Situações como essas mostram que, ao avaliar a conveniência do transporte rodoviário, não basta calcular o tempo entre a origem e o destino do ônibus. É preciso considerar toda a jornada do passageiro.
A concentração dos embarques em grandes terminais respondeu às necessidades de outra época. Os grandes terminais rodoviários, erguidos principalmente entre as décadas de 1960 e 1980, permitiram reunir bilheterias, fiscalização e operação em um mesmo espaço, organizando o transporte de passageiros em grandes centros urbanos. Essa infraestrutura continua tendo uma função importante. O que mudou foi a tecnologia disponível e, com ela, a possibilidade de pensar outras formas de organizar os embarques e o acesso ao transporte rodoviário.
Tecnologia permite descentralizar embarques e reduzir deslocamentos
Com tecnologia de geolocalização, pagamento digital e ferramentas de análise de demanda, tornou-se viável distribuir os embarques por diferentes pontos da cidade, aproximando-os das regiões onde as pessoas moram, trabalham ou circulam. No fretamento colaborativo, esse modelo permite oferecer pontos de encontro mais convenientes para os passageiros, seja em um bolsão de estacionamento, um ponto de apoio na saída da cidade ou uma parada mais próxima de casa. Com isso, é possível reduzir uma parcela da viagem que raramente entra na conta: o deslocamento até o ônibus. Menos tempo nesse trajeto também pode significar menos gastos com transporte urbano e uma jornada porta a porta mais eficiente.
Buser combina fretamento colaborativo e linhas regulares para ampliar opções de embarque
As rodoviárias continuam tendo papel central nesse sistema e também fazem parte da operação da Buser nas linhas regulares. Mas elas não precisam ser a única resposta para todos os tipos de viagem. A descentralização acrescenta uma nova camada de conveniência à experiência do passageiro. No transporte, esse ganho pode ser medido em algo muito concreto: tempo. Uma hora economizada no deslocamento até o embarque pode significar mais descanso antes de uma viagem de trabalho ou mais tempo com a família na volta de um feriado.
Embarques descentralizados trazem novos desafios para o setor rodoviário
Embarques descentralizados naturalmente trazem novas questões para o setor e também alguma desconfiança. Faz parte de qualquer mudança relevante. O mesmo ocorreu com o e-commerce, os bancos digitais, os aplicativos de delivery e as plataformas de mobilidade urbana. Em todos esses casos, a tecnologia mudou hábitos ao aproximar os serviços da rotina das pessoas. Depois que o consumidor experimenta mais conveniência, dificilmente aceita abrir mão dela.
Conveniência e economia de tempo ganham importância na experiência do passageiro
Outra pergunta, portanto, merece espaço nesse debate: quanto tempo o passageiro gasta para chegar até o transporte que escolheu? Outros setores já descobriram que reduzir atritos pode ser tão importante quanto aprimorar o serviço principal. No transporte rodoviário, olhar para a jornada completa do passageiro pode produzir o mesmo efeito. Servir melhor também é uma decisão de negócio. Afinal, uma viagem melhor não depende apenas do que acontece dentro do ônibus, mas também de quão fácil foi chegar até ele.
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