Sistema de transporte perdeu dois milhões de passageiros em Campina Grande

Fonte: PB Agora
Matéria/Texto: Severino Lopes
Fotos: Lucas Lima / Valério Junior

Quem chega no terminal de integração de passageiros em Campina Grande se depara com uma multidão. O Terminal está sempre cheio, e os ônibus chegam e parte sempre lotados. Em algumas rotas, os usuários reclamam da qualidade do serviço. A sensação que se tem é que os ônibus são insuficientes para atender a demanda. Nas paradas de ônibus, pessoas também esperam pacientemente pelo ônibus e reclamam da demora. Em alguns casos, os passageiros chegam a esperar até 40 minutos.

“Pegar o 333 ou 303 para a UEPB é uma agonia. Agente se espreme dentro dos ônibus” lamentou a estudante de Pedagogia Maria de Fátima, moradora de Vila Cabral de Santa Terezinha.
O ônibus é o principal meio de transporte público usado pelo brasileiro, conforme aponta pesquisa divulgada recentemente pela CNI (Confederação Nacional da Indústria). O estudo mostra ainda que 24% da população gasta mais de uma hora para se locomover de sua residência ao trabalho ou escola. Nas cidades com mais de 100 mil habitantes como é o caso de Campina Grande, esse percentual sobe para 32%.
Em Campina Grande, mais de 3 milhões de passageiros dependem do transporte de coletivo para se locomover seja com destino ao trabalho, escola, ou para resolver problemas particulares, segundo dados da Superintendência de Trânsito e Transportes Públicos (STTP).

Os dados revelam que 18% da população campinense superior a 400 mil habitantes, são usuários do sistema. Só que nos últimos anos, as 7 empresas que têm a permissão para explorar o sistema, passaram a conviver com a perda de passageiros. Alguns problemas sistemáticos afastaram os usuários e obrigaram as empresas a operacionalizar meios para manter o sistema funcionando.
Dados da STTP revelam que em 5 anos, o sistema perdeu quase dois milhões de passageiros em Campina Grande. A preço de hoje, considerando que a tarifa custa R$ 2,10, as empresas perdem por mês cerca de R$ 4,5 milhões. E os prejuízos podem subir ainda mais e atingir patamares insuportáveis, caso não sejam adotadas medidas para combater o avanço do transporte clandestino na cidade.
Em 2006 por exemplo, as empresas chegaram a transportar mais de cinco milhões passageiros por mês e hoje, pouco apenas 3 milhões e 100 pessoas dependem do transporte coletivo para se locomover.
A frota composta por 220 ônibus, começou a perder passageiros com o advento do sistema de mototáxis, e, principalmente com o crescimento descontrolado do transporte alternativo. O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Campina Grande (Sitrans), mostra números mais preocupantes. A entidade estima que a perda de usuários nos últimos anos, ultrapassou os 2,5 milhões. Para o Sitrans, hoje pouco mais de dois milhões e meio de usuários permaneceram utilizando o transporte coletivo por mês em Campina Grande. Ou seja, são cumputadas 2,5 milhões viagens.
O ideal para manter o sistema funcionando sem grandes problemas seria realizar no mínimo seis milhões de viagens por mês.
Em João Pessoa, conforme enfatizou o superintendente do Sitrans Anchieta Bernardino, são 480 ônibus transportando 10 milhões de usuários, enquanto que em Campina Grande são 220 veículos que realizam pouco mais de 2,5 milhões de viagens mês. Bernardino ressaltou que a frota da capital é a mais nova do Nordeste, enquanto que os ônibus utilizados em Campina Grande estão aos poucos sendo renovados. Somente em 2012, 100 veículos foram adquiridos pelas empresas permissionárias do Sistema na Rainha da Borborema.
Anchieta Bernardino aponta alguns dos aspectos que tem provocado perda de passageiros e prejuízos incalculáveis no sistema na segunda maior cidade do Estado paraibano. A concorrência desleal com os carros que fazem o transporte alternativo; o avanço dos mototaxistas clandestinos, e as facilidades para se comprar uma moto, contribuem para que o sistema perca de passageiros.
O resgate do sistema em 2007

O ex-superintendente da STTP Salomão Augusto enfatizou que o sistema de transportes públicos começou a recuperar passageiros em Campina Grande a partir de 2007 com o advento do Terminal de Integração de Passageiros, que permitiu ao usuário, utilizar dois coletivos pagando apenas o valor de uma passagem. O resgate no entanto, ainda é tímido, se comparado com a quantidade de veículos alternativos que todos os dias surgem na cidade. De acordo com os dados dos Sitrans, são mais de 600 transportes alternativos rodando no perímetro urbano da Rainha da Borborema, sem contar os mais de 2 mil e 500 mototáxi que operam de forma clandestina, transportando passageiros que antes, utilizavam o sistema coletivo.
Os motoristas alternativos surgem a toda hora nas paradas de ônibus, geralmente transportando passageiros do Centro para bairros como Malvinas, Bodocongó, Ramadinha e Cruzeiro.

A STTP aponta os desafios do sistema para os próximos anos, visto que em 2016 o Brasil será sede da Copa do Mundo, e espera-se que muitos turistas se desloquem para Campina Grande, no período do Maior São João do Mundo, que coincidirá com o período do Mundial. Melhorar ainda mais a malha viária da cidade; aperfeiçoar os mecanismos de fiscalização nas empresas de ônibus, enxugar as rotas com o desmembramento de algumas linhas para dá rapidez ao transporte; são desafios para ser vencidos no futuro.
Para recuperar os passageiros, os especialistas defendem o fim dos clandestinos; melhorias as vias e os corredores e acesso dos transportes coletivos como forma de evitar espera e lentidão no sistema e o incremento na fiscalizar ônibus fazendo-os cumprir todo o percurso sem atraso.
Os investimentos na frota e os gargalos do sistema
Mesmo estando longe de se assemelhar a Curitiba (PR) que se tornou modelo na operacionalização do sistema de coletivo, inegavelmente os transportes coletivos de Campina Grande se modernizaram nos últimos anos. As empresas detentoras da concessão para explorar o sistema, fizeram investimentos e renovaram parte da frota.
De acordo com o superintendente do Sitrans Anchieta Bernardino, somente para garantir a implantação da bilhetagem eletrônica foram investidos cerca de R$ 7 milhões. Além do mais as empresas equiparam todos os 220 veículos da frota com circuito interno de TV que reduziu os assaltos praticados no interior dos carros; passou a capacitar os profissionais; e investiu na compra de equipamentos para facilitar a vida dos portadores de deficiência física.
Só que a apesar dos investimentos, e do discurso de melhoria do transporte público, como forma de atrair novos usuários, o sistema ainda se esbarra em alguns entraves que impedem a cidade de ter um transporte de melhor qualidade.
Os passageiros reclamam da demora dos ônibus, de falta de limpeza nos veículos e acessibilidade plena. A dona de casa Alcineide Alves Oliveira, 32 anos, moradora do bairro da Catingueira, e usuária do sistema é enfática: Para ela é fundamental ter hora certa para sair e chegar no destino. “Eu chego a passar até 20 minutos esperando o ônibus”, diz.
Para piorar a onda de assaltos praticados dentro dos ônibus tem crescido deixando os usuários com medo.
O presidente do Sitrans garante que as empresas têm feito investimentos para garantir um transporte seguro e de qualidade. Anualmente, segundo ele a frota tem sido renovada. Aliás, ele ressalta que quanto mais nova for a frota maior o valor da passagem. De acordo com Anchieta Bernardino, a renovação da frota é uma exigência do órgão gestor do trânsito, e pode ter uma vida útil de até 8 anos. Depois disso, é considerada envelhecida.
Bernandino lembra ainda que hoje as empresas fazem malabarismo para sobreviver. O sistema emprega 3 mil pessoas diretas e mais de 9 mil indireta, além de ter que arcar todo mês com um custo de mais de R$100 mil para manter o sistema de bilhetagem eletrônica funcionando. Isso porque todos os equipamentos usados nos veículos são alugados por uma empresa de Belo Horizonte que hoje tem 106 clientes em todo o Brasil.
Alguns aspectos no entanto, não dependem do sistema. É o caso das sujeiras no interior dos veículos. A falta de educação da população que suja os carros é visível. Além do mais, muitas empresas segundo o chefe do Sitrans, ainda trafegam por lugares onde não a poeira é grande. “Os ônibus mal saem das garagens e ficam coberto de poeira”, observa.
Os efeitos das gratuidades e da meia passagem

Como se não bastasse a perda de passageiro para os veículos clandestinos, as empresas permissionárias do sistema de transporte coletivo na Paraíba enfrentam um outro problema: são as gratuidades. São mais de 900 mil passageiros/mês andando de graça em Campina Grande.
O que teoricamente poderia ser um privilégio para poucos, tornou-se um problema para muitos, principalmente para a classe menos favorecida da sociedade, que utiliza o transporte urbano de passageiros para se deslocar de casa para o trabalho ou vice versa, pagando uma tarifa de R$ 2,10.
O superintendente do Sitrans Anchieta Bernardino relata que o setor de transporte urbano de passageiros tem sofrido com o excesso de gratuidades. Estima-se que 38% das pessoas que andam de ônibus em Campina Grande têm algum tipo de gratuidade e não paga a tarifa. Entre os usuários, boa parte são estudantes, que gozam de 50% desconto o valor da tarifa. De acordo com o Sitrans, hoje cerca de 30 mil pessoas tem a carteira de estudante e pagam apenas a meia passagem na cidade. Esse número já chegou a 80 mil.
Anchieta ressaltou que empresas não são contra a concessão de benefícios tarifários para determinadas classes sociais mas defendem que o Estado, a União ou os Municípios criem mecanismos para subsidiar as gratuidades.
Tarifa é reduzida em 10 centavos
Recentemente o prefeito Romero Rodrigues determinou a redução das tarifas de ônibus em 10 centavos. O valor passou de R$ 2,20 para R$ 2,10. Alguns usuários no entanto, querem a gratuidade e reclamam que o valor ainda está alto.
O superintendente de Trânsito e Transportes Públicos de Campina Grande STTP, Vicente de Paula Rocha, discorda e explicou os motivos do reajustes na passagem de ônibus na cidade. Segundo ele, os reajustes são motivados por uma série de fator.

O superintendente ressaltou que é necessário considerar outros insumos que fazem parte do cálculo final da tarifa do transporte público, a exemplo de salários e demais encargos dos motoristas, tributos municipais e estaduais, valor do combustível e manutenção da frota (parte mecânica e aquisição de peças e pneus, entre outros). “Os insumos que compõem o cálculo da tarifa dos coletivos vão além das alíquotas cujos percentuais foram reduzidos pelo Governo Federal”, declarou Vicente de Paula.

A implantação do Cartão Temporal

Depois da implantação Terminal de Integração que permite ao usuário pagar utilizar dois ônibus, pagando apenas uma passagem, foi a vez do Cartão Temporal surgir como novidade que alcançou os usuários do sistema em CG.
Implantado em março o Cartão vem sendo utilizado de forma gradativa. A iniciativa tem permitido ao usuário de transporte coletivo trocar de ônibus em qualquer parte da cidade, com o pagamento de uma única passagem.
Vicente de Paula esclareceu, contudo, que o benefício está sendo implantado em etapas. Nesta primeira fase, o usuário do transporte coletivo vai poder, durante o período de até uma hora, fazer dois deslocamentos pagando apenas uma passagem.
Ou seja, após desembarcar do ônibus, o passageiro terá, pelo menos, uma hora para trocar de linha sem pagar outra passagem. “É importante destacar, contudo, que neste primeiro momento o usuário pega inicialmente qualquer ônibus, mas só poderá usufruir do benefício do cartão temporal caso se utilize da linha integrada inicial, que será a 245. Aos poucos, este sistema será ampliado em termos de linhas integradas, mesmo porque há necessidade de se fazer uma pesquisa domiciliar ampla visando-se saber as reais necessidades da coletividade”, afirmou.
Segundo ele, o cartão temporal já existe em muitos municípios. Esse moderno sistema que envolve ônibus urbanos, gera economia aos usuários, maior mobilidade e reduz o tempo de deslocamento, além de contribuir com a melhoria da qualidade de vida da população.

“A diferença do cartão temporal é que ao adquiri-lo, o usuário tem um tempo (daí a expressão temporal), no qual pode pegar outro ônibus, sem necessariamente precisar ir para o terminal de integração de passageiros. Será possível a diminuição do fluxo de transportes coletivos no centro porque hoje, inevitavelmente, quem quiser fazer integração tem que ir para a Avenida Floriano Peixoto, onde funciona o sistema de integração. Com o cartão temporal poderá haver integração em qualquer bairro do município”, garantiu.

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