Fetiche coletivo: 30 anos da saga a bordo do Volvo Padron

Fonte:
Motor Dream
Matéria / Texto: Luiz Humberto Monteiro Pereira
Fotos:
Divulgação
Campus da UFRJ, bairro da Praia Vermelha, na Zona
Sul carioca, idos de maio de 1984. Um belo dia, apareceu num dos corredores da
Escola de Comunicação – carinhosamente conhecida como Eco – um cartaz
convidando para o Enecom. A oitava edição do Encontro Nacional de Estudantes de
Comunicação se realizaria em julho, na cidade de Fortaleza. Quem colou aquele
inocente pedaço de papel na parede certamente não tinha ideia do efeito que
aquilo iria provocar. O convite levaria um grupo de universitários a encarar quase
seis mil quilômetros de estradas, numa atribulada viagem de ida e volta entre o
Rio de Janeiro e a capital cearense. O mais inusitado é que a longa travessia
rodoviária foi feita a bordo de dois ônibus urbanos Volvo B58, com carroceria
Ciferal modelo Padron Briza – na época, esses modelos ficaram conhecidos como
Volvo Padron e tornaram-se uma referência no transporte público carioca.

Aquele 1984 havia começado bem diferente do
imaginado por George Orwell. O Brasil vivia os estertores da ditadura militar,
com o ranzinza general Figueiredo na presidência. Pelo menos a anistia de 1979
havia permitido a volta dos exilados políticos. No começo daquele ano, tudo
indicava que era a hora de votar para Presidente, depois de 20 anos de generais
se alternando no poder. E o povo foi em massa às ruas para apoiar as
“Diretas Já”, em comícios que agitaram as grandes cidades
brasileiras. Mas a famosa emenda Dante de Oliveira, que reestabelecia as
eleições presidenciais diretas, foi rejeitada na Câmara dos Deputados num frustrante
25 de abril de 1984.
No mês seguinte, em maio, a “ressaca” das
“Diretas Já” ainda dava um ar meio modorrento à normalmente agitada
Escola de Comunicação da UFRJ. A Eco sempre reuniu uma “fauna”
bastante exótica e heterogênea, que juntava riquinhos da Zona Sul a favelados
da Zona Oeste, misturados com gente vinda das diversas classes sociais e de
todos os cantos da cidade. E ainda incluía muitos estudantes de outros estados
– sem falar nos diversos bolsistas latino-americanos, que davam um toque
cosmopolita ao ambiente. Tal diversidade estimulava as trocas de experiências,
que geravam uma criatividade muitas vezes frenética e desenfreada. Cenas
bizarras ou surreais normalmente eram encaradas com certa naturalidade. Afinal,
o belo local onde até hoje funciona a Eco tem história. No Século XIX, o
imponente prédio centenário foi sede do Hospício Pedro II, depois batizado de
Hospício Nacional de Alienados. Mantendo o “clima”, lá ainda estão,
como vizinhos ao campus da Praia Vermelha, o Instituto de Psiquiatria da UFRJ e
o Instituto Philippe Pinel. Ou seja, loucuras fazem parte daquele ambiente.
Portanto, maluco era coisa fácil de encontrar na Eco em 1984.
Em termos de política estudantil, a maioria dos
alunos – se não era maioria, pelo menos era a parte mais barulhenta – rejeitava
a ideia de organizar um centro acadêmico convencional. Esse grupo mais unido e
agitado, conhecido na Eco como “A Panelinha”, defendia a autogestão
como forma de se fazer representar. Em meio à anarquia local cotidiana, a
notícia do Enecom de Fortaleza se alastrou rápido. Logo alguém mais pragmático
sugeriu que um grupo de estudantes procurasse o governo estadual – desde 1983,
o governador do Rio de Janeiro era Leonel Brizola, um dos anistiados de 1979,
líder de uma corrente política que ele mesmo chamava de “socialismo
moreno”. Seu vice era outro ex-exilado, Darcy Ribeiro, antropólogo e
escritor bastante ligado à Educação e às causas estudantis. A proposta era
fazer um requerimento ao Governo do Rio de Janeiro para que cedesse um ônibus
para levar um seleto grupo de alunos da Eco – “A Panelinha”, é claro
– até o Enecom de Fortaleza. No ano anterior, havia sido feita solicitação
semelhante para um encontro latino-americano de estudantes de Comunicação em
Florianópolis – e um confortável ônibus rodoviário foi cedido pelo Governo
Brizola. Com tal retrospecto, conseguir um novo ônibus para ir a Fortaleza
parecia uma barbada.
Os alunos da Eco que foram até o Palácio Guanabara,
a sede do governo estadual, voltaram de lá com a grande notícia: o ônibus para
o Enecom cearense estava garantido. A novidade causou uma euforia coletiva. Não
que alguém por ali estivesse interessado em participar dos debates e palestras
que discutiriam os rumos da Comunicação e da política brasileira no evento
estudantil cearense. Na Eco, o Enecom – que recebeu o sugestivo apelido de
“Eneconha” – era apenas um “álibi” para passar uns dias
passeando em Fortaleza, acampar com os amigos e fazer turismo gastando pouco.
Embora isso não passasse pela cabeça de ninguém, era um caso flagrante de
viagem de lazer com subsídio público – sorte que, 30 anos depois, qualquer
crime cometido na época já deve ter prescrito.
 
Listas começaram a ser feitas com os candidatos à
viagem. Depois, alunos da UERJ, UFF e PUC souberam da história e fizeram a
mesma solicitação de transporte. Por isso, dessa vez seriam liberados dois
ônibus – um para a Eco, outro para as demais faculdades. Até que chegou
finalmente o dia marcado para pegar a estrada. Era uma ensolarada sexta-feira
no inverno carioca e a área em frente à Eco estava lotada de mochileiros –
muitos com barracas de camping, já que o Enecom não previa alojamentos. Em meio
àquela balbúrdia, o primeiro Volvo Padron cruzou o portão do campus, seguido de
um segundo, absolutamente idêntico. Ambos pintados de branco com faixas
horizontais vermelhas e azuis e as logomarcas da CTC-RJ, a estatal fluminense
de transportes coletivos. Aquele modelo urbano era conhecido pelos cariocas
como “Quase Mil”, pois foi adotado inicialmente na linha 999 – que
ligava o bairro de Charitas, em Niterói, ao Castelo, na região central carioca.
Quando os dois ônibus pararam em frente à faculdade, houve um instante de
silêncio, seguido de gritos, risadas e exclamações de incredulidade. Teria
mesmo o Governo do estado enviado dois ônibus urbanos para levar e trazer cerca
de 90 estudantes em uma viagem rodoviária de quase 6 mil quilômetros?
Apesar do inusitado da situação, era a realidade.
Pelo menos os vistosos coletivos eram novinhos em folha. Os bancos azuis, sem
cintos de segurança, eram revestidos por uma fina camada de espuma. As janelas
eram bem amplas, mas sem cortinas. E, se ainda restasse alguma dúvida, lá
estavam as indefectíveis barras metálicas no alto do corredor, onde os passageiros
dos ônibus urbanos que viajam em pé se seguram. Não havia roleta, mas o assento
do trocador virado para o corredor indicava onde ela seria futuramente
instalada. Cada coletivo vinha com dois motoristas e um estepe dentro, ocupando
boa parte do piso da parte traseira. Prudentemente, os motoristas portavam uma
pomposa carta com vários brasões do Governo do Rio de Janeiro, muitos carimbos
e assinaturas. Era uma espécie de “salvo conduto”, explicando que
aqueles alunos iriam representar o povo fluminense em um importante congresso
estudantil no Ceará e solicitando que as autoridades rodoviárias facilitassem a
excursão do grupo.
Nenhum daqueles universitários tinha ideia que três
meses depois, em outubro, os Volvo Padron marcariam época no Rio de Janeiro ao
inaugurarem as novas linhas expressas urbanas, que saíam de São Cristóvão e
chegavam à Zona Sul carioca através do Túnel Rebouças. Encurtavam tanto o tempo
da viagem que estimularam os moradores dos subúrbios a frequentarem a praia de
Ipanema. Algo que causou certo estranhamento a alguns ipanemenses – mas isso já
é outra história. Chegou a circular na época a informação que a “versão
carioca” do projeto Padron, criado em 1979, foi batizada de Padron Briza
como homenagem ao governador Leonel Brizola, que estatizou a Ciferal para
tentar solucionar a crise da encarroçadora – posteriormente incorporada à
gaúcha Marcopolo e rebatizada em 2013 de Marcopolo Rio. E algumas pessoas juram
até hoje que aquela viagem ao Ceará foi uma espécie de “prova de fogo”
do governo fluminense para os novos ônibus da Volvo, antes da criação das
linhas expressas via Rebouças. Se foi, parece que foram aprovados, pois logo
acabaram virando “figurinhas fáceis” na cidade. Mas certamente
ninguém da marca sueca – pelo menos até agora – ficou sabendo dessa
inverossímil “viagem teste”.
Passado o susto inicial com o fato de ter de
encarar em ônibus urbanos um trajeto tão longo – a previsão inicial era de 45
horas de ida e outras 45 de volta –, o jeito era embarcar. E a viagem aconteceu
– dá para adiantar que, felizmente, não ocorreram “baixas” e
sobreviveram todos. O certo é que, pela quantidade de histórias inacreditáveis
que se conta sobre o assunto até hoje, essa “bus trip”
Rio/Fortaleza/Rio ganhou ares de “delírio coletivo” – com todos os
duplos sentidos possíveis. Por isso, não seria coerente tentar contar como foi
aquilo sozinho. Era fundamental convidar quem estava a bordo para puxar pelas
reminiscências e lembrar alguns episódios daquela saga ocorrida há três
décadas.
Nesse verdadeiro mosaico de memórias, uma das
poucas que permanece indelével para todos é a do Volvo Padron, sempre no embalo
da hipnótica “música tema” da viagem. Era uma espécie de
“mantra”, que se repetia de forma contínua e interminável. Consistia
em um longo “ó, ó, ó”, cantado em um coral quase gospel, seguido do
refrão, que era também a única letra da canção, gritado em uníssono: “A
bordo do Volvo Padrão!” – assim mesmo, com o Padron devidamente
aportuguesado.
Depois dessa nem tão breve introdução, um pouco do
que foi essa verdadeira odisseia será relatado através de depoimentos de quem
embarcou nela. Na época universitários, hoje estão todos na faixa dos 50 anos.
Muitos agora têm filhos da mesma idade daqueles jovens destemidos que, em julho
de 1984, subiram euforicamente os degraus do Volvo Padron no Rio de Janeiro,
rumo a Fortaleza.
Uma aventura “on the road” em múltiplas visões
Minha mãe estava griladíssima com essa viagem da
filhinha de 18 anos com os colegas de faculdade, de ônibus, para as longínquas terras
cearenses. Depois de muito choro e ranger de dentes, ela acabou cedendo. Quando
chegamos à Eco, já tinha uma muvucada de gente tentando entrar nos ônibus,
aquela zona toda. Entre vários tipos exóticos, se destacava na multidão o nosso
querido e saudoso Bussunda, sempre naquele ’modelito’ básico dele – bermuda
abaixo da barriga saliente, sem camisa, cabelos compridos ao vento. Minha mãe
me segurou pelo braço e vaticinou: ’com essa gente você não vai!’. ’Como assim,
são meus amigos’, argumentei, fazendo cara de choro. Aí um monte de gente
começou a gritar que eu tinha que entrar logo, senão iria perder o ônibus.
Naquela confusão, aproveitei uma distração da mamãe e pulei pra dentro, pela
janela mesmo. Ela, que quase teve uma síncope, tentou me agarrar pelas pernas e
pensou que era a ultima vez que me via. Lembro bem da cara de desespero dela
quando o ônibus partiu…
” – Ana Lúcia Leitão, consultora
na área de marketing.
No dia do embarque, meu pai me deu carona para o
campus. Qual não foi nossa surpresa quando adentram os dois ônibus urbanos da
Volvo. Primeiro comecei a rir. Imaginei então umas 72 horas naquele ônibus ’de
rua’. Imediatamente voltei com minha mochila para o carro, mas alguns meninos
desceram do ônibus para pegar a mim e minha mochila. Meu pai observava e ria.
Como fui uma das últimas a embarcar, me sobrou a ’cadeira do trocador’.

” – Marcia Kaplun, jornalista da empresa Via-Art Produções.
Logo que entrou no Espírito Santo, já de
madrugada, o motorista resolveu perguntar a um bêbado na beira da estrada como
fazia para ir para Fortaleza… Acabamos indo para dentro de Vitória e perdemos
mais de três horas para conseguir achar a saída da cidade. Alguns dormiam em
redes, dependuradas nas barras metálicas do ônibus, mas eu lembro de conseguir
dormir em um colchonete, no assoalho. Pelo visto, havia uma suspensão decente.
Aliás, aqueles Volvo andavam muito bem. Tinham avisos de 60 km colados no vidro
de trás, mas certamente tiveram seus limitadores desligados para a viagem e
mantinham velocidades médias bem mais altas.
” – Henrique
Koifman, jornalista e apresentador do programa “Oficina
Motor
“, do canal +Globosat.
Cada Volvo Padron tinha dois motoristas, que se
revezavam na direção. Para evitar que dormissem no volante, conversar com o
motorista era obrigatório. E as pessoas a bordo também se revezavam na função.
Lembro de que, numa dessas conversas, um motorista disse que o mais longe do
Rio que ele já tinha foi para São Paulo, mesmo assim uma única vez. E me
perguntou se Salvador era depois da Bahia. Respondi que sim, Salvador era bem
depois da Bahia.
” – Angélica Nascimento, jornalista.
Em algum ponto da Bahia, fomos parados num posto da
Polícia Federal. Descemos eu, Bussunda e Henrique para negociar com o policial,
que avisou logo que a viagem estava toda irregular. Os ônibus eram urbanos e
não deveriam ser usados para viagens interestaduais – o que era mesmo verdade.
De fora, o policial já vislumbrava a bagunça interna. Além do que, uma ‘blitz’
policial no veículo àquela altura do campeonato não parecia uma boa ideia.
Argumentamos que éramos estudantes a caminho do Enecom, etc. Mas o cara fazia o
maior jogo duro. Até que mostramos a preciosa carta do Governo do Rio de
Janeiro – não lembro se era assinada pelo deputado Danilo Groff, pelo Darcy
Ribeiro ou pelo Leonel Brizola –, que pedia a colaboração das autoridades
públicas para nos permitir chegar ao destino. Com essa carta e com o argumento
que já estávamos no meio do caminho – ou seja, teríamos que circular por toda a
estrada de volta por dentro da Bahia –, o policial nos liberou. E ainda disse
que iria ligar para os postos à frente para nos liberar a passagem.

” – Ivan Accioly, jornalista, assessor de imprensa e diretor da IAA
Comunicação e Eventos.
Não tínhamos paradas certas pelo caminho, mesmo
porque os motoristas evitavam as rotas mais óbvias, para escapar dos postos da
Polícia Rodoviária. Os ônibus paravam sempre que alguém precisava ir ao
banheiro, algo inexistente nos coletivos urbanos. As biroscas do caminho, que
deviam atender uma dúzia de fregueses por dia, de repente tinham que servir 90
vândalos famintos de uma vez. O calote era geral, coitados… Numa delas,
chegamos num boteco de beira de estrada e, depois de usar o banheiro,
resolvemos ver o que tinha pra comer. A única coisa que parecia comível era um
bolo de passas. Quando o atendente pegou o bolo para cortar um pedaço, as
’passas’ voaram todas… A fome passou na hora, o pudim de leite voltou intacto
para a vitrine e as moscas puderam repousar nele novamente. Em outra dessas
paradas, o Zé Emílio resolveu tomar um banho e por pouco não foi esquecido,
apenas com um short e uma toalha, em algum lugar do sertão baiano.

” – Marcello Monteiro de Carvalho Filho, designer gráfico.
A travessia de Juazeiro a Petrolina, na ponte sobre
o São Francisco, foi uma cena épica, inesquecível. Lembro que depois dançamos
forró durante horas num bar na periferia de Fortaleza. Os pacatos
frequentadores habituais do forró certamente estranharam bastante aquela
cambada de malucos cariocas cabeludos. Mas estava tão bom que ninguém queria
sair mais de lá. Os motoristas quase tiveram de arrastar as pessoas para dentro
dos ônibus.
” – Tesla Coutinho, jornalista.
Foi a viagem mais inusitada de minha vida e,
provavelmente, de todos que foram comigo. Eu era presidente do Centro Acadêmico
da Faculdade de Comunicação da UERJ. Descobrimos que o pessoal da UFRJ tinha
conseguido um ônibus para viajar ao Ceará, onde aconteceria o Enecom. Fiz
contato com outras universidades e fomos até o Palácio Guanabara, aonde nos
prometeram o segundo ônibus. Foi uma viagem insana, mas de grandes recordações.
Em Petrolina, rolou uma partida de futebol ’histórica’ em um campo de areia às
margens do rio São Francisco, com um ônibus de cada lado delimitando o ’campo’.
Devia ter uns 30 jogadores de cada lado. Não faria hoje uma viagem assim, mas
tenho certeza de que nenhum de nós jamais se arrependeu de ter embarcado
naqueles ônibus.
” – Rafael Casé, jornalista.
Na ida, era domingo e muitos não tinham tomado
banho no sábado… Resolvemos parar para uma chuveirada num motel bem chinfrim
de beira de estrada, em pleno sertão cearense. Era muita gente pra tomar banho
e almoçar e ficamos lá mais de quatro horas. Negociamos quartos do motel para
as mulheres tomarem banho e outros quartos para os homens, com as pessoas
formando filas dentro para se revezar nos chuveiros. Foi uma zorra completa.
Depois, limpinhos e cheirosos, almoçamos num posto de gasolina ao lado e
voltamos aos ônibus.
” – Carla Paes Leme, jornalista do
Instituto Moreira Salles.
Lembro que, no caminho, me deram uma pinga com mel.
Eu bebi, bebi, bebi e… vomitei. ‘Mas eu tentei vomitar baixinho pra ninguém
ver’, justifiquei, muito sem graça pela lambança que fiz a bordo. Muitos amigos
gozam a minha cara por essa frase até hoje… Lembro das pessoas jogando sueca
e pôquer em rodas intermináveis de carteado, para passar o tempo. E todos
cantando sem parar!
” – Maurício Lima, jornalista e
produtor.
Esse evento se tornou mitológico, ao ponto de
ninguém saber diferenciar a realidade da fantasia com 100% de certeza. Pelo que
me lembro, foram quase três dias de viagem na ida e outro tanto na volta. A
cada parada, fazíamos a felicidade dos botequins, pois só saíamos quando
zerávamos os estoques de álcool no estabelecimento. Dentro do ônibus da Eco,
havia claramente uma separação geográfico-social: ’Alto Padron’, ’Médio Padron’
e ’Baixo Padron’. Neste último, o clima era de uma enfumaçada boate, aberta 24
horas por dia, com muita bebida e música ao vivo – havia vários violeiros a
bordo. Na frente, no ’Alto Padron’, as pessoas – inclusive o motorista que
estava ’de folga’ – tentavam dormir. Já no ’Médio Padron’ ficava quem preferia
conversar, contar piadas ou jogar cartas. Eu ia de vez em quando ao ’Baixo
Padron’ me divertir um pouco. Quando cansava daquela ’festa’, voltava para a
frente para pegar um fôlego e dar um cochilo.
” – Lealdo
Lima dos Santos, advogado e publicitário.
Partimos a bordo de nossa espaçonave sobre rodas
rumo ao desconhecido. Desconhecido mesmo, porque os motoristas nunca tinham
saído do estado do Rio e não faziam a menor ideia de onde ficava o Ceará.
Acordávamos com os primeiros sinais da aurora – o Volvo Padron era
particularmente envidraçado e não tinha cortinas. Logo descobrimos que o sertão
do Nordeste, em julho, é de um frio enregelante de manhãzinha. Depois da longa
viagem de ida e de vários dias de farras e turismo em Fortaleza, chegou a hora
de voltar. Chegamos em pleno dia de aula ao campus da Praia Vermelha. Descemos
dos ônibus um tanto incrédulos, aqueles que podiam andar ajudando aos outros,
alguns beijando o solo, não acreditando que viveram para reencontrar o lar…
Não trocaria aquela viagem por nada. Foi uma aventura do começo ao fim – e uma
aventura totalmente coerente, inclusive com sua época. Eram tempos em que
estávamos começando a descobrir a liberdade, não apenas nós como o próprio
país. Inclusive a liberdade de ir e vir. E, para desfrutar da liberdade de ir e
vir, em nossa cabeça de garotada que só anda em bando, nada melhor do que ir de
ônibus.
” – Luiz Henriques Neto, jornalista e autor
teatral.
Tenho poucas lembranças daquela viagem –
provavelmente por causa da cachaça Chave de Ouro, que bebíamos como se fosse
água. Do longo trajeto, dá pra lembrar das redes de dormir penduradas, do
esforço para manter o bom humor, das cantorias sem fim… A música ’A Bordo do
Volvo Padrão’ – puxada pelo finado Marconi e provavelmente composta em parceria
com o falecido Bussunda – era gritada repetidas vezes por toda a galera. De
fato, aquele ônibus foi um personagem marcante da viagem.

” – Renata Moraes, jornalista da ANP.
Na verdade, a música ’A Bordo do Volvo Padrão’ foi
criação do colega capixaba João Moraes, que depois voltou a morar em Cachoeiro
do Itapemirim. Embora aqueles ônibus não tivessem sido feitos para viagens
interestaduais, as pessoas se viravam para conseguir dormir. Me lembro de ter
viajado do lado da Renata. A gente revezava para dormir, deitando a cabeça um
no colo do outro. Os felizardos e mais malandros jogaram seus sacos de dormir
no chão e arrumavam lugares privilegiados para cochilar. E outros, como o
Torreão e a Renatinha, amarraram uma rede nos ferros do ônibus, para dormir
como se estivessem em um autêntico ’pau de arara’. Todo mundo que passava pela
rede dava uma cotovelada no Torreão, só por ele ser tão ’espaçoso’…

” – Heitor Pitombo, jornalista e músico.
A epopeia do Enecom no Volvo Padron foi algo que
marcou minha vida como o que houve de mais próximo de viver um sonho imprevisto
na vida real. Os três dias no ônibus até Fortaleza foram uma maneira de
conhecer o Brasil dentro de uma espécie de nave. Aquele ônibus voou pelo sertão
numa marcha incerta, entre noites estreladas na imensidão do universo profundo.
Lá dentro, bebia-se, fumava-se, amava-se, fazia-se música (até uma em homenagem
ao tal do Volvo, divorciado da marca, tornado humano). Poderia falar do que se
seguiria à jornada que nos levou ao Ceará, do amigo virgem que perdeu a pureza
com a grande musa da galera, da minha primeira experiência em dormir numa
barraca ao relento num dos pátios da faculdade cearense, ou da nossa
indolência, nossa atitude militante de não assistir a uma só palestra do grande
simpósio e de conhecer só a vida dali, da gente, dos bandejões, dos baiões de
dois e de tudo o mais. Do retorno, mais três dias no Volvo Padron, nada sei,
pois estava já coroado do sentimento do mundo. E acho que voltei numa nuvem,
inebriado pela vida.
” – Arnaldo Bloch, jornalista, editor
e colunista do jornal carioca “O Globo
Eram tempos bem duros. Lembro que voltei tão sem
grana que dividi uma coxinha de galinha com alguém… Na volta, descobrimos que
um dos motoristas estava com a carteira irregular, mas parece que a tal ’carta
do Brizola’ resolveu mais uma vez o problema. Lembro bastante da gozação dos
motoristas dos ônibus interestaduais nas paradas da estrada, quando viam o
letreiro “Fortaleza” improvisado naqueles ônibus urbanos, repletos de
redes penduradas. E lembro de um monte de gente feliz, cantando e dançando o
tempo todo, como se fosse uma interminável festa sobre rodas… Será que foi
mesmo assim? Ou, passados 30 anos, é como eu desejo que tenha sido?

” – Elisa Barcellos, jornalista.
Na volta, lembro que as barras de apoio para as
mãos dos passageiros do Volvo Padron serviram para estender as pontas das redes
e como varal de roupas, inclusive calcinhas e cuecas. Quando embarcamos para
voltar, um do motoristas encheu a traseira do ônibus com uma quantidade de
caixas de cachaça que só deve ter acabado agora. Um deles trouxe até um
passarinho cearense pra casa.
” – Mauro Trindade,
jornalista e professor.

Tive uma gastrite uns dias antes e acabei não
pegando aquele ônibus. Jamais me perdoei por isso.
” –
Affonso Romero, analista de comunicação da Companhia Paulista de Trens
Metropolitanos.

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