Em Natal, integração esbarra na tarifa única

Fonte:  Tribuna do Norte
Matéria
/ Texto: Nadjara Martins
Fotos: Divulgação


São 9h30 da manhã da última segunda-feira (19), em
uma parada de ônibus da avenida Bernardo Vieira. A doméstica Francisca Erinete
de Souza, 27 anos, aguarda há 20 minutos, sob o sol forte do verão, um ônibus
da empresa Barros que a leve para Pirangi, no litoral sul potiguar (os patrões
estão veraneando). Pelo trajeto de 25km, pagará R$ 3,10. A rotina de Francisca,
porém, tem hora marcada. Em dias comuns, sai de Nossa Senhora da Apresentação,
na Zona Norte de Natal, às 4h30. O custo diário do trajeto casa-trabalho é de
R$10,55. E sempre foi assim: com dinheiro para passagem e sem integração.

“De Natal eu tinha o cartão, mas prefiro andar com o dinheiro. Não adianta
carregar o cartão se não há integração”, comenta Francisca. “Não posso perder
esse (ônibus) de 6h, senão só de 7h. E olha que já vem lotado.”

Diferentemente de outras regiões metropolitanas do
nordeste, como a de Recife, Natal sequer iniciou o processo de integração do
transporte na RMN. Das dez cidades que compõem a metrópole, quatro (Natal,
Macaíba, Parnamirim e São Gonçalo do Amarante) já possuem sistemas tecnológicos
de bilhetagem nos coletivos que permitem a unificação. O que falta para que o
bilhete único seja, enfim, uma realidade para os dez municípios que integram a
Grande Natal?

Para empresários, falta gestão e subsídio dos entes públicos que garantam a
unificação da tarifa sem prejuízo econômico. Já os municípios acusam o Estado
de se ausentar o debate. Segundo a Constituição Federal de 1988, o
gerenciamento das regiões metropolitanas é de responsabilidade dos estados. No
RN, o transporte intermunicipal fica a cargo do Departamento de Estradas de
Rodagens (DER). A tarifação é dividida em anéis, de acordo com a distância
entre Natal e o município de destino. O custo varia de R$ 2,35 para linhas
urbanizadas até R$ 5 para as regiões mais distantes (veja infográfico). Um
reajuste de 9% foi concedido em julho de 2014.
De acordo com a Federação das Empresas de
Transporte do Nordeste, sete empresas operam na RMN. No total, são 25 linhas
ligando Natal aos municípios. Quatro deles já utilizam um sistema de leitura de
cartões que permitiriam a unificação, de acordo com Eudo Laranjeiras,
presidente da Fetronor.

“Empresas que possuem o mesmo sistema de bilhetagem (RMCard) já fazem
integração. Hoje, a Campos, Trampolim,  assim como alternativos de Macaíba
e Panamirim já podem fazer a conexão. Isso é uma conseqüência natural”, afirma.
“O problema da integração é que o desejo do pessoal dessas cidades é que a
passagem seja igual a de Natal. Acho justo. Mas como eu vou baixar essa
tarifa?  Em Natal, aqueles que andam menos subsidiam aqueles que andam
mais”, acrescenta. A Fetronor defende que a integração seja subsidiada pelos
entes públicos – caso contrário, o custo seria repassado para a tarifa.

Entretanto, os municípios afirmam que não têm condição de arcar com o subsídio.
“É uma questão financeira. Não adianta só a prefeitura tentar e os outros
(entes) não terem interesse. Dou exemplo do Governo do Estado: tentamos por
várias vezes traçar uma política de transportes, mas não fomos respondidos”,
afirmou Clodoaldo Cabral, adjunto de transportes da Secretaria Municipal de
Mobilidade Urbana (STTU). Um conselho metropolitano chegou a ser criado pelas
secretarias de transporte de Macaíba, SGA, Extremoz, Natal e Parnamirim, mas
sem a integração com o DER as atividades foram suspensas.

Paulo de Castro, titular do Departamento de Transportes de SGA, afirma que a
falta de gestão do Estado gera concorrência no sistema de transporte público.

“Hoje o intermunicipal entra praticamente em todos os bairros do município, o
que afeta o sistema interno. Isso faz com que a gente tenha um serviço de
péssima qualidade”, pondera.

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