Um sistema que não acompanha o crescimento de uma cidade é um sistema ruim

Uma demonstração básica de como um sistema da década de 1970 como o que existe em João Pessoa não se aplica mais ao crescimento da cidade.

Na minha coluna da semana passada, falei sobre como o sistema de linhas de João Pessoa se ampara em um modelo radiocêntrico, que faz as linhas saírem das pontas da cidade para o Centro, ignorando o meio do caminho. Mas que muitas pessoas não reclamam pelo apego que tem com os números de linha e acham que só comprar ônibus vai resolver os problemas. Não vai. E aqui vai mais uma demonstração de como esse modelo é ruim.

O Bairro das Indústrias é dependente de três linhas: 104, 115 e 1001. Em todas elas o morador do bairro tem que passar pelo Centro se quiser ir a algum outro ponto de interesse, como shopping, universidade, enfim. O estudante universitário antes da pandemia passava quase meia hora dentro de um ônibus para poder chegar ao destino. A demora para esperar um ônibus conta, mas estar dentro dele também conta, porque as linhas têm poucas faixas exclusivas e na maioria de seus itinerários, pega congestionamento. Isso irrita tanto quanto esperar. Estar dentro de um ônibus não é bem a garantia de segurança de que você chega na hora, ainda mais quando você compartilha o trânsito com outros veículos.

E leve-se em conta que o Bairro das Indústrias está em acelerado crescimento. O ponto final já não atende mais as necessidades do bairro. Quando ele foi transferido para o Cidade Verde, ali era o último limite do bairro. Mas ele cresceu e ganhou mais duas etapas. E os ônibus não atendem com eficiência elas. Uma hora vai acontecer do terminal ser transferido de novo para o limite do Cidade Verde. Mas vai um spoiler: as reclamações vão continuar.

O planejamento básico para uma situação como essas é esticar as linhas que já existem, e aí é que reside o problema. O ônibus sairia cheio, não consegue mais atender com eficiência quem mora no meio (e onde até então já fora ponto final), e por fim chega cheio no corredor. Não consegue mais atender ninguém. Nem colocar mais ônibus resolve, porque o problema está no modelo da linha, e não nos ônibus. Você pode esticar e aumentar, mas os problemas vão continuar. E maiores do que já estão. As soluções para o crescimento da cidade sempre são feitas assim: de forma paliativa, remendando ainda mais uma estrutura ultrapassada.

Isso mostra o quanto o sistema da década de 1970 não conseguiu prever o crescimento acelerado da cidade nem muito menos a dinâmica de trabalho das pessoas. Ainda é necessário passar pelo Centro para ir a lugares próximos de onde você mora, estando longe do próprio Centro? É exatamente onde a cidade cresce que é necessário se pensar fora da caixa. E se continuar assim, não é com mais ônibus que se vai resolver. São mais veículos presos no trânsito, e passageiro dentro de um ônibus lotado preso no engarrafamento se irrita na mesma proporção quanto aquele que ainda está esperando.

Bônus

Eu tenho um podcast chamado Luneta Sonora, onde você pode ouvir de tudo sobre qualquer assunto que eu domine. E é claro que esta coluna mereceu um episódio especial por lá, o de número 016, que já está no ar. Você pode escutar o podcast na sua plataforma de áudio preferida – os links estão neste site especial.

Esta foi mais uma coluna do Josivandro Avelar. E aí, vamos conversar mais sobre como os problemas do nosso transporte vão além do veículo ônibus e o que isso tem a ver com a dinâmica da cidade onde você mora? Tô aqui no Ônibus & Transporte falando sobre isso, mas falo sobre outros assuntos no Blog Josivandro Avelar e no podcast Luneta Sonora. Você também pode me seguir no Instagram.

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