Emplacamentos de ônibus caem mais de 23% em janeiro e acendem alerta no setor, segundo Fenabrave

Dados da Fenabrave revelam retração mais intensa nos ônibus do que nos caminhões; mercado de elétricos sofre queda superior a 90%
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O mercado brasileiro de ônibus iniciou 2026 sob forte retração. De acordo com os dados de emplacamentos divulgados pela Fenabrave, o segmento registrou 1.675 ônibus licenciados em janeiro, número que representa uma queda de 34,29% em relação ao mesmo mês de 2025, quando foram emplacadas 2.191 unidades. O resultado interrompe a expectativa de recuperação mais consistente do setor e reforça um cenário de cautela por parte das operadoras de transporte.

A retração não se limitou aos ônibus. O segmento de caminhões também apresentou desempenho negativo no mês, com 6.379 unidades emplacadas, contra 9.131 veículos em janeiro do ano passado, o que corresponde a uma queda de 30,14%. Ainda assim, proporcionalmente, o impacto foi mais severo no mercado de ônibus, evidenciando maior sensibilidade do segmento às condições econômicas e operacionais atuais.

Somados, caminhões e ônibus totalizaram 8.054 emplacamentos em janeiro de 2026, frente a 11.322 unidades no mesmo período de 2025, resultando em uma retração global de 34,59%. No recorte de participação, os ônibus responderam por apenas 0,46% do total, abaixo dos 0,64% registrados um ano antes.

Mercado de ônibus mantém alta concentração entre fabricantes

Mesmo com a queda no volume total, a estrutura de participação por fabricante permaneceu concentrada. A Mercedes-Benz manteve a liderança isolada do mercado de ônibus no mês, com 52,66% de participação, reforçando sua posição dominante no fornecimento de chassis para os segmentos urbano e rodoviário.

Viação Riodoce

Na sequência, a Volkswagen Caminhões e Ônibus respondeu por 20,24% dos emplacamentos, enquanto a Marcopolo ficou com 13,31%, refletindo sua forte atuação no fornecimento de carrocerias integradas a diferentes plataformas. A Iveco apareceu com 10,09%, seguida por Volvo (1,85%), Scania (0,90%) e Agrale (0,72%). A categoria “outros fabricantes” teve participação residual.

O cenário indica que, mesmo em momentos de retração, os grandes players seguem concentrando as vendas, enquanto fabricantes de menor volume enfrentam ainda mais dificuldades para manter participação.

Sudeste concentra mais da metade dos emplacamentos de ônibus

A análise regional dos emplacamentos de ônibus em janeiro de 2026 reforça a forte concentração do mercado no Sudeste do país. A região respondeu por 50,99% de todas as unidades licenciadas no mês, mantendo-se como principal polo de renovação e expansão de frota, mesmo em um cenário de retração nacional.

O Nordeste aparece na segunda posição, com 16,72% dos emplacamentos, impulsionado por operações urbanas e intermunicipais em capitais e regiões metropolitanas. Na sequência, o Sul concentrou 13,13%, refletindo a presença de operadores tradicionais e investimentos pontuais em renovação de frota.

Já o Centro-Oeste, com 9,85%, e o Norte, com 9,31%, apresentaram participações semelhantes, indicando um mercado mais dependente de ciclos específicos de compras públicas e contratos regionais.

Segundo analistas do setor, essa distribuição evidencia que, em períodos de desaceleração, os investimentos tendem a se concentrar em regiões com maior densidade populacional, redes urbanas consolidadas e maior capacidade de financiamento, ampliando a desigualdade regional na modernização do transporte coletivo.

Ônibus elétricos registram forte desaceleração

Um dos dados que mais chama atenção no levantamento da Fenabrave é o desempenho do mercado de ônibus eletrificados. Em janeiro de 2026, foram emplacadas apenas 8 unidades elétricas, contra 117 veículos no mesmo mês de 2025, o que representa uma queda superior a 93%.

Fenabrave

No recorte por fabricante, a Volvo liderou o segmento no mês, com 3 unidades e 37,5% de participação. Induscar/Caio e Marcopolo emplacaram 2 veículos cada, ambas com 25%, enquanto a CRRC registrou 1 unidade, equivalente a 12,5%.

A ausência de emplacamentos de ônibus híbridos no período também reforça a desaceleração dos projetos de transição energética no início do ano. Especialistas avaliam que o desempenho reflete o adiamento de licitações públicas, a reavaliação de programas de subsídio e as restrições orçamentárias enfrentadas por estados e municípios.

Fatores que explicam a retração

O desempenho negativo de janeiro é atribuído a uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. Entre eles estão:

  • Postergação de compras por operadoras urbanas e rodoviárias
  • Redução temporária de investimentos públicos
  • Ajustes fiscais em prefeituras e governos estaduais
  • Elevação dos custos de aquisição e operação
  • Incertezas regulatórias e prazos de financiamento

Além disso, janeiro historicamente já apresenta volumes mais baixos, em função do fechamento de balanços, reprogramação de contratos e reorganização operacional das empresas para o novo exercício.

Perspectivas para os próximos meses

Apesar do início de ano fraco, o setor ainda aposta em uma retomada gradual ao longo de 2026, especialmente a partir do segundo trimestre, quando costumam avançar processos licitatórios, renovações de frota urbana e liberações de crédito. Projetos ligados à eletrificação e à modernização do transporte coletivo seguem no radar, mas devem avançar de forma mais seletiva e regionalizada.

O desempenho dos próximos meses será decisivo para confirmar se a queda de janeiro representa apenas um ajuste pontual ou o início de um ciclo mais prolongado de retração no mercado brasileiro de ônibus.

Imagens: Gabriel Cardoso Lopes / Carlos Junior / Adriano Minervino

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