O transporte coletivo urbano por ônibus entrou em uma nova etapa de sua crise no Brasil. É o que mostra o Anuário NTU 2025-2026, lançado nesta terça-feira (11), durante o 39º Seminário Nacional NTU, em São Paulo. A principal publicação técnica da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos reúne indicadores econômicos, operacionais, regulatórios e institucionais e aponta uma mudança estrutural no perfil da mobilidade urbana brasileira.
O diagnóstico central é que o atual modelo de financiamento do transporte público chegou ao limite. Ao mesmo tempo, a perda de passageiros deixou de ser apenas consequência da pandemia e passou a se relacionar com mudanças mais profundas no comportamento da população, especialmente o crescimento do transporte individual motorizado e o avanço recorde das motocicletas.
Segundo o levantamento, a demanda por ônibus em 2025 permaneceu em apenas 77,5% do volume registrado antes da Covid-19, enquanto os custos seguem pressionados e a renovação das frotas avança lentamente.
Modelo de financiamento continua concentrado na tarifa
Um dos principais alertas do Anuário NTU 2025-2026 está na estrutura financeira do transporte coletivo.
O custo anual estimado dos sistemas brasileiros chega a R$ 75,7 bilhões, mas apenas cerca de 20% desse valor é coberto por subsídios públicos. Os outros 80% continuam sendo financiados diretamente pelos passageiros, principalmente por meio das tarifas.
Na avaliação apresentada pela NTU, essa estrutura se tornou cada vez mais inadequada porque o transporte coletivo produz benefícios que vão muito além dos usuários diretos, incluindo redução de congestionamentos, menor emissão de poluentes, melhor aproveitamento do espaço urbano e ampliação do acesso ao emprego e aos serviços públicos.
Outro problema apontado é a concentração dos subsídios em poucas capitais e regiões metropolitanas. Na maior parte dos casos, os recursos vêm de municípios e estados, sem participação permanente da União no custeio operacional.
Marco Legal avança, mas vetos mantêm desafios
A publicação também destaca a sanção do Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano, resultado de aproximadamente seis anos de articulação do setor.
Entre os avanços, a nova legislação estabelece a separação entre o custo real da operação e a tarifa paga pelo passageiro, criando uma base mais transparente para contratos e políticas de financiamento.
Entretanto, o Anuário chama atenção para os vetos presidenciais a dispositivos considerados importantes para a sustentabilidade dos sistemas, entre eles mecanismos relacionados ao custeio das gratuidades pelo poder público e incentivos voltados à transição energética.
Assim, apesar do avanço institucional, permanece a necessidade de estruturar fontes permanentes de financiamento capazes de reduzir a dependência exclusiva da tarifa.
Demanda volta a cair após recuperação parcial
Outro indicador preocupante está relacionado ao número de passageiros.
Após uma recuperação parcial nos anos seguintes à pandemia, o volume de viagens por ônibus voltou a recuar em 2025 e permanece 22,5% abaixo do nível pré-Covid.
Segundo a NTU, o comportamento demonstra que a redução da demanda não pode mais ser tratada apenas como um efeito temporário da crise sanitária.
O levantamento identifica uma mudança estrutural na mobilidade, com parcela crescente da população migrando para modos individuais de transporte.
Motocicletas superam automóveis pela primeira vez
Essa transformação aparece com clareza nos números do mercado automotivo.
Em 2025, foram comercializadas 2,2 milhões de motocicletas no Brasil, crescimento de 17,1% em relação ao ano anterior. Pela primeira vez, os licenciamentos anuais de motocicletas superaram os de automóveis de passeio.
Para o diretor-presidente da NTU, Francisco Christovam, o avanço das motos não deve ser observado de forma isolada.
Segundo ele, o fenômeno ocorre justamente em um período em que o transporte coletivo perde competitividade, gerando impactos que vão além da mobilidade individual.
O crescimento desse modal tende a aumentar congestionamentos, acidentes, consumo de energia e emissões, além de enfraquecer a lógica econômica do transporte coletivo ao reduzir sua base de passageiros.
Tarifa zero chega a 146 municípios, mas ritmo desacelera
O Anuário NTU 2025-2026 dedica um capítulo específico ao avanço das políticas de tarifa zero.
Em junho de 2026, 146 municípios brasileiros adotavam gratuidade universal no transporte coletivo. Outros 46 municípios mantinham algum tipo de tarifa zero parcial, seja para determinadas categorias de usuários ou em dias específicos.
Apesar da expansão observada nos últimos anos, o ritmo de adesão de novas cidades desacelerou.
O levantamento também mostra que a política permanece concentrada principalmente em municípios de pequeno porte.
Oito cidades interromperam tarifa zero por dificuldades fiscais
Pela primeira vez, a publicação registra oito casos de interrupção da tarifa zero por problemas fiscais.
O dado é utilizado pela NTU para reforçar que a gratuidade precisa ser acompanhada por fontes estáveis e permanentes de financiamento.
Sem planejamento financeiro, o risco é que o benefício seja implantado e posteriormente interrompido, comprometendo a previsibilidade do sistema e a confiança dos passageiros.
A associação também destaca que a adoção da tarifa zero geralmente provoca aumento de demanda e, consequentemente, necessidade de ampliar a oferta de ônibus e viagens.
Isso significa que a universalização da gratuidade em nível nacional exigiria não apenas a substituição da arrecadação tarifária, mas também recursos adicionais para ampliar a capacidade operacional dos sistemas.
Custos operacionais continuam pressionando empresas
No campo operacional, o Anuário mostra que a mão de obra segue como principal componente dos custos do transporte coletivo, seguida pelos combustíveis.
A volatilidade dos preços voltou a pressionar os sistemas em 2026, especialmente após a elevação das cotações internacionais do petróleo.
Ao mesmo tempo, a frota brasileira continua envelhecida. A idade média dos ônibus é de seis anos e cinco meses, um patamar considerado elevado diante da necessidade de modernização e descarbonização.
Transição para ônibus de baixa emissão ainda é lenta
Apesar da existência de programas federais voltados à renovação das frotas, a introdução de ônibus elétricos e outras tecnologias de menor emissão continua avançando abaixo do ritmo considerado necessário pelo setor.
O cenário envolve diferentes obstáculos, como custo inicial elevado dos veículos, infraestrutura de recarga, dificuldades de acesso ao crédito e necessidade de adaptação dos contratos de operação.
A própria sustentabilidade financeira dos sistemas acaba influenciando diretamente a velocidade da transição energética.
NTU defende novo modelo nacional de financiamento
A conclusão do levantamento é que o transporte coletivo brasileiro precisa de uma nova estrutura permanente de financiamento.
Para Francisco Christovam, o setor chegou a um ponto em que a discussão deixou de envolver apenas questões operacionais.
Segundo o dirigente, o transporte coletivo desempenha papel essencial na economia, na inclusão social e na sustentabilidade das cidades, mas precisa voltar a ter condições para competir com os modos individuais.
A construção de novas fontes de custeio, portanto, é vista pela entidade como fundamental para renovar frotas, melhorar a qualidade dos serviços e recuperar passageiros.
Anuário orienta debates do Seminário Nacional NTU
Os dados apresentados na publicação também servem como base para as discussões do 39º Seminário Nacional NTU, realizado até o dia 13 de agosto em São Paulo.
Temas como financiamento, Marco Legal, renovação da frota, transição energética e recuperação da demanda estão diretamente ligados aos indicadores revelados pelo levantamento.
Mais do que registrar números, o Anuário NTU 2025-2026 busca apresentar um retrato estrutural da mobilidade brasileira e reforçar a necessidade de mudanças capazes de recolocar o transporte coletivo como eixo central dos deslocamentos urbanos.
Principais números do Anuário NTU 2025-2026
- R$ 75,7 bilhões: custo anual estimado dos sistemas de transporte coletivo urbano;
- 80%: parcela do custo ainda financiada diretamente pelos passageiros;
- 20%: participação aproximada dos subsídios públicos;
- 77,5%: demanda atual em relação ao período pré-pandemia;
- 2,2 milhões: motocicletas comercializadas no Brasil em 2025;
- 17,1%: crescimento anual das vendas de motocicletas;
- 146 municípios: possuem tarifa zero universal;
- 46 municípios: adotam gratuidade parcial;
- 8 municípios: já interromperam políticas de tarifa zero por dificuldades fiscais;
- 6 anos e 5 meses: idade média da frota brasileira de ônibus.














