Viação Cabral e Santa Rosa encerra operação após 61 anos e deixa legado no transporte de Campina Grande

Fundada em 1965, empresa começou com dois “bicudinhos”, cresceu sob administração familiar e transportou gerações de passageiros; despedida ocorreu neste sábado, 31 de outubro
Viação Cabral

A Viação Cabral e Santa Rosa encerrou suas operações no transporte público de Campina Grande neste sábado, 31 de outubro, após 61 anos de atuação. Fundada em 1965, a empresa atravessou diferentes fases da mobilidade na cidade paraibana e participou dos deslocamentos diários de gerações de trabalhadores, estudantes e famílias.

Conhecida também como Empresa Cabral ou Viação Santa Rosa, a operadora construiu uma trajetória de origem familiar. Começou com dois ônibus “bicudinhos”, no atendimento à Palmeira, ampliou sua presença para outros bairros e se tornou um nome tradicional do transporte campinense.

O encerramento acontece depois de uma redução significativa da operação nos últimos anos. Em 2024, a empresa já havia deixado oito linhas, mantendo naquele momento apenas o atendimento da 910 — Jenipapo.

A despedida marca o fim de uma atividade iniciada há mais de seis décadas. Permanecem, porém, os registros de uma empresa cuja história se mistura à dos bairros, dos profissionais e dos passageiros que ajudaram a construir sua identidade.

História começou em 1965 com José Cabral e Hamilton Cavalcante

A origem da empresa remonta à união de José Cabral da Silva e Hamilton de Sousa Cavalcante, que fundaram a então Empresa Cabral, em Campina Grande.

Depois do início das atividades, Hamilton deixou a sociedade para se dedicar a outros negócios. José Cabral permaneceu à frente da operação, acompanhado da esposa e dos filhos, estabelecendo a base familiar que marcaria a administração nas décadas seguintes.

O começo foi modesto: dois veículos OM 312, conhecidos como “bicudinhos”, foram utilizados na rota da Palmeira.

A configuração desses ônibus, com a frente alongada que originou o apelido, tornou-se uma das referências visuais do transporte brasileiro de outras épocas. Na história da Cabral, eles representam o ponto de partida de uma operação que cresceria junto à cidade.

Atendimento a Santa Rosa acompanhou a expansão

Com o desenvolvimento da atividade, a empresa passou a atender também a rota em direção ao bairro de Santa Rosa, nome que se tornaria parte de sua identificação no transporte local.

A frota chegou a dez ônibus, criando a necessidade de uma estrutura própria para guardar os veículos e realizar revisões e serviços de manutenção.

A aquisição de um terreno para essa finalidade representou uma etapa de organização do negócio. A empresa passou a reunir condições para estruturar o apoio técnico necessário à operação diária.

Era a transição de uma atividade iniciada com poucos veículos para uma operação que exigia mais espaço, manutenção e planejamento.

Primeiro ônibus zero quilômetro da Viação Cabral chegou em 1978

Um dos marcos da trajetória foi registrado em 1978, com a aquisição do primeiro ônibus totalmente novo, comprado diretamente do fabricante.

Para uma empresa que havia começado com apenas duas unidades, a chegada de um veículo zero quilômetro representava um passo importante na atualização da frota.

O histórico também registra uma nova aquisição em 1982, associada à continuidade da substituição dos ônibus utilizados na operação.

Essas compras ajudam a compreender o crescimento da Cabral ao longo do tempo, entre a ampliação do atendimento e a necessidade de renovar os instrumentos de trabalho.

Administração permaneceu com a família após perdas dos fundadores

A continuidade da empresa foi marcada por mudanças de comando e perdas familiares.

Após a morte de José Cabral da Silva, a responsabilidade pela condução do negócio passou à esposa, Abenita Nascimento Cabral, e aos filhos.

Posteriormente, Abenita transferiu o comando ao filho Aroldo, que deu continuidade ao trabalho iniciado pelos pais.

Com a morte de Aroldo, a administração passou a ser compartilhada pelos irmãos Toinho, Noaldo, Dioso e Albério, em um modelo de gestão familiar.

A sucessão preservou a ligação entre a família Cabral e o transporte coletivo de Campina Grande, mantendo a atividade ao longo de diferentes gerações.

Em 2012, empresa tinha 44 veículos e 180 funcionários

Um retrato da dimensão alcançada pela operadora aparece no histórico publicado pelo Ônibus & Transporte em agosto de 2012.

Naquele período, a Cabral e Santa Rosa possuía 44 veículos e 180 funcionários. Sua atuação incluía linhas como 077, 092, 500, 505, 550, 055 e 555, além de atendimentos associados a Jenipapo, Continental, Cuités, Estreito e Fazenda.

Esses números correspondem à realidade registrada em 2012, e não à estrutura existente no encerramento da operação. O registro mostra, entretanto, a abrangência que a empresa teve no sistema municipal.

Por trás de cada veículo havia o trabalho de motoristas, profissionais de manutenção e equipes de apoio, responsáveis por transformar a programação das linhas em viagens realizadas.

Renovação da frota teve presença dos Marcopolo Torino

A evolução dos ônibus também integra a memória da Cabral.

O acervo do Ônibus & Transporte registra aquisições de veículos Marcopolo Torino em diferentes momentos, incluindo notícias publicadas em 2014, 2016 e 2018. Os registros permitem acompanhar mudanças de carroceria e etapas da atualização da frota.

Em 2016, a empresa participou de uma entrega de novos ônibus em Campina Grande que também apresentou a padronização visual do sistema. Na ocasião, duas unidades eram destinadas à Cabral, integrante do Consórcio Santa Maria.

Esses episódios mostram a participação da operadora em transformações que alcançaram não apenas seus veículos, mas a apresentação e a organização do transporte coletivo da cidade.

Redução da operação marcou os últimos anos

A etapa final da trajetória foi acompanhada por dificuldades e pela transferência de parte dos serviços.

Em junho de 2024, o Ônibus & Transporte noticiou que a Transnacional, do Grupo A. Cândido, havia assumido oito linhas anteriormente atendidas pela Cabral: 500, 505, 555, 077, 092, 922, 902 e 903-B.

Naquele momento, a reportagem registrava que a empresa enfrentava recuperação judicial e permanecia apenas com a 910 — Jenipapo. A mudança representou uma redução expressiva de sua participação no sistema.

Esse contexto antecedeu o encerramento de outubro de 2026. As informações disponíveis para este especial não detalham as providências finais relacionadas aos trabalhadores, à destinação dos veículos ou à conclusão dos procedimentos administrativos da saída.

Despedida também é parte da memória dos passageiros

Durante 61 anos, os ônibus da Cabral fizeram parte de viagens que, para os passageiros, tinham destinos muito concretos: o emprego, a escola, uma consulta, o comércio ou a casa de um familiar.

A importância de uma empresa urbana também está nessa presença cotidiana. O nome conhecido no letreiro, a pintura reconhecida à distância e o ponto de embarque habitual tornam-se referências na relação das pessoas com a cidade.

Um capítulo encerrado nas ruas, preservado na história

O fim da operação da Viação Cabral e Santa Rosa encerra uma trajetória iniciada em 1965, construída a partir de uma pequena frota e mantida por sucessivas gerações de uma mesma família.

Dos primeiros “bicudinhos” da Palmeira aos ônibus que atenderam diferentes bairros de Campina Grande, a empresa deixou sua marca na história do transporte coletivo paraibano.

O Ônibus & Transporte registra o encerramento com reconhecimento aos profissionais que participaram dessa caminhada e aos passageiros que fizeram parte dela. A Cabral deixa a operação, mas permanece na memória de quem acompanhou seus 61 anos nas ruas de Campina Grande.

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