A Lat.Bus 2026 encerrou sua edição deixando uma mensagem clara para o mercado: a transformação do transporte coletivo deixou de estar concentrada apenas no desenvolvimento de novos ônibus. A evolução agora envolve todo um ecossistema formado por eletrificação, combustíveis alternativos, inteligência artificial, conectividade, segurança, gestão de dados, eficiência energética e redução dos custos operacionais.
Realizada entre os dias 11 e 13 de agosto, no São Paulo Expo, a feira reuniu fabricantes de chassis e carrocerias, operadores, fornecedores de componentes, desenvolvedores de tecnologia e especialistas do transporte de passageiros. Mais do que uma exposição de veículos, a Lat.Bus funcionou como uma grande vitrine das soluções que começam a redesenhar a mobilidade coletiva brasileira e latino-americana.
A dimensão dessa transformação pôde ser percebida na variedade de tecnologias apresentadas. Ônibus elétricos dividiram espaço com modelos preparados para gás natural, biometano e diesel Euro 6, enquanto sistemas de inteligência artificial, telemetria, manutenção preditiva, plataformas de gestão e equipamentos conectados demonstraram que a modernização acontece tanto no veículo quanto nos bastidores das operações.
Esse conjunto mostra um setor entrando em um novo ciclo, no qual sustentabilidade, conectividade e eficiência operacional passam a caminhar conjuntamente.
Lat.Bus mostra que inovação nos ônibus vai muito além da motorização
Uma das principais conclusões deixadas pela Lat.Bus 2026 é que já não é possível avaliar a evolução de um ônibus apenas pelo motor, chassi ou desenho da carroceria. Os veículos estão se transformando em plataformas tecnológicas capazes de produzir informações, comunicar-se com sistemas de gerenciamento e auxiliar operadores na tomada de decisões.
Novos materiais construtivos, sistemas eletrônicos embarcados, recursos de assistência ao motorista, climatização mais eficiente e tecnologias para acompanhamento da operação são alguns exemplos dessa transformação. Ao mesmo tempo, a necessidade de diminuir emissões está ampliando a quantidade de alternativas disponíveis para cada perfil de serviço.
A feira também demonstrou que não existe uma única tecnologia destinada a substituir imediatamente o diesel em todas as aplicações. Dependendo da operação, ônibus elétricos, gás natural, biometano e outras soluções de menor impacto ambiental aparecem como caminhos complementares dentro do processo de descarbonização.
Marcopolo, Busscar e Mascarello apresentam evolução das carrocerias
Entre as fabricantes de carrocerias, a Marcopolo teve uma das maiores participações da feira, levando dezenas de veículos das marcas Marcopolo e Volare e apresentando soluções destinadas aos segmentos urbano, rodoviário e de micro-ônibus.

A fabricante trabalhou com diferentes alternativas energéticas, incluindo aplicações elétricas, híbridas, movidas a gás natural e biometano, além das tradicionais configurações diesel adequadas aos padrões atuais de emissões. A participação também foi acompanhada por uma agenda de debates sobre engenharia, produtos, mobilidade, tecnologia e perspectivas para o mercado.

A Busscar, por sua vez, aproveitou a Lat.Bus para ampliar a exposição da família NB1 e mostrar sua estratégia para os próximos anos no segmento rodoviário. Já a Mascarello colocou a eletrificação entre os principais destaques de sua participação, apresentando o ônibus elétrico Horizon, além de veículos de seu portfólio que receberam atualizações relacionadas a tecnologia, conforto, eficiência e design.
Iveco Bus amplia portfólio e aposta em gás natural e biometano
A Iveco Bus chegou à Lat.Bus com uma estratégia de diversificação para atender aplicações urbanas, escolares, de fretamento, receptivo e transporte rodoviário.

Entre as novidades apresentadas esteve o BUS 17-280 Full Air, equipado com suspensão pneumática. A fabricante também levou os modelos Daily Minibus 45-160 Fretamento, Daily Minibus 50-180 Hi-Matic, BUS 10-190, BUS 17-210, BUS 17-280 e BUS 17-210 G.

Este último amplia a participação da marca no processo de transição energética ao permitir utilização de gás natural e biometano, oferecendo aos operadores outra alternativa para redução das emissões sem depender exclusivamente da eletrificação.
Mercedes-Benz combina eletrificação, diesel e tradição
A Mercedes-Benz apresentou um portfólio que ajuda a demonstrar a diversidade atual do mercado brasileiro. A marca reuniu desde chassis convencionais para aplicações urbanas, rodoviárias e de fretamento até soluções totalmente elétricas.
Entre os produtos estiveram os eO500U e eO500UA, além dos chassis LO 916 R, OF 1621, O 500M e O 500 RSDD. A fabricante também aproveitou a feira para celebrar seus 70 anos de atuação no Brasil, expondo um histórico monobloco O-321 preservado pela empresa.
A presença dos elétricos mostrou, entretanto, apenas uma parte da estratégia. A tendência observada na feira aponta para uma transição gradual, acompanhando capacidade de investimento dos operadores, disponibilidade de infraestrutura e características específicas de cada sistema de transporte.
Scania Super chega como uma das grandes novidades rodoviárias
No segmento rodoviário, a Scania colocou em evidência sua nova geração Super, formada por chassis equipados com motores de 11 e 13 litros.
As configurações K350, K390, K430, K460 e K500 ampliam as possibilidades para serviços rodoviários e de fretamento. O conjunto traz uma nova arquitetura de trem de força formada por motor, transmissão e diferencial, desenvolvida com foco especialmente na eficiência energética.
A marca também utilizou a feira para avançar sobre outra frente estratégica: a eletrificação do transporte urbano, demonstrando que sua atuação futura deverá combinar diferentes tecnologias de propulsão.
Volvo reforça eficiência e flexibilidade energética
A Volvo Buses concentrou sua participação em soluções destinadas à redução do Custo Total de Propriedade (TCO), segurança, conforto e produtividade das operações.
Além dos veículos apresentados em seu próprio espaço, chassis da fabricante estavam distribuídos por estandes de encarroçadoras e áreas externas da Lat.Bus, ampliando a presença da marca no evento.
A estratégia envolve tanto aplicações urbanas quanto rodoviárias, com atenção para plataformas de maior capacidade e soluções capazes de acompanhar a diversificação energética experimentada pelo transporte coletivo.
Volkswagen amplia família e-Volksbus
A eletrificação também teve participação importante no espaço da Volkswagen Caminhões e Ônibus, que apresentou novas configurações do e-Volksbus.
Entre elas estiveram os modelos 22H e 18H, ambos de piso alto. O primeiro foi desenvolvido especialmente para sistemas urbanos e corredores com plataformas elevadas, enquanto o segundo amplia a possibilidade de utilização da propulsão elétrica em serviços de fretamento.
Dependendo da configuração, os chassis podem utilizar oito ou 12 packs de baterias, oferecendo autonomia de até 200 ou 250 quilômetros, respectivamente. A possibilidade de instalação de dois conectores CCS2 busca diminuir o tempo necessário para recarga.
Outra novidade foi um painel digital de dez polegadas, com dezenas de funcionalidades, previsto para ser disponibilizado como opcional para a linha Volksbus a partir de 2027.
Eletra coloca indústria brasileira no centro da eletrificação
A brasileira Eletra também apresentou novidades relacionadas à evolução dos ônibus elétricos, trabalhando principalmente em eficiência energética, inteligência embarcada, conectividade e integração dos diferentes sistemas do veículo.

A proposta evidencia outro movimento importante observado na Lat.Bus: o desenvolvimento de tecnologia nacional para a descarbonização do transporte público.


Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento buscam tornar a eletrificação competitiva para diferentes realidades operacionais brasileiras e latino-americanas, conciliando desempenho, confiabilidade e redução do impacto ambiental.
BYD mantém aposta na expansão dos ônibus elétricos
A BYD reforçou sua estratégia voltada ao transporte público elétrico e apresentou sua visão para a evolução da mobilidade urbana brasileira.
A fabricante chinesa colocou a eletrificação como parte de uma transformação mais ampla, associada à integração tecnológica dos sistemas de transporte, à eficiência operacional e à redução das emissões.
A presença crescente de diferentes fabricantes nesse segmento demonstrou que o ônibus elétrico deixou de representar apenas projetos experimentais e começa a ocupar espaço cada vez mais relevante nas decisões de renovação das frotas.
Agrale apresenta alternativa a gás para operações urbanas
Outra solução de transição energética veio da Agrale, que apresentou o chassi MT 18.0 Gás LE, desenvolvido para aplicações urbanas.
Equipado com motor Weichai de 265 cv, transmissão automática Allison de cinco marchas e suspensão pneumática, o modelo possui capacidade para armazenamento de 940 litros de gás.
Além do gás natural, a utilização de biometano abre a possibilidade de emprego de combustível renovável, posicionando a solução entre as alternativas para operadores interessados na redução de emissões, mas que ainda encontram limitações econômicas ou estruturais para migrar diretamente para veículos totalmente elétricos.
Tecnologia também transforma componentes dos ônibus
A revolução apresentada na Lat.Bus não ficou restrita às fabricantes de chassis e carrocerias.
A Allison Transmission apresentou aplicações de suas transmissões automáticas em veículos movidos a gás e destacou uma nova transmissão de nove marchas, desenvolvida para ônibus urbanos, rodoviários, turismo e fretamento.
A Driventic apresentou soluções de transmissão e propulsão elétrica, enquanto a Spheros Brasil mostrou novos sistemas de climatização. Entre eles está uma solução desenvolvida especificamente para ônibus Double Decker, com redução do nível de ruído em relação à geração anterior.
Já a Luminator Technology Group Brasil levou uma nova geração de itinerários eletrônicos e soluções para contagem de passageiros, demonstrando como até componentes tradicionalmente considerados acessórios passam a produzir informações úteis para a gestão da operação.
Ônibus conectados mudam a gestão das empresas
Talvez uma das transformações menos visíveis para os passageiros, mas mais importantes para os operadores, esteja acontecendo na gestão.
Telemetria, monitoramento em tempo real, manutenção preditiva, inteligência artificial e análise de dados estão permitindo que as empresas acompanhem o comportamento dos veículos e das operações de maneira muito mais detalhada.
A Clever Devices, por exemplo, destacou tecnologias relacionadas aos Sistemas Inteligentes de Transporte (ITS), incluindo o projeto do Sistema de Monitoramento e Gestão Operacional destinado à frota paulistana.
A Orbe do Brasil demonstrou a integração entre diferentes equipamentos embarcados por meio de uma experiência simulada de viagem, enquanto a Bus2 apresentou ferramentas destinadas à análise de ocupação, deslocamentos por origem e destino e acompanhamento de indicadores operacionais.
Inteligência Artificial deixa de ser promessa e chega à operação dos ônibus
A Inteligência Artificial (IA) ganhou protagonismo na Lat.Bus 2026 e mostrou que sua utilização no transporte coletivo já ultrapassou a fase conceitual.
As aplicações incluem planejamento operacional, elaboração de escalas, identificação de irregularidades, manutenção, atendimento aos passageiros, análise de grandes volumes de dados e automatização de tarefas administrativas.
A Optibus apresentou soluções destinadas ao planejamento e à otimização das operações, incluindo recursos de IA capazes de identificar situações em tempo real e auxiliar na execução de ações corretivas.
A GOAL mostrou ferramentas integradas para planejamento, programação operacional, escalas de motoristas e gestão de frotas elétricas. Já a Empresa 1 apresentou tecnologias relacionadas a pagamentos digitais, inteligência de dados e recursos embarcados.
IA começa a acompanhar passageiro durante toda a jornada
A transformação não acontece apenas dentro das garagens.
A VaideBus apresentou aplicações de agentes de inteligência artificial voltados diretamente à jornada dos passageiros. A tecnologia pode interpretar o que o usuário deseja, prestar atendimento, consultar informações e conduzir o cliente até a conclusão de uma transação.
A proposta demonstra como IA, WhatsApp e pagamentos digitais podem convergir para transformar a experiência de compra e utilização do transporte.
Já a Praxio apresentou o Praxio BrAIn, integrado ao sistema Globus, aplicando inteligência artificial à gestão preditiva de frotas. A tecnologia pode identificar anomalias, desvios e oportunidades de economia em áreas como manutenção, abastecimento, pneus, estoque e compras.
Lat.Bus abre espaço para mercado de ônibus seminovos
Uma novidade da edição de 2026 foi a criação de um espaço específico para ônibus usados e seminovos.
A iniciativa aproximou grandes operadores de empresas interessadas em adquirir veículos de segunda mão e colocou em evidência uma área estratégica para o ciclo de renovação das frotas brasileiras.
Para empresas que renovam seus ônibus com maior frequência, a comercialização dos veículos usados permite recuperar parte do investimento e acelerar novas aquisições. Para transportadores de menor porte, cria acesso a ônibus provenientes de grandes frotas por valores inferiores aos de unidades novas.
Além da dimensão comercial, existe um componente relacionado à sustentabilidade: prolongar a utilização de um veículo em condições adequadas significa ampliar o ciclo de vida de um ativo já produzido.
Lat.Bus 2026 deixa retrato de um setor em profunda transformação
Ao reunir em um mesmo ambiente ônibus elétricos, motores a gás, biometano, diesel de nova geração, transmissões avançadas, sistemas inteligentes de climatização, plataformas digitais e ferramentas baseadas em IA, a Lat.Bus 2026 revelou um setor muito diferente daquele de poucos anos atrás.
A transformação não significa apenas trocar uma tecnologia de propulsão por outra. O ônibus passa a integrar um sistema no qual veículo, motorista, passageiro, garagem e centro de controle produzem e compartilham informações.
Nesse novo cenário, eficiência operacional e sustentabilidade deixam de ser objetivos separados. Reduzir consumo, antecipar falhas, dimensionar corretamente a oferta, melhorar a condução e aproveitar informações da operação também significa utilizar melhor os recursos disponíveis.
O resultado é um novo conceito de transporte coletivo no qual ônibus conectados, inteligência artificial, eletrificação, combustíveis renováveis e gestão baseada em dados tendem a ganhar participação crescente.
A Lat.Bus 2026 mostrou, portanto, que o futuro da mobilidade não está concentrado em uma única tecnologia. Ele será construído pela combinação de diferentes soluções, adaptadas às características econômicas e operacionais de cada cidade e empresa.
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