O que acontece com as linhas distritais de Campina Grande?

Segunda maior cidade da Paraíba, Campina Grande não paralisou completamente o seu sistema de transportes por causa da pandemia, diferente da capital, João Pessoa. Fato é que o sistema campinense, assim como muitos do país, não é mais o mesmo e opera com horários reduzidos. A cidade conseguiu impedir o aumento da tarifa com subsídios, mas nem isso parece animar as empresas, que tomaram unilateralmente a decisão de retirar as linhas distritais da cidade.

Mas o que são essas linhas distritais? Para entender essas linhas, é preciso entender o território de Campina Grande. Diferente da capital, a mancha urbana não ocupa todo o território da cidade de Campina Grande, e alguns núcleos ficam distantes da própria cidade em si. Esses são os distritos, que quem não entende ou não conhece acha que são ou estão em outras cidades, mas na realidade estão em território campinense.

Como esses territórios são parte de Campina Grande, logo, as linhas que atendem esses distritos são municipais. E esses distritos são atendidos por quatro linhas, com cada distrito tendo a sua. Elas praticamente lembram linhas de rodoviária, pegando mais estrada do que rua. Desse modo, não conseguem alcançar outras linhas no caminho, apenas no Centro, de modo que não se sobrepõem ao resto do sistema. Essas linhas são as 902, de Salgadinho, 903B, de São José da Mata, 910, de Jenipapo e 955, de Galante. Essas linhas são a única presença do transporte público nessas regiões distantes. Sem isso, não tem ônibus.

Todas as outras linhas do sistema campinense rodam dentro do núcleo urbano. As distritais vão mais além e atendem, além dos próprios distritos, a zona rural do município, como você pode ver nos mapas. Ou melhor, atendiam, porque estão sem rodar desde sábado.

As populações dos distritos usam as linhas para irem até a região central da cidade, onde tem acesso aos serviços básicos – e até a feira. Se ir de um bairro ao outro leva um pulo, ir do distrito a cidade muitas vezes leva a eternidade, e isso para o mais básico.

Como para as empresas esse modelo não lhes é atraente apesar da demanda considerável que carregam – até por serem as únicas opções que essas áreas têm -, as linhas distritais não recebem tantos carros quanto as linhas do núcleo urbano. Alegam prejuízos operacionais. Mas como diz o ditado, quem não dá assistência abre concorrência, é aí que entra em cena o transporte clandestino. Essa foi outra alegação que as empresas deram para justificar a retirada dessas linhas.

Acontece que a decisão foi unilateral, ou seja, tomada pelas próprias empresas sem autorização da Prefeitura de Campina Grande. As linhas possuem uma demanda lógica, afinal são as únicas ligações desses distritos com a cidade, e pelos motivos acima mencionados. Era lógico que isso iria trazer problemas sérios para os passageiros, com dificuldade para retornar para casa e até nem poderem fazer isso.

Diante disso, a Prefeitura de Campina Grande entrou na Justiça e conseguiu uma liminar proibindo as empresas de retirarem as linhas distritais. Elas descumpriram, mesmo cientes de que isso vai sair tão ou mais caro do que manter as linhas rodando, já que pagarão multa de até 20 mil reais a cada dia que descumprirem a medida.

E vai mais além; a Prefeitura deu 48 horas para que as empresas retomem a operação dessas linhas, sob pena de intervenção do sistema – ou a Prefeitura assume apenas as linhas distritais, ou assume tudo até uma nova licitação. Podemos estar vendo algo que nunca presenciamos antes por aqui, será mesmo?

Desse modo, está criada a celeuma. A acompanhar os próximos capítulos, pois isso pode marcar uma verdadeira virada na relação entre Prefeitura e empresas, deixando claro que o poder público não irá tolerar medidas unilaterais tomadas pelas empresas. Isso também ajuda a explicar um sistema ruim.