Após 70 anos de história, Viação José Maria Rodrigues encerrará operações e se despede das estradas

Empresa nascida no interior de Minas Gerais confirma o fim das atividades em junho; linhas serão assumidas pela Viação Bassamar e direitos trabalhistas dos colaboradores serão preservados
José Maria Rodrigues

O transporte rodoviário mineiro se prepara para se despedir de uma de suas empresas mais tradicionais. Após quase sete décadas transportando passageiros e construindo uma trajetória marcada por pioneirismo, superação e forte ligação familiar, a José Maria Rodrigues & Filhos (Viação José Maria Rodrigues – JMR) anunciou oficialmente o encerramento de suas operações.

A companhia comunicou aos colaboradores que o processo de descontinuidade ocorrerá de forma organizada até o próximo dia 30 de junho de 2026. A partir de 1º de julho, as linhas e horários atualmente operados pela empresa passarão para a responsabilidade da Viação Bassamar, que assumirá integralmente a prestação dos serviços.

Viação José Maria Rodrigues

Mais do que o fechamento de uma empresa, a decisão representa o fim de um capítulo importante da história do transporte coletivo em Minas Gerais, iniciado em 1956 por um empreendedor que acreditou que um único ônibus poderia transformar a vida de milhares de pessoas.

Transição será realizada de forma planejada

Em comunicado interno ao qual o Portal RKF teve acesso, a direção da JMR detalhou o cronograma de encerramento das atividades e procurou tranquilizar os colaboradores quanto ao cumprimento de todas as obrigações trabalhistas.

Segundo o diretor-geral Leonardo Scher, as operações seguirão normalmente até o último dia de junho, mantendo inalteradas as escalas e rotinas de trabalho durante o período de transição.

O cronograma prevê o início do aviso prévio em 15 de junho, abrangendo todo o quadro funcional da empresa.

Já os desligamentos efetivos ocorrerão em 30 de junho.

A partir de 2 de julho, terá início o pagamento das verbas rescisórias, incluindo férias vencidas e proporcionais, décimo terceiro salário proporcional e os valores referentes à Participação nos Lucros e Resultados (PLR).

A empresa assegurou que todos os acertos financeiros serão realizados à vista e que nenhum trabalhador sofrerá prejuízos decorrentes do encerramento das atividades.

Além disso, parte dos profissionais deverá ser indicada para oportunidades de absorção pela própria Viação Bassamar, facilitando a continuidade da trajetória profissional desses colaboradores.

Uma despedida marcada pelo reconhecimento

Ao comunicar o encerramento das operações, a direção da JMR fez questão de agradecer aos profissionais que ajudaram a construir a história da empresa ao longo de décadas.

No comunicado, a diretoria destacou o comprometimento, a dedicação e o profissionalismo demonstrados pelas equipes, ressaltando o privilégio de ter contado com colaboradores que contribuíram para consolidar a reputação da companhia no transporte regional.

Para muitos funcionários, a empresa representou não apenas um emprego, mas uma extensão da própria família.

Uma característica que acompanhou a JMR desde os seus primeiros dias.

Uma história que começou com um Chevrolet 1948

A trajetória da empresa teve início em 22 de fevereiro de 1956, no município mineiro de Astolfo Dutra.

Foi ali que José Maria Rodrigues, homem de origem simples e espírito empreendedor, decidiu transformar sua experiência nas estradas em um negócio próprio.

Depois de trabalhar como caminhoneiro e tornar-se o primeiro taxista de sua cidade, ele percebeu que o transporte coletivo poderia atender às necessidades de uma população que buscava melhores conexões entre municípios da região.

Com coragem e recursos limitados, adquiriu seu primeiro ônibus — um Chevrolet 1948, comprado por 200 contos de réis.

Nascia a Viação Expresso de São Sebastião.

Na época, José Maria acumulava funções.

Era motorista, administrador, responsável pela manutenção e pela gestão financeira.

A primeira linha ligava Astolfo Dutra a Leopoldina, com seção em Cataguases.

Resiliência diante das dificuldades

Os desafios dos primeiros anos eram constantes.

As estradas de terra, os atoleiros e as chuvas transformavam cada viagem em uma prova de resistência.

Nem sempre havia passageiros suficientes para garantir a rentabilidade das operações.

Entre os poucos clientes fiéis estava o senhor Nicolau Defilippo, lembrado como um dos passageiros que acompanharam a empresa em seus momentos mais difíceis.

Determinado a cumprir os horários, José Maria chegou a transportar um jipe durante as viagens para auxiliar no resgate dos ônibus quando estes atolavam nos trechos mais críticos.

A persistência, no entanto, deu resultados.

A pequena frota cresceu rapidamente.

Novas linhas foram incorporadas, incluindo a ligação entre Astolfo Dutra e Cataguases, seguida da aquisição do trecho Cataguases–Juiz de Fora.

Foi nesse momento que a empresa adotou definitivamente o nome Viação José Maria Rodrigues.

Empresa cresceu junto com a família

Com o aumento da demanda, José Maria expandiu suas operações e criou a primeira linha regular de ônibus da cidade de Guarani, fortalecendo a integração regional.

Em 1960, mudou-se com a esposa, Ida Furtado Rodrigues, e os onze filhos para Juiz de Fora, estabelecendo ali a sede administrativa da empresa.

Nos anos seguintes, vieram novas rotas, como Mercês–Juiz de Fora e Juiz de Fora–Piau, ampliando a presença da companhia na Zona da Mata Mineira.

A partir da década de 1970, o fundador iniciou o processo de sucessão familiar.

Seu filho Fábio Rodrigues assumiu a gestão ao lado dos irmãos Sebastião, José Manoel e Margareth, consolidando oficialmente a razão social Viação José Maria Rodrigues e Filhos Ltda.

A empresa transformou-se em um verdadeiro legado familiar, construído sobre valores como trabalho, honestidade e proximidade com os passageiros.

O fim de uma trajetória histórica

O encerramento das atividades da JMR marca o fim de uma história iniciada há quase 70 anos por um homem que acreditava na força do transporte como instrumento de transformação social.

Ao longo de sua existência, a empresa acompanhou a evolução das rodovias brasileiras, testemunhou mudanças econômicas, formou gerações de profissionais e transportou milhares de passageiros entre municípios mineiros.

Agora, suas linhas seguirão operando sob a responsabilidade da Viação Bassamar, garantindo a continuidade dos serviços prestados à população.

Mas a memória construída pela JMR permanecerá viva entre antigos colaboradores, passageiros e moradores das cidades atendidas.

Porque, muito além dos ônibus e das rotas, a história da Viação José Maria Rodrigues é a história de um empreendedor que começou sozinho ao volante de um Chevrolet 1948 e construiu uma das trajetórias mais respeitadas do transporte rodoviário mineiro.

O fim das operações encerra um ciclo empresarial.

Mas não apaga o legado deixado por quem dedicou quase sete décadas a manter pessoas em movimento.

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