A chegada dos 54 novos ônibus do Sistema RIO em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, trouxe veículos com ar-condicionado, tomadas USB, painéis eletrônicos e novos recursos de segurança, mas também expôs um problema para passageiros que dependem da integração entre os transportes municipal e intermunicipal. Parte da nova frota começou a circular sem validadores Riocard, impossibilitando nesses veículos a utilização do Bilhete Único Intermunicipal (BUI) pelo sistema estadual.
A situação afeta especialmente passageiros que chegam ao município do Rio vindos da Baixada Fluminense e de outras cidades da Região Metropolitana e precisam combinar os ônibus municipais com outros modais. Sem a validação do BUI nos novos coletivos, o benefício tarifário não é aplicado normalmente durante essa etapa da viagem.
A Prefeitura do Rio e o Governo do Estado confirmaram que a integração ainda não está disponível nos veículos e informaram que mantêm tratativas para solucionar a questão. Enquanto o município afirma que o Jaé está tecnicamente preparado para realizar as integrações do BUI, o Estado defende a implementação dos validadores necessários nos novos ônibus.
O impasse evidencia um desafio que ultrapassa a instalação de equipamentos: a necessidade de fazer os diferentes sistemas de bilhetagem eletrônica do transporte público do Rio de Janeiro funcionarem de maneira integrada para o passageiro.
Novos ônibus do Sistema RIO começaram a operar sem validadores Riocard
O problema foi identificado após a entrada em operação da nova frota do Sistema RIO em Campo Grande, dentro da reestruturação do transporte municipal na Zona Oeste.
Os veículos passaram a utilizar a bilhetagem Jaé, adotada pelo município do Rio, mas não receberam os validadores do sistema Riocard necessários atualmente para que passageiros habilitados no Bilhete Único Intermunicipal tenham o benefício reconhecido.
Entre as linhas apontadas como operando sem a bilhetagem estadual estão:
- 821 – Campo Grande x Corcundinha (circular)
- 822 – Campo Grande x Corcundinha (circular)
- 869 – Campo Grande x Santa Margarida (circular)
- 893 – Jardim Palmares x Campo Grande
- 808 – Sagrado Coração x Campo Grande
- 841 – Vilar Carioca x Campo Grande
- 833 – Conjunto Manguariba x Campo Grande
A questão ganha relevância porque Campo Grande funciona como importante ponto de conexão para passageiros que realizam deslocamentos entre diferentes regiões da Zona Oeste e municípios da Região Metropolitana.
Problema atinge quem depende do Bilhete Único Intermunicipal
O Bilhete Único Intermunicipal (BUI) permite que passageiros habilitados realizem viagens combinando diferentes meios de transporte dentro das regras estabelecidas para o benefício tarifário.
Quando um ônibus municipal utilizado em uma das etapas não consegue reconhecer o BUI, essa cadeia de integração é interrompida.
Na prática, o problema pode obrigar o passageiro a pagar separadamente pelos deslocamentos que normalmente seriam considerados dentro do benefício.
A situação afeta, por exemplo, usuários que combinam ônibus municipais do Rio com trens ou metrô durante seus deslocamentos cotidianos.

De acordo com os relatos apresentados pelas fontes que identificaram o problema, uma viagem que poderia custar R$ 9,40 com o BUI pode passar a ter as tarifas descontadas individualmente quando a integração não é reconhecida, provocando um gasto adicional superior a R$ 3 em determinados trajetos.
O impacto se multiplica para quem realiza o mesmo percurso diariamente para trabalhar ou estudar.
Prefeitura diz que Jaé está pronto para realizar integração do BUI
A Prefeitura do Rio afirma que pretende solucionar a questão por meio da integração entre os sistemas municipal e estadual. O Jaé, sistema de bilhetagem adotado no transporte municipal do Rio de Janeiro, seria utilizado para processar também o benefício estadual.
Em nota, o município classificou essa integração como uma prioridade dentro da reestruturação do transporte público da capital e afirmou que o Jaé já possui capacidade técnica para processar o Bilhete Único Intermunicipal.
“A Prefeitura do Rio informa que a integração dos sistemas municipal e estadual é prioridade na reestruturação do transporte público da capital. O sistema Jaé está tecnicamente pronto para realizar as integrações do Bilhete Único Intermunicipal (BUI). A Prefeitura segue em diálogo com o Governo do Estado para que a integração seja feita por meio do Jaé, que foi criado para atingir a máxima transparência do sistema público de ônibus.”
Apesar da afirmação, não foi informado um prazo para que os passageiros possam efetivamente utilizar o BUI por meio dos validadores Jaé instalados nos novos ônibus.
Enquanto essa interoperabilidade não estiver disponível, o passageiro que depende do benefício permanece diante de uma limitação prática nos veículos envolvidos.
Governo do Estado fala em instalação de validadores nos novos ônibus
O posicionamento do Governo do Estado aponta para outra solução operacional.
A Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram) informou ter recebido a informação sobre os veículos e afirmou que iniciou tratativas com a Prefeitura do Rio para implementação dos validadores.
“A Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram) recebeu a informação e já está em tratativas com a Prefeitura do Rio para a implementação dos validadores nos novos ônibus incorporados à frota. O equipamento é indispensável para que os usuários cadastrados no Bilhete Único Intermunicipal (BUI) continuem tendo acesso ao benefício.”
Os dois posicionamentos revelam uma diferença importante na forma como a questão está sendo tratada.
Enquanto a Prefeitura destaca a capacidade do Jaé para processar futuramente a integração, o Governo do Estado menciona a implementação dos validadores nos novos ônibus.
Em comum, as duas administrações reconhecem que o passageiro precisa ter assegurada a continuidade do BUI.
Impasse entre Jaé e Riocard vai além dos novos ônibus
A situação observada em Campo Grande coloca novamente em evidência a convivência entre diferentes sistemas de bilhetagem no transporte público fluminense.
O Jaé foi implantado como sistema de bilhetagem digital do município do Rio de Janeiro, enquanto o Riocard permanece relacionado à bilhetagem utilizada nos serviços estaduais e intermunicipais e ao acesso ao BUI.
O problema surge justamente quando o passageiro precisa atravessar essa fronteira administrativa durante uma mesma viagem.

Para quem mora em outro município da Região Metropolitana e trabalha no Rio, por exemplo, pouco importa se determinado trecho é de competência municipal ou estadual. O objetivo é conseguir realizar toda a viagem utilizando corretamente o benefício ao qual tem direito.
É nesse ponto que a falta de interoperabilidade entre os sistemas passa de uma questão tecnológica ou administrativa para um problema cotidiano de mobilidade metropolitana.
Especialista defende sistema capaz de aceitar diferentes cartões
O coordenador do Fórum de Mobilidade Urbana do Rio de Janeiro e especialista em mobilidade urbana Licinio M. Rogério avalia que o problema evidencia uma discussão mais ampla sobre a organização do transporte metropolitano.
Para ele, o passageiro não deveria precisar se preocupar com qual sistema de bilhetagem é aceito em cada etapa da viagem.
“Não tem que ter um cartão para cada transporte, isso só atrapalha as pessoas. É um debate mais amplo que precisa ser feito. O validador deveria aceitar qualquer cartão, sem a exigência de um específico da prefeitura. Quando você vai a uma loja, perguntam: é crédito ou débito? Ninguém quer saber a bandeira do seu cartão. Por que no ônibus tem que aceitar a sua bandeira? Isso está errado.”
A avaliação aponta para a necessidade de uma solução integrada que permita ao passageiro transitar entre diferentes redes sem precisar compreender a divisão institucional existente entre município e Estado.
O Fórum de Mobilidade Urbana atua desde 2011 e foi criado pela Federação das Associações de Moradores do Município do Rio de Janeiro em conjunto com o Clube de Engenharia.
Lei estadual assegura Bilhete Único no transporte metropolitano
A discussão também possui uma dimensão jurídica.
A Lei Estadual nº 5.628/2009, que instituiu o Bilhete Único no sistema de transporte coletivo intermunicipal, prevê a utilização do benefício tarifário em deslocamentos realizados na Região Metropolitana envolvendo diferentes modalidades de transporte.
O texto inclui entre os serviços abrangidos os ônibus de empresas com concessão ou permissão de linhas municipais, o que torna a ausência da integração uma questão que ultrapassa a simples escolha do meio de pagamento utilizado no coletivo.
Segundo as informações apresentadas, têm direito ao BUI moradores do Estado do Rio de Janeiro com renda mensal declarada inferior a R$ 3.205,20, desde que atendam aos demais critérios para habilitação no benefício.
O BUI também está relacionado ao acesso às tarifas sociais dos sistemas estaduais e a outros benefícios vinculados à mobilidade.
Prodata diz ter equipamentos disponíveis para os operadores
A Prodata Mais Mobi, responsável pelo Riocard, informou ao Brasil de Fato que não conhece o motivo pelo qual novas empresas da capital estariam operando sem os equipamentos.
A companhia declarou ainda que mantém validadores disponíveis para atender aos operadores.
“A empresa se coloca à disposição e informa que mantém os equipamentos para pronta-entrega para atender às necessidades dos operadores.”
Já empresas que assumiram operações na nova concessão municipal alegaram, segundo a apuração apresentada pelas fontes, que o custo de implementação desses equipamentos não estava previsto no edital da Prefeitura do Rio.
A questão ocorre em meio à implantação de um novo modelo de concessão no qual as empresas passam a ser remuneradas por quilômetro rodado, com subsídio público e avaliação da qualidade do serviço por meio do Índice de Desempenho de Transporte (IDT).
Sistema RIO avança na Zona Oeste com renovação da frota
A modernização faz parte da nova concessão do Sistema RIO para Campo Grande e Santa Cruz, cujos primeiros contratos foram assinados em março de 2026.
A discussão sobre a bilhetagem acontece justamente durante uma ampla transformação da operação de ônibus na Zona Oeste.
A implantação do Sistema RIO trouxe uma nova frota para a região, com veículos equipados com itens como ar-condicionado, tomadas USB, painéis eletrônicos e tecnologias voltadas à segurança e ao acompanhamento da operação.
Campo Grande recebeu uma nova etapa dessa operação depois do início da implantação do sistema em Santa Cruz, dentro da reorganização do transporte municipal na região.
A modernização dos veículos representa uma mudança perceptível para os passageiros, mas o problema envolvendo a bilhetagem mostra que a renovação da frota precisa ser acompanhada pela integração dos sistemas utilizados durante a viagem.
Um ônibus pode oferecer novos equipamentos, climatização e tecnologias de monitoramento, mas, para quem depende diariamente do Bilhete Único Intermunicipal, conseguir realizar a integração tarifária também faz parte da qualidade do serviço.
A transformação não termina nessa primeira fase. A segunda etapa do Sistema RIO prevê 1.006 ônibus novos para diferentes regiões da Zona Oeste, incluindo Santa Cruz, Guaratiba, Campo Grande e Bangu.
Prefeitura e Estado ainda não informaram prazo para solução
Até os posicionamentos divulgados, Prefeitura do Rio e Governo do Estado não apresentaram uma data para a normalização da integração do BUI nos novos ônibus.
O município sustenta que o Jaé está tecnicamente preparado e busca viabilizar a integração por meio de seu próprio sistema. O Estado, por outro lado, informa estar discutindo a implementação dos validadores necessários nos veículos.

Enquanto as tratativas continuam, passageiros que utilizam as linhas afetadas precisam verificar as condições de pagamento e integração antes de realizar viagens combinadas com os sistemas estaduais.
O caso transforma a nova frota de Campo Grande em um teste que vai além da qualidade dos veículos. A solução exigirá que Jaé, BUI e a bilhetagem estadual consigam funcionar de maneira integrada para o passageiro, independentemente de qual esfera pública administra cada trecho da viagem.
Com informações da TV Globo e Brasil de Fato.
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